As meninas que vieram
     das estrelas




   Marcos Arago Correia
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2010 Marcos Arago Correia. All rights reserved.

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First published by AuthorHouse      10/10/2010

ISBN: 978-1-4520-5875-7 (sc)




This book is printed on acid-free paper.
Dedicado a todos os Espritos do Amor,
para que nunca deixem de acreditar e desejar intensamente um
Mundo melhor.




Em especial memria de
Francesca Orofino,
Joana Cipriano,
Madeleine McCann.




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                              Captulo 1




    Suavemente Sara abria o seu livro preferido. Era um livro de magia
repleto de histrias de encantar, as quais faziam com que a sua mente se
libertasse e deixasse para trs os problemas do dia a dia.
    O corao de Sara, uma menina de nove anos, palpitava de alegria
ao penetrar em mundos de sonho, bem melhores do que aquele que a
rodeava.
    Os seus longos cabelos lisos e pretos, que contrastavam com a sua
pele muito branca, tocavam as pginas abertas do livro, enquanto os seus
lindos olhos castanhos procuravam sedentamente o ltimo pargrafo que
havia lido.
    No haviam passado mais do que alguns minutos, e o senhor Joo
Nbrega, pai de Sara, irrompe pelo quarto da filha sem sequer bater 
porta.
    - Sara Nbrega!  gritou furiosamente.  Outra vez lendo porcarias de
magia, em vez de estudares?!
    -  que eu...  hesita Sara com receio, evitando olhar para o pai.
    - No quero saber nada das tuas desculpas. D-me j essa porcaria 
nisto puxando bruscamente o livro que Sara de forma to doce abraava.
 O que  que eu j te disse?  gritava, enquanto folheava o livro.  No
estou a criar uma filha para ser uma intil, que s se interessa por coisas
das quais no se pode ganhar dinheiro!
    - Mas pai, eu j tinha estudado.



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Marcos Arago Correia

    - No interessa  afirma com raiva  No quero que percas tempo lendo
nada relacionado com magia. Compreendeste bem???
    Sara calou-se, percebendo que de nada serviria argumentar com o
pai.
    - E para mais  continuou o senhor Joo  este livro acabou-se...  e
subitamente comeou a rasgar o livro com grande violncia.
    - No, por favor pai...  o meu livro preferido...  implorou Sara quase
a chorar.
    Mas de nada servia. Uma chuva de pedacinhos de papel caa sobre a
alcatifa do quarto de Sara, como se um deus maldoso tivesse mandado
uma tempestade horrenda sobre aquela pobre criana.
    Sara estava desolada. As lgrimas que at ento conseguira conter,
escorriam agora pela sua face, ao mesmo tempo que lhe invadia um misto
de sentimento de tristeza e impotncia.
    Ouvindo o barulho, a me de Sara, a senhora Teresa Nbrega, dirige-se
ao quarto da filha para ver o que se passava.
    -  esta mida intil, que no estuda e perde o seu tempo com estas
coisas de...  explicava o senhor Joo  esposa enquanto mudava o tom
de voz para ridicularizar  ... magia!
    - Filha  justifica a me num tom de absoluta passividade  Tens que
compreender que o teu pai tem razo naquilo que diz... No podes viver
num mundo de fantasia...
    Ao sentir-se atacada tambm pela me, Sara, chorando j
abundantemente, grita:
    - No  um mundo de fantasia,  um mundo bem real! No tenho
culpa que vocs no acreditem, mas tm que respeitar aquilo em que eu
acredito!
    - Insolente, como te atreves a gritar connosco?  questiona o senhor
Joo aproximando-se de Sara; e nisto desfere-lhe uma violenta bofetada
na face j toda molhada.
    Ao som estridente do sopapo, seguiu-se um silncio avassalador. Sara
olhou para o pai com grande reprovao. No precisava dizer nada. Os seus
olhos penetravam nos olhos do pai com uma intensidade crtica tal que
pareciam mesmo queimar a prpria alma deste. Este momento pareceu
durar uma eternidade.
    Sara dirige-se  janela do seu quarto, e atravs do vidro olha para o
cu. Embora ainda no fosse noite, uma estrela j era bem visvel. Sara
fixou-a. E para ela sussurrou:

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                                            As meninas que vieram das estrelas

    - Por favor, ajuda-me!  E a estrela pareceu responder cintilando com
maior intensidade.
    O senhor Joo, convicto que o castigo tivera sido suficiente, sai do
quarto de Sara, tendo sido seguido imediatamente pela senhora Teresa.
    - Julgo que ela ir pensar melhor daqui para a frente.  disse 
esposa.
    - Ela tem que compreender que embora sejamos ricos, ela tem que
estudar e trabalhar para ser algum na vida.  responde a senhora Teresa
concordando.
    Sara mal havia dormido. O seu despertador soou intermitentemente
marcando as seis horas e meia da manh. Era um novo dia, mas a mesma
rotina.
    Ela levantou-se logo da cama, pois no havia tempo a perder. Tinha
ainda que tomar banho, tomar o pequeno-almoo e lavar os dentes, de
forma a estar pronta s sete e meia, hora em que o motorista da empresa
do pai a vinha buscar para lev-la  escola.
    - Bom dia, Eduardo!
    - Bom dia, menina Sara!  respondeu gentilmente o motorista
enquanto Sara entrava na parte de trs do carro.  Ento como foi o seu
Domingo?
    - Mau... quero dizer...  apressou-se a corrigir - ... razovel. E o seu
Eduardo?
    - Igual aos outros, quando temos pouco dinheiro, no temos muitas
alternativas nesta sociedade. Mas que se passou com a menina...? Vejo
que parece algo triste...
    - Bem, um pouco,  verdade. O meu pai rasgou o meu livro preferido,
e proibiu-me de ler tudo o que tivesse a ver com magia.  confessou,
cabisbaixa.
    - Mas porqu o senhor doutor haveria de fazer uma coisa dessas?
    - Porque ele  cego... julga que a vida  s dinheiro.  respondeu
prontamente Sara.
    - ... o dinheiro em si no traz felicidade. Sabe menina Sara, sempre
fui pobre durante toda a minha vida, os meus pais eram pobres, a minha
esposa  pobre, eu mesmo trabalho doze horas por dia, durante seis dias
por semana, mas se h alguma coisa de que eu me posso orgulhar  de que
sempre dei tudo o que de melhor podia dar  minha famlia. Com o melhor
digo respeito, apoio, carinho, coisas muito mais importantes que o dinheiro.



                                     5
Marcos Arago Correia

 olha para Sara pelo retrovisor.  Mas no fique triste, menina, porque de
resto a menina tem tudo: sade, inteligncia, beleza... e bondade...
   - Pois,  verdade que existem meninas e meninos em muito pior situao
do que eu...  afirma Sara olhando para fora do carro  E eu queria tanto
ajud-los.  murmurou.
   Cerca de quarenta minutos depois, Sara chega  escola. Tinha havido um
acidente numa das estradas pela qual passaram, e o trnsito encontrava-se
algo congestionado. O toque de entrada havia j soado, e Sara correu para
a sala de aulas.
   - Bom dia senhor professor, desculpe o atraso.
   O professor olhou para Sara com ar de mau.
   - No me digas que foi um duende que te fez atrasar?!  diz o professor
ironicamente, provocando gargalhadas entre os alunos. O professor de Sara
havia recebido instrues dos pais dela para que combatesse firmemente
quaisquer crenas da filha em relao ao sobrenatural.
   - No  responde envergonhada  houve um acidente e...
   - J sei, uma bruxa m despistou-se!  interrompeu bruscamente o
professor, provocando ainda mais gargalhadas.
   Sara calou-se, pois no sabia mais que dizer. Ela estava ali em p,
entre a porta e a secretria do docente, de cabea baixa, embaraada,
sentindo-se humilhada.
   - Ento, perdeste o pio?  continuou o professor.  Ou continuas
mergulhada nesse mundo irreal de fantasia, h? No existem bruxas! 
gritou irritado.
   Sara magoada, gritou de volta:
   - Existem sim! Existem bruxas e feiticeiros!
   Fez-se um silncio enorme na sala. Todos se admiraram da coragem de
Sara para responder assim ao docente.
   O professor levantou-se da secretria e dirigiu-se para Sara.
   - Claro, claro que existem, como me podia ter esquecido?!  e apontando
o dedo na delicada face de Sara  Tu s uma bruxa!
   Imediatamente um coro se levantou na sala, em que todos os alunos
sem excepo gritaram, repetindo sem parar:
   - Bruxa! Bruxa! Bruxa!
   Sara estava arrasada. No bastava o dia de ontem, para ainda ter que
suportar logo de manh o desrespeito do professor e dos colegas.




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                                          As meninas que vieram das estrelas

   Como que aprovando toda aquela gritaria dos alunos, o professor voltou
a se sentar sem pronunciar mais nenhuma palavra. Sara sentia-se perdida
de to humilhada.
   - Bruxa! Bruxa! Bruxa!  continuavam insistentemente todos os colegas,
agora ainda mais alto.
   Sara desvaneceu-se em lgrimas.
   - No sou bruxa!  gritou desesperadamente, mas era intil pois a sua
voz nem se ouvia com o barulho das vozes dos colegas.  No sou bruxa!
 repetiu soluando.
   - Bruxa! Bruxa! Bruxa!  continuavam.
   - Parem, no sou bruxa  tentou ainda mais uma vez, mas j com a
voz a esmorecer de tanto soluar. Reparou que o professor sorria perante
aquele triste espectculo.
   Nisto, o sentimento de mgoa foi dando lugar a um sentimento de
zanga, ela comeou a ficar mais e mais zangada, furiosa com toda aquela
injustia.
   - Parem!  gritou agora mais alto que nunca  Odeio-vos!  disse com
grande zanga.
   De repente, para surpresa de todos, todos os vidros da sala de aulas
partiram-se sem razo aparente, caindo no cho em milhares de bocados.
Todas as janelas estavam subitamente quebradas. E todos se calaram em
consequncia. Professor e alunos estavam estupefactos, e o silncio deles
revelava tambm medo e um pnico controlado.
   Sara correu para fora da sala, saindo da escola o mais depressa que
pde.
   Conhecia uma pequena loja que vendia livros, revistas e objectos, tudo
relacionado com o paranormal, na qual tinha ficado muito amiga da dona,
a senhora Margarida. Era l que gastava a maior parte da sua mesada,
comprando tudo o que podia para aprender sobre o assunto. Lembrou-se
ento de ir at l para pedir um conselho amigo.
   - Ol Margarida.  cumprimentou Sara logo que avistou a amiga atrs
do balco.
   - Ol Sarinha! O que te trs por aqui hoje? No tiveste aulas? D c
um beijinho, minha menina linda.  disse saindo do balco e pondo-se de
ccoras enquanto abraava ternamente Sara.
   Sara retribuiu o abrao com vigor enquanto ainda enxugava uma lgrima
com uma das mangas da sua camisola.



                                    7
Marcos Arago Correia

    - O que foi Sarinha? Estiveste a chorar?  perguntou Margarida
preocupada.
    Sara colocou a sua mochila num recanto da loja.
    - Preciso dos teus conselhos Margarida...  pediu, enquanto alcanou a
mo da amiga e a puxou de volta para dentro do balco.
    - Sarinha... pareces to triste hoje.
    Sara sentou-se numa das cadeiras que existiam ao p do telefone, tirou
um leno de dentro de um bolso das suas calas de ganga, assoou bem
o nariz, e amarrou o atacador de uma das suas sapatilhas que se havia
desabotoado ao fugir da escola.
    - Sabes Margarida, hoje aconteceu algo de estranho. Lembras-te daquele
livro que te comprei a semana passada? Tinha l um captulo sobre pessoas
que so capazes de deslocar objectos...
    - Sim, psicocinese. Era um captulo sobre psicocinese  concretizou
Margarida.
    - Sim, isso mesmo! Pois hoje aconteceu-me algo parecido. Acho que foi
algo que eu fiz inconscientemente.
    - O que aconteceu querida?
    - Sabes, estava hoje na escola, e cheguei um pouco atrasada. O professor,
que sabia que eu me interessava muito pelo paranormal, comeou a gozar
comigo, e depois os outros alunos fizeram o mesmo. Fui completamente
humilhada. Chorei muito, e depois fiquei to zangada que disse a todos eles
que os odiava. Algo que at agora nunca tinha dito a ningum...  lamentou
ainda meia chorosa.  Foi ento que todos os vidros da sala se partiram, e
tenho o pressentimento de que isso foi provocado por mim.
    - h, minha querida!  disse Margarida meigamente  O que te aconteceu
foi natural. Estavas sujeita a uma grande presso, algo que te estava a ferir
muito, e foi a maneira que a tua mente arranjou para aliviar essa mesma
presso sem atingir ningum directamente.  explicou enquanto acariciava a
cabea de Sara.  No te deves culpar por isso, pois tu s uma menina muito
boa, e no o fizeste por mal  continuou Margarida, trazendo suavemente a
cabea de Sara para o aconchego do seu peito.
    - Obrigada Margarida, por seres to compreensiva...  suspirou Sara de
descanso.  Eu no me considero m, muito pelo contrrio...
    - Sarinha querida, claro que tu no s m!  exclamou decididamente.
 Conheo-te h muito tempo, e desde que tu entraste pela primeira vez
por esta porta dentro que vi o quanto os teus olhos brilhavam de bons
sentimentos.  e abraou Sara mais fortemente.

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                                             As meninas que vieram das estrelas

   Sara ficou muito feliz por ter uma amiga to boa. Deu um salto na cadeira,
e disse toda contente, como se nada se tivesse passado:
   - Vou estudar melhor a psicocinese! Qual o livro que me recomendas
Margarida?
   - H vrios bastante bons... deixa ver...  pensou no que poderia ser mais
acessvel para Sara, embora soubesse que isso no seria um problema maior
porque ela j tinha uma grande maturidade para a sua idade.  Aconselho-te
este Sarinha, "A vida depois da morte", pois explica muito bem as diferenas
entre a psicocinese causada pelos encarnados como ns, e a psicocinese
causada pelos espritos desencarnados.
   - Vou lev-lo ento! Quanto custa Margarida?
   - Com o desconto que te fao por seres amiga, fica em quatro euros.
   Sara puxou da sua pequenita carteira que estava dentro da mochila, e ao
abri-la lembrou-se de que no tinha dinheiro, pois o pai retirara-lhe no dia
anterior todo o que ainda lhe restava da sua mesada, como castigo adicional
por ter estado a ler livros de magia.
   - No posso lev-lo hoje...  lamentou Sara.   que no tenho mais
dinheiro.
   - h, querida, pois ento aceita esta minha oferta!  afirmou Margarida
dando o livro a Sara, enquanto lhe afagava a cabea.
   - De certeza que no te faz diferena?  perguntou preocupada.
   - Claro que no! Ele  teu!
   Sara pegou no livro ainda hesitante.
   - V l, no te faas tolinha, guarda-o!  afirmou Margarida com carinho.
   Aceitando sem mais reservas, Sara puxa o pescoo de Margarida e d-lhe
um enorme beijo molhado na face.
   - Muito obrigada!!!  diz abraando a amiga adulta.
   - De nada, querida!
   - Tchau, at breve Margarida!  despede-se Sara toda contente enquanto
pegava na sua mochila.
   - At breve Sarinha... e cuida-te!
   Sara sabia que no podia ainda ir para casa. Tinha que esperar que o
motorista do pai a fosse buscar  porta da escola s seis da tarde. Alm do
mais, no poderia arriscar muito, e teria que evitar ler o livro em casa, no
fosse o pai ou a me apanh-la de novo. Ento resolveu ir a p para um
jardim da cidade onde pudesse ler tranquilamente at  hora de voltar a
casa.



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                              Captulo 2




   Bateu a porta do carro e despediu-se de Eduardo. Caminhava
receosamente em direco ao porto da sua casa. Bateu  campainha
esperando que no fosse nenhum dos pais a abrir a porta.
   - Quem ?  perguntou a empregada do outro lado.
   - Sou eu Maria  responde mais aliviada.
   Apressa-se a entrar dentro de casa.
   - Os meus pais j chegaram?  pergunta com alguma angstia.
   - No, menina. Queria falar com eles?
   - No, no.  responde rapidamente.  Vou subir para o meu quarto,
no precisa preparar lanche porque no tenho fome.
   Subindo pelas escadas acima, entra no quarto e coloca uma cadeira
atrs da porta, pois os pais no permitiam que ela trancasse a sua prpria
porta e por isso nunca lhe deram a chave.
   - Tenho que guardar isto depressa  pensou enquanto retirava uma
caixa de dentro do seu guarda-roupa.  Se me apanham com este livro,
ainda me matam.
   De um pequenito bolso das suas calas retirou uma diminuta chave,
com a qual abriu a caixa. L dentro podiam-se encontrar dezenas de livros
e revistas sobre o sobrenatural. Nunca ningum desconfiara do que l
tinha guardado, pois a caixa era uma caixa de bonecas de loia, oferecida
h alguns anos pelos avs maternos. As bonecas, essas Sara oferecera
em segredo a uma menina sua vizinha, pedindo-lhe em troca que nunca
dissesse que tinha sido ela a lhe dar. Fez uma boa aco, a menina da casa

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                                            As meninas que vieram das estrelas

em frente ficara toda contente, e ao mesmo tempo livrara-se delas pois
nunca gostou muito de brincar com bonecas. Nunca os pais suspeitaram,
porque a caixa com as bonecas era pesada, o que, substituindo-as por
livros e revistas, no fazia muita diferena.
    Guardou ansiosamente o seu novo livro dentro da caixa. E finalmente
suspirou de alvio. Ou quase de alvio. Sara sabia que o professor com
certeza iria participar aos pais o facto de ter faltado s aulas nesse dia.
E isso iria enfurec-los. Por isso Sara andava de um lado para outro no
quarto, pensando na melhor desculpa que poderia dar aos pais de forma
a evitar um grande castigo.
    - Que posso eu dizer?  pensou preocupada  Eles no me vo perdoar
ter faltado o dia inteiro  escola.
    Passara-se meia hora, Sara estava cansada, e deitou-se na sua cama,
tendo adormecido quase de imediato.
    Pouco tempo depois, acorda sobressaltada com o pai a bater violentamente
na porta, tentando abri-la. Sara retira a cadeira de trs e corre de volta
para a cama, onde se senta, cheia de medo da violncia do pai, que lhe
entra pelo quarto dentro gritando furiosamente, seguido pela me.
    - Sara Nbrega! Sua vagabunda! O que  que fizeste hoje?  berra o
senhor Joo enfurecido.
    - Sara, recebemos na empresa um telefonema do teu professor,
avisando-nos que tu tinhas fugido da escola esta manh.  acrescenta a
senhora Teresa tambm visivelmente bastante incomodada.
    - Posso explicar tudo  gagueja Sara.
    - Eu  que te vou explicar tudo  diz com rancor o senhor Joo enquanto
desaperta a gravata.
    - Pai, me, por favor, o professor no vos contou dos vidros?
    - Sim, algum tipo de vibraes imperceptveis causadas por alguma
mquina que trabalhava nas proximidades, que provocou a quebra dos
vidros.  responde prontamente a senhora Teresa.
    - No! No existia nenhuma mquina dessas ali prxima!  contra-
argumenta Sara com convico.
    - Sua burra!  grita o pai.  Ests a dizer que foi uma dessas tretas
para anormais???
    - Sim, paranormais, pai...
    - Pois vou te dar a tua anormalidade  responde com malcia, enquanto
rapidamente comea a desapertar e a puxar o cinto das suas calas.
    Sara ao ver isto, implora ao pai:

                                     11
Marcos Arago Correia

    - Por favor, pai, no me batas, eu gosto de ti...
    O senhor Joo no se comove, e avana, fazendo movimentos com o
cinto, como se estivesse a preparar um chicote.
    - Pois eu no gosto de vagabundas.  diz e nisto comea a bater
violentamente com o cinto na filha.
    Sara encolhe-se sobre a cama tentando cobrir-se com os lenis, mas
em vo. O senhor Joo com a outra mo deita toda a roupa no cho e
impede Sara de se proteger.
    A senhora Teresa assiste conformada a tudo. O cinto subia e descia sobre
Sara, tal como um verdadeiro chicotear sobre um pretenso bandido.
    Mais uma vez, pela face de Sara, escorriam pequenas gotas de dor,
lgrimas inocentes de uma criana infeliz.
    Enquanto corajosamente impedia que se soltassem os gritos da sua dor
fsica, pensou:
    - Eles no me amam, decididamente eles no me amam.
    S muitos minutos depois, quando o senhor Joo se cansou,  que
cessaram os horrveis barulhos de to imerecida punio.
    Voltou a colocar o cinto nas calas, apertou a gravata e saiu do quarto,
sendo seguido logo atrs pela senhora Teresa.
    Era demais! Sara estava arrasada. Ela no queria mais viver assim
completamente infeliz. De que servia ter computadores, carros com
motorista, empregada domstica, casa com piscina, enfim, todas as riquezas
materiais, se ningum ali a amava nem respeitava? Sentia-se uma escrava.
A dor fsica associava-se a uma dor psquica maior do que nunca. Mas no,
ela no queria morrer. Ela queria viver, mas viver verdadeiramente, viver
feliz, ser querida, e ali o que eles queriam no era ela, mas sim algum
fantoche imaginrio que no existia.
    Sara olhou mais uma vez para o cu pela janela do seu quarto. A mesma
estrela de ontem... j l brilhava! Pensou o quo bonita ela era, e o quanto a
sua vida estava to afastada dessa beleza. Ps-se de joelhos contemplando
a estrela. As lgrimas eram ainda abundantes, embora a sua expresso
j no fosse de tanta rdua tristeza. Uma ideia de esperana comeava a
nascer fortemente dentro dela. Sim, ela podia mudar a sua vida.
    - Vou  tua procura estrelinha. Vou fugir de casa. Vou procurar quem
me possa amar.  pensou com grande desejo, enquanto a estrela pareceu
mais uma vez responder brilhando com maior intensidade.
    Estava decidido. Naquela noite sairia de casa. Colocou novamente a
cadeira atrs da porta do seu quarto. Pegou na sua mochila e esvaziou-a de

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                                             As meninas que vieram das estrelas

todo o material escolar. Era suficientemente grande para l poder colocar
todas as coisas mais importantes que tinha que levar.
   Comeou a escolher. Alguma roupa, um par de sapatos e um casaco
bem quente seriam suficientes como vesturio. Uma garrafa de gua e um
pacote de bolachas integrais que tinha sobre a mesa-de-cabeceira. A sua
lanterna era tambm imprescindvel para a noite. E  claro, tinha que levar
o mximo de livros de magia que coubessem!
   Encheu a mochila, mas viu que estava demasiado pesada. No posso levar
tanto peso, pensou. Seria difcil correr assim. Para sua grande infelicidade,
teve que seleccionar apenas alguns dos mais importantes livros.
   - Pronto, no preciso de mais nada.  pensou enquanto fechava a mala.
 Vai dar para os primeiros dias.
   Sara escondeu a mochila debaixo da cama. Restava-lhe agora esperar
a melhor hora para fugir de casa sem que ningum percebesse. Tirou os
sapatos e enfiou-se na cama aguardando ansiosamente a hora em que os
pais se deitassem. De certeza que no a iriam chamar para jantar depois
daquela tareia, assegurou-se.
   Enquanto esperava, pensava para onde poderia ir. Tinha ouvido falar
na televiso que as crianas que eram maltratadas pelos pais poderiam
pedir ajuda  polcia, e que esta encaminharia essas crianas para casas
da segurana social, onde poderiam esperar at que uma famlia  procura
de adoptar crianas as fosse buscar. Parecia-lhe uma boa hiptese. Ser
muito difcil que tenha o azar de ser escolhida por uma famlia pior do que a
minha, e se isso acontecer poderei sempre fugir outra vez, pensou. Estava
decidido: iria procurar a ajuda da polcia.
   Quando eram onze e meia da noite, Sara ouviu os pais a entrarem
no quarto deles. Saltou da cama. Ps os sapatos apressadamente e de
seguida colocou a mochila atrs das costas. Sorrateiramente espreitou
pela porta para ver se o caminho estava efectivamente livre. Desceu as
escadas e dirigiu-se ao painel do alarme da casa para deslig-lo, de modo
que no fosse accionado quando abrisse as portas. Pronto. Saiu para o
jardim com redobrada cautela, e espreitou para ver onde se encontravam
os guarda-costas do pai. Ali estavam eles: um, dois, trs, quatro, cinco,
seis! J era costume, ao verem as luzes do interior da casa apagarem-se,
reunirem-se todos  volta de uma grande mesa l no fundo, onde discutiam
apaixonadamente e durante toda a noite as ltimas novidades dos seus
clubes de futebol. OK! Caminho livre! Correu ento at ao porto de entrada.
Olhou-o de cima a baixo. Era a ltima fronteira para a sua felicidade,

                                     13
Marcos Arago Correia

pensou. Meteu a chave com cuidado. Deu uma, duas, trs voltas. J est!
Apressou-se para a rua, correndo pela estrada abaixo.
   Sabia bem onde se encontrava a esquadra de polcia mais prxima. Trs
quarteires era tudo quanto precisava percorrer. Chegada  esquadra,
disse ao guarda que se encontrava  entrada que precisava fazer uma
queixa. Este acompanhou-a at ao balco de atendimento.
   - Boa noite, menina. O que a traz por aqui?  perguntou o polcia que
se encontrava no atendimento.
   - Boa noite senhor polcia. Vim fazer uma queixa dos meus pais. 
respondeu Sara enquanto tirava a mochila de trs das costas.
   - O que se passa menina?  perguntou o agente, curioso pela situao
inslita. Uma longa noite de servio esperava-o pela frente, e este poderia
afinal ser um caso divertido, pensava o polcia.
   - Os meus pais passam a vida a me castigar sem razo. Ainda hoje o
meu pai espancou-me com o cinto at no poder mais. Veja...  despiu a
camisa para mostrar as marcas no corpo, as quais eram bem visveis.
   O polcia aproximou-se do balco para ver melhor. Eram bem ntidas.
Inmeras marcas avermelhadas, compridas e largas cobriam o corpo de
Sara, como se tivesse sido violentamente chicoteada. Algumas delas ainda
tinham sangue  superfcie.
   - E quem  o seu pai?  questionou o agente com interesse.
   - Joo Nbrega.  respondeu com ingenuidade.
   - Joo Nbrega? Qual Joo Nbrega?  retorquiu o polcia
sobressaltado.
   - Joo Nbrega, que mora naquela grande manso, trs quarteires rua
acima.  continuou ingenuamente.
   - A menina quer dizer que o seu pai  o doutor Joo Nbrega, Ministro
do Estado?  perguntou perplexo.
   - Esse mesmo.  respondeu com inocncia.
   O polcia estava boquiaberto. Tinha  sua frente a filha do mais importante
ministro do pas, a se queixar do prprio ministro seu pai.
   Por uns largos segundos no soube o que dizer. Ento resolveu telefonar
para o seu comandante.
   - Menina sente-se ali por favor, enquanto vou telefonar para o servio
permanente da assistncia social.  mentiu.
   - Est bem, eu aguardo.  dirigindo-se para o longo banco que se
encontrava mesmo ao lado do balco.



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                                            As meninas que vieram das estrelas

   O polcia vai para um quarto atrs, e fechando a porta, telefona baixinho
para o comandante. Este, perante a situao, no hesita em ordenar
ao subordinado que trancasse a criana numa cela, de forma a que no
pudesse fugir, enquanto ele mesmo avisaria o pai de que a sua filha
se encontrava naquela esquadra. E nada de receber queixas da mida,
concluiu o comandante.
   O polcia dirige-se ento de volta para Sara, e pegando-lhe no brao
diz:
   - Venha menina, a segurana social j vem. Mas no a podemos deixar
aqui, isto  um lugar perigoso, muitos criminosos entram e saem. Por
isso vamos coloc-la numa cela, para sua prpria segurana, enquanto a
assistente no chega.
   - Numa cela?  pergunta Sara admirada.  No posso esperar noutro
lugar?  que no me agrada muito a ideia de parecer que estou presa...
   -  para o seu prprio bem.  o lugar mais seguro. Tenha pacincia.  e
puxa Sara pelo brao com nervosismo.
   Sara  levada e trancada na cela. Meia hora depois, o Sr. Joo Nbrega
entra pela esquadra dentro, acompanhado da esposa e do comandante.
   - Senhor doutor, muito boa noite, temos aqui a sua filha.
   - No nos tnhamos apercebido que ela tinha fugido de casa. Onde est?
 pergunta o senhor Joo com voz calma e ao mesmo tempo autoritria.
   - Est numa cela, no fosse ela fugir daqui.
   - Traga-a j aqui.  ordena o comandante.
   O polcia dirige-se  cela, e abrindo a porta diz:
   - Venha menina, a segurana social j chegou.
   Sara acompanha o agente da autoridade com confiana. Este, por
precauo, agarra-lhe o brao enquanto caminham.
   Ao chegar, v os pais, e logo percebe que foi enganada. Olha para o
polcia e diz-lhe:
   - Mentiroso! Voc no passa dum fantoche horrvel!
   Nisto o pai d-lhe uma forte bofetada. E agarrando-a violentamente
pelo brao:
   - Ns em casa j falamos.
   A me, como sempre, assiste passivamente, deixando o marido assumir
o controlo de toda a situao.
   - Senhor comandante, pode ter a certeza que tanto o senhor, como ali
o senhor agente, sero recompensados. O meu assessor telefonar-vos-
amanh para comunicar a vossa promoo.

                                     15
Marcos Arago Correia

   O comandante e o agente agradecem, enquanto Sara olhando para um
e para outro alternadamente, diz-lhes zangada:
   - Espero que tratem melhor os vossos filhos do que me trataram a
mim.
   O pai puxa Sara pelo brao, seguindo o comandante, e entram na
viatura da polcia que os tinha levado at l.
   Ao chegarem a casa, o comandante sai para abrir a porta ao senhor
Joo Nbrega. Sara  sempre agarrada pelo pai, e na outra mo ela segura
a sua mochila. O comandante despede-se, enquanto a me abre a porta
de casa. Esta era a sua ltima oportunidade.
   Com toda a sua fora d um pontap na perna do pai, e este surpreso,
instintivamente larga o brao de Sara. Sara larga a mochila e corre com
todas as suas foras pela rua abaixo.
   O comandante ainda no local, d ordens ao guarda que conduzia a
viatura:
   - Atrs dela, rpido!
   Enquanto o guarda comea a virar o carro para perseguir Sara que
fugia em sentido contrrio, o prprio comandante para mostrar servio
e dedicao pessoal ao seu chefe o senhor Joo Nbrega, comea a
correr atrs de Sara. Mas o seu grande peso corporal, e uma inusitada
barriga, frutos de inmeros e recheados almoos e jantares oferecidos em
cerimnias pblicas, no o permitem avanar muito, e, porque a prpria
barriga lhe colhia a viso do cho mais prximo, enfiou o p num buraco
de esgoto que se encontrava destapado, tropeando e caindo mesmo sobre
um monte de fezes de co.
   O guarda que se encontrava a perseguir Sara na viatura, e que ainda
no se encontrava muito afastado do comandante, pelo espelho lateral
viu-o a cair, e com receio de ser censurado por no o ajudar, faz marcha-
atrs.
   - Imbecil, o que est a fazer? Apanhe a mida ou vamos todos para a
rua!  grita o comandante para o agente, enquanto cospe pedaos de fezes
de co que lhe haviam ficado nos lbios.
   Mas era o quanto bastou para que Sara tivesse tempo e desaparecesse
nas brumas da noite.
   Depois de ter a certeza que j se encontrava bem longe e a salvo, Sara
parou por momentos, ofegante. Estava cansada de tanto correr. Olhou em
volta. Os prdios altos, silenciosos, e a rua deserta, pareciam constituir o
cenrio duma cidade vazia.

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                                            As meninas que vieram das estrelas

    - Para onde posso ir agora?  murmurou inquieta.
    Estava s. A noite era fria. No tinha nada consigo, nem um casaco.
Sentou-se na berma de um passeio. Colocou a cabea e os braos sobre os
joelhos flectidos. Uma sensao de desespero abalou-a. A tristeza, a solido
e agora tambm o cansao e o frio, faziam-na duvidar que conseguisse
encontrar um futuro melhor. Por momentos hesitou. Ento olhou para o
cu tentando encontrar a estrela que tinha visto antes pela janela do seu
quarto. Ela era especial. Brilhava intensamente, mais do que todas as
outras, tanto que podia ser vista mesmo antes da noite cair por completo.
Procurou-a por entre todas as estrelas. No a conseguia encontrar. Existiam
algumas nuvens no cu. Esperou que elas se movessem, mas o vento no
colaborava.
    - Estrelinha, onde ests?  perguntou com os seus olhos to doces
fixando o cu.
    Nada. Voltou a perguntar. E ainda mais uma vez.
    Ento, subitamente uma suave rajada de vento fez-se sentir, e as
nuvens comearam a se deslocar. E eis que de repente... apareceu a sua
estrela! Estava escondida no cu por detrs duma nuvem!
    - Ajuda-me estrelinha linda!  disse contemplando-a, enquanto ela
brilhava fortemente no cu.
    Nisto, um sentimento de esperana e de convico de que era capaz,
tomou posse dela. Sorriu. No podia desistir e voltar quele inferno em
que estava mergulhada.
    Levantou-se ento e lembrou-se da sua amiga Margarida. Sabia que
nela podia confiar, e que ela a ajudaria sempre que fosse preciso.
    Decidiu ir ter com ela. Morava no andar mesmo por cima da loja. Era
uma emergncia, e Margarida iria compreender.
    Enquanto caminhava, um homem que saa de uma discoteca veio ter
consigo:
    - Ei, mida!  gritou.  Queres p? - Parecia estar bbado, porque
cambaleava de um lado para outro.
    - P? O que  isso?
    - Aaaaahhh!!! Jovenzita, inocentezinha!  disse enquanto parecia fazer
um esforo desmesurado para se manter de p.  Olha, p branco, mousse
de chocolate branco!
    - No muito obrigada, no tenho fome.  respondeu.
    - Ah! Ah! Ah!  riu vagarosamente.  No  para comeres, mas para
cheirares mida! Percebeste agora?

                                     17
Marcos Arago Correia

    Sara entendeu logo que lhe queriam vender drogas.
    - No gosto de drogas, de nenhuma delas!  respondeu determinada,
afastando-se do homem.
    - Anda c, ofereo-te s um pouco para provares, no sabes o que 
bom!
    Sara correu dali o mais depressa que pde. Sabia o que eram as drogas,
e o quanto elas eram prejudiciais para a sade.
    O homem ainda tentou ir atrs dela, mas no conseguia dar mais do
que alguns passos sem ter que parar e ficar a girar em p parecendo um
carrossel.
    - Espero que deixe essas porcarias e mude a sua vida para melhor! 
gritou Sara j de longe.
    Alguns minutos depois, Sara chegou  casa de Margarida, tendo batido
directamente na porta pois Margarida no tinha campainha.
    - Sara! O que se passa filha, ests bem?  abrindo a porta para que
Sara entrasse.
    - Preciso da tua ajuda Margarida.  E contou  amiga tudo o que se
tinha passado.
    - h, Sarinha  disse acariciando-lhe o rosto  Podes ficar aqui o tempo
que for preciso. No posso deixar de concordar que levando a vida que
levas nunca poders ser feliz. Fica aqui at encontrares o caminho que
queres seguir na tua vida.  tranquilizou-a.
    - Obrigada Margarida! Mas como  que saberei qual  o meu caminho
na vida?  perguntou suspirando.
    - S tu poders descobrir. Ningum te pode impor nada. O teu caminho
est apenas dentro de ti. Deves procur-lo bem, livre de quaisquer
influncias exteriores.
    - Mas tu no me podes ajudar a descobri-lo?
    - A nica ajuda que te posso dar em relao a isso  te dizer que, logo
da primeira vez que te vi entrar na minha loja, constatei que tu eras um
Esprito muito bom, e o teu caminho por consequncia ter algo a haver
com contribuir para que o mundo seja um lugar melhor para se viver.
    Sara sentiu-se bem. Pela primeira vez algum lhe dizia que no tinha
que trabalhar para ganhar dinheiro, mas sim apenas trabalhar para ajudar
os outros. Isso significava que no tinha que se preocupar mais com a
escola, exclamou para si mesma repleta de contentamento!
    - Mas sendo eu uma criana, o que posso fazer?  perguntou com
dvidas.

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                                           As meninas que vieram das estrelas

   - O facto de seres uma criana no faz de ti um ser inferior. At muito
pelo contrrio: no sofreste muitas das ms influncias, e a mo de
Deus ainda se faz ouvir dentro de ti. Por dentro do teu corpo, ligado a
ele e controlando-o, est um Esprito, e  a que reside toda a tua fora,
independentemente da idade fsica. Tu s o teu Esprito.
   - Ests a falar do poder da mente?
   - Sim, poder da mente ou poder do Esprito  a mesma coisa.
 explicou.
   Sara abraou Margarida com grande gratido por esta ser to sua
amiga.
   - Sarinha, diz-me uma coisa, tu tens tido sonhos fora do vulgar? 
perguntou-lhe ao ouvido enquanto retribua o abrao.
   - Fora do vulgar... assim como? Relacionados com magia?
   - Sim, por exemplo.
   - Tenho tido muitos. Desde h vrios anos que sonho que estou a
combater contra um monstro horrvel. Nesses sonhos eu sou capaz de voar
e de deitar bolas de fogo das minhas mos contra esse monstro, apenas
desejando.
   - No te disse Sarinha que o teu futuro passava por lutares por um
mundo melhor?  isso que no fundo esse sonho significa! E que tu tens o
poder para desempenhar essa misso to linda!
   - Sabes, Margarida, nestes ltimos dias tenho falado com uma estrela
muito brilhante no cu, a quem nestes momentos mais difceis tenho
pedido ajuda. E o facto  que tenho a sria impresso que ela tem me
ajudado!  contou enquanto os seus olhos brilhavam.  Sempre que falava
com ela, ela cintilava mais, e parecia que me transmitia esperana e fora
para escolher o meu prprio destino.
   Margarida ficou em silncio por alguns momentos.
   - Margarida, ouviste o que eu disse?
   - Claro, claro que sim Sarinha.  respondeu prontamente.   que
estava pensando... talvez essa estrela... talvez essa estrela seja mais do
que uma estrela...
   - Mais do que uma estrela? Como assim?
   - No quero estar a colocar ideias dentro da tua cabea sem ter a
certeza de saber daquilo de que se trata.  e mudando de assunto.  Anda,
vou te preparar uma cama que tenho ali num quarto ao lado. Precisas de
descansar, j  tarde e tiveste um dia horrvel.  e pegou na mo de Sara
para mostrar-lhe o seu novo quarto.

                                    19
Marcos Arago Correia

    - Mas, Margarida, estou curiosa... o que queres dizer com essa estrela
ser mais do que uma estrela?  insistiu Sara.
    - Querida, amanh falamos com mais calma.  respondeu cautelosamente
enquanto ajeitava os lenis e o cobertor.  Ests  vontade, esta casa
 tua!  humilde, mas tudo o que c est podes te servir sem perguntar,
pois tambm te pertence!
    - Obrigada Margarida, muito obrigada, gosto muito de ti!  e deu-lhe
um forte beijo na cara.
    - Boa noite querida, dorme bem.  dando-lhe tambm um beijo.
    Margarida foi-se deitar, esperando que Sara tambm repousasse
daqueles dias conturbados.
    Mas Sara no conseguia dormir. Ficava pensando no risco que a sua
amiga corria ao acolh-la em casa. Depois daquilo que se passara na
polcia, no confiava mais nas instituies.
    Se a Margarida for descoberta, fecham-lhe a loja e metem-na na cadeia,
e de certeza que o meu pai far tudo para que ela nunca mais saia da
priso.  pensou preocupada.  No posso deixar que isso acontea.
    No conseguia dormir com aquela ideia na cabea. Levantou-se da
cama e dirigiu-se at  sala. Sem fazer barulho, procurou uma folha de
papel e uma caneta. Ali estava um bloco de notas juntamente com uma
esferogrfica, no qual escreveu uma mensagem  amiga.
    Tinha que se ir embora. No sabia para aonde. Mas no parava de
pensar naquela estrela no cu, o quanto ela era especial, e na ajuda que ela
j lhe tinha dado, e que de certeza continuaria a dar. Era isso! Iria procurar
mais uma vez a ajuda da estrela! Iria entregar o seu destino nas mos
dessa estrelinha to linda que brilhava no cu, decidiu com convico.
    Saiu da casa de Margarida, ainda era noite cerrada. Sabia que havia um
bosque ali prximo. Tudo o que tinha a fazer era andar cerca de meia hora,
e estaria l. Era o lugar ideal para estar a ss com a estrela.
    Entretanto, Margarida ouvira a porta da rua fechar-se, e levantou-se.
Procurou Sara, e no a tendo encontrado, logo percebeu o que acontecera.
Em cima da cama, onde deveria estar Sara, viu o bilhete que ela deixou.
Nele leu:
    Querida Margarida. Primeiro, quero te agradecer uma vez mais tudo o
que fizeste por mim. s muito boa, e tal como tu me ensinaste o Bem atrai
o Bem e o Mal atrai o Mal. Assim, tenho a certeza que a tua vida ser cheia
de Luz. Acredito que no foi um mero acaso te ter encontrado. Nada na
vida acontece por acaso. Ensinaste-me muitas coisas importantes, tu e os

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                                            As meninas que vieram das estrelas

teus livros fizeram-me acreditar e ter esperana. Sou uma criana crescida
devido a ti. Mas como o Bem atrai o Bem, no podia ficar a contigo, porque
mais tarde ou mais cedo iriam descobrir e eu jamais poderia permitir que
por minha causa te acontecesse algo de mal. Por isso vou-me embora. Mas
no te preocupes, porque tal como tu sempre me disseste, a f  a chave
para concretizar os nossos sonhos. Essa  a verdadeira magia. No fiques
triste, estars sempre no meu corao. Muitos beijos. Sara.
    Margarida foi  janela, olhou para o cu e viu a estrela muito brilhante
de que Sara falara. Concentrou-se nela, e com toda a sua f, disse:
    - Protege-a, no a deixes desamparada. Deixa-a viver para cumprir a
sua misso e ser feliz. Ela merece.
    E voltou para a cama, confiante de que tudo correria bem.




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                              Captulo 3




   Estava muito frio. Sara no tinha nada consigo a no ser a roupa que
trazia no corpo, o casaco tinha ficado para trs na mochila. Felizmente que
a luz da lua ajudava e assim podia ver o caminho entre o bosque.
   Chegou a uma clareira. Ali no se viam casas. Descansou por um minuto.
Olhou para o cu, e logo encontrou a sua estrela brilhando fortemente.
Colocou-se de joelhos e com as palmas das mos juntas e viradas para
cima, junto ao peito, como se tivesse a orar.
   - Estrela linda, por favor, ajuda-me. Preciso muito da tua ajuda. Eu
sei que posso confiar em ti, como tu sabes que podes confiar em mim.
Ajuda-me a viver na Luz, por favor,  muito importante para mim. Sabes
que no posso voltar para trs, e que se ficar aqui, sem a tua ajuda,
morrerei. E no  isso que tu queres...
   De repente pareceu-lhe que a estrela se movia. Seriam os seus olhos?
Concentrou-se bem na estrela. No, no era uma iluso, a estrela estava
mesmo a mover-se para a direita! Que lindo, pensou! Ao mesmo tempo
parecia que se tornava maior, ou... ou estaria a aproximar-se? Sim, era
isso, estava a aproximar-se lentamente do local onde Sara estava!
   Por momentos Sara teve medo. E se a estrela fosse m, interrogou-se.
Ento, como se ela conseguisse ler os pensamentos de Sara, parou e de
seguida recuou. Sara logo compreendeu que o seu receio estava a afastar
a estrela. Ou seja, se a estrela conseguia sentir que Sara estava com medo
e por isso recuou, isso significava que no era m, porque seno os seus
sentimentos lhe seriam indiferentes! A estrela conseguia ver a sua mente

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                                           As meninas que vieram das estrelas

por dentro e, ao mesmo tempo, no queria mago-la de modo algum, nem
que fosse com um simples sentimento de receio, constatava Sara. Ento
ficou novamente confiante.
    - Vem estrelinha linda, eu gosto muito de ti! No tenhas receio porque
eu tambm no tenho!  gritou ao mesmo tempo que se levantava.
    Ento a estrela mais uma vez aproximou-se suavemente. Foi ficando
cada vez mais perto at que, ao descer e se colocar a apenas alguns metros
de distncia, Sara pde ver que no era bem uma estrela, mas algo como
uma nave redonda, sem asas, muito bonita, que emitia raios de luz muito
brancos em todo o seu redor, tantos que toda a clareira ficou iluminada
como se fosse de dia. Sara estava admirada com tal maravilhosa beleza.
    No conseguia distinguir janelas ou portas, mas eis que por debaixo da
nave abriu-se uma espcie de porta, e dois seres saram flutuando at ao
cho, percorrendo rapidamente os poucos metros que separavam a nave do
solo. Tinham forma humana, e ao aproximarem-se Sara pde ver que eram
um homem e uma mulher, ambos muito lindos, pareciam adolescentes mas
com um ar de muita maturidade. Embora tivessem a cabea descoberta,
vestiam uniformes brancos iguais, uma s pea muito justa que os cobria
desde os tornozelos, onde terminavam as botas tambm brancas que
tinham caladas, at ao pescoo. Conseguia distinguir bem duas largas
listas azuis que percorriam todo o comprimento de cada um dos uniformes,
uma de cada lado do corpo. Era tudo de facto muito bonito, pensava.
    Entretanto, enquanto essas pessoas caminhavam em sua direco, Sara
comeou a sentir uma grande paz, um sentimento de grande tranquilidade,
como se eles estivessem a transmitir atravs das suas mentes para a
mente de Sara, esse mesmo sentimento de calma. Sara estava por isso
muito relaxada e confiante de que estava em boas mos.
    Ao chegarem ao p de Sara, a mulher colocou-lhe uma mo sobre a
cabea, e muito carinhosamente disse-lhe:
    - Ol Sara!
    - Ol querida!  seguiu-se-lhe logo o rapaz.
    - Ol!  disse gaguejando, no por medo, mas estupefacta por toda
aquela experincia. Nem perguntou como sabiam o nome dela, pois quem
fazia aquilo tudo, era capaz de muito mais.
    - Viemos te ajudar.  disse o rapaz.
    - Vamos te levar para uma das nossas aldeias na Terra, onde podes
ser feliz e l aprenderes a usar os teus poderes.  disse a rapariga agora
colocando-se de ccoras frente a Sara.

                                    23
Marcos Arago Correia

    - Queres vir?  pergunta o rapaz enquanto lhe passava com ternura a
mo na face.
    - Claro que sim!  responde prontamente Sara, ainda visivelmente
abalada com tudo aquilo.
    Ento o rapaz e a rapariga deram-lhe a mo, um de cada lado de Sara,
e levaram-na at debaixo da nave.
    - Agora, para entrares na nave, s tens que desejar.  disse a
rapariga.
    - Desejar? Imaginando que entro?
    - Isso, mas imaginares que isso  mesmo possvel e est a se concretizar
no momento.  explica o rapaz.
    Sara desejou entrar na nave, mas no conseguia levantar-se do cho.
Entretanto reparou que os seus amigos j se encontravam acima dela e
que haviam parado, esperando que ela os acompanhasse.
    - No consigo  disse-lhes Sara decepcionada.
    - Se achas que no consegues, ento no conseguirs mesmo.  disse
a rapariga.  Tu sabes Sara que a f  essencial, e que sem ela nada 
possvel. Se no tiveres f no ser realizado.
    - Deseja fortemente Sara, tem f!  acrescentou o rapaz.
    Sara fechou os olhos. Desejou com grande fora. Imaginou-se a elevar
do cho lentamente, acreditou que tal era possvel, que era isso que ela
queria, e que era isso que estava acontecendo no momento. Abriu os olhos,
e continuou desejando com muita intensidade. Quando olhou para o cho,
estava j separada dele, subindo lentamente.
    - Estou a flutuar!  gritou de comoo.  Estou a flutuar!
    Os amigos voltaram a lhe dar as mos, e entraram juntos na nave.
Ento a porta fechou-se e no se conseguia mais distinguir nenhum sinal
dela. Sara olhou em volta. A nave era linda, uma luz branca muito suave
iluminava uniformemente o seu interior. Uma vigia, ou melhor uma grande
janela rectangular, percorria toda a face lateral da nave, podendo ver-se
perfeitamente o exterior, mas sem que fosse possvel, como Sara antes
constatara, ver o seu interior. Existiam seis grandes cadeires, em duas
filas de trs, virados para o mesmo lado mas acompanhando a curvatura
da nave, e  frente um grande painel com uma grande tela e muitos botes
coloridos.
    - No  preciso carregar neles  explica o rapaz vendo que Sara olhava
para os botes.  Esto ali s para emergncias. Tudo aqui funciona com



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                                            As meninas que vieram das estrelas

o controlo da mente. Basta desejar para a nave interpretar o que ns
queremos e cumprir de imediato as nossas ordens.
    -  o mais sofisticado que existe! Senta-te, vamos j te demonstrar! 
continua a rapariga, indicando com a mo para Sara escolher um lugar na
primeira fila.
    - Onde est o cinto?  perguntou Sara enquanto o procurava.
    - No precisamos!  riu-se o rapaz.  Existe uma fora dentro da nave
que faz com que os movimentos e a velocidade dela no afectem o seu
interior!  como se ela estivesse sempre parada, embora possa estar a
andar a milhes de quilmetros por hora!
    - Milhes de quilmetros por hora???  perguntou Sara estupefacta.
    - Sim, milhes!  acrescentou o rapaz.  Tudo  possvel desde que
esteja de acordo com a Lei Universal, basta querer!  enquanto dizia isto
a rapariga sorria ao ver a cara de espanto de Sara.
    - Que Lei Universal  essa?  pergunta Sara com enorme curiosidade.
    - Bem-vinda a bordo duma nave do Amor: a nica Lei Universal
verdadeira!  respondeu a rapariga, satisfazendo de imediato a curiosidade
de Sara.
    - Eu j pressentia!  desabafa Sara com alegria.  Sempre tentei
encontrar a verdade, e perante tantas teorias, eu dizia sempre que o
que interessava era que o Bem existia. Afinal eu estava bem prxima da
verdade, o Bem  o Amor!
    - Claro Sara! O Amor  Deus, o nico verdadeiro Deus. Tudo o que 
Amor,  Bem. Tudo aquilo que no  Amor,  Mal.  explicou com muita
meiguice o rapaz.
    Sara ajeitou-se na cadeira, muito contente por tudo aquilo que estava
ouvindo.
    - Ateno, vamos partir! Nave, cem mil, directo, rbita!  comanda a
rapariga.
    Sara v pelas janelas a nave a levantar e de repente, sim, estava j no
espao, e estava a ver o planeta Terra ao lado!
    - Fantstico!  exclama Sara entusiasmada.
    - Quis demonstrar-te como funcionam os comandos da nave  explica
feliz a rapariga ao ver que Sara estava gostando  Eu no precisava
sequer falar, bastava eu desejar, imaginando o que queria da nave, tal
como o fiz, para ela prontamente executar. Comandei a nave para se
dirigir directamente para a rbita da Terra, a uma velocidade de cem mil
quilmetros por hora.

                                    25
Marcos Arago Correia

   - To giro! Maravilhoso! Apesar de todos aqueles computadores, avies
super-snicos, foguetes espaciais, etc., a Terra parece viver na pr-
histria comparando com a vossa tecnologia!  constata Sara ainda muito
excitada, ao mesmo tempo que, mantendo-se sentada, olha em seu redor
para o planeta e o espao, tentando ver tudo quanto podia.
   - Vossa, no! Nossa tecnologia, ela tambm  tua!  corrige rapidamente
o rapaz.  Bem-vinda Yania!
   - S muito bem-vinda, Yania!  junta-se a rapariga  saudao.
   - Yania?  pergunta Sara admirada.
   - Sim, o teu nome verdadeiro  Yania, e tal como ns, tu s um Esprito
do Amor.  explica a rapariga.  A partir de agora ser este nome que
devers usar.
   Yania (Sara) estava sentada na cadeira da ponta. Em toda a sua volta
tinha um espectculo fabuloso: estava no espao, e via a Terra desde fora
dela! Dentro, tinha dois Seres Humanos lindssimos, sentados nas cadeiras
 sua direita, a lhe dizerem tantas coisas maravilhosas! Depois de dias to
tormentosos, apanha um choque daqueles! Ainda lhe custava a acreditar
em todas aquelas coisas fantsticas por que estava a passar, mas no, no
era um sonho, era bem real, e ela estava ali vivendo tudo aquilo!
   - Quer dizer que vocs j me conheciam?
   - Claro, muito antes de tu nasceres na Terra! Tu nasceste pela primeira
vez numa regio do Universo muito linda, onde s existe Amor. Depois
escolheste vir  Terra durante uma vida, contribuir para a luta contra o Mal.
 explica a rapariga.   normal que no te lembres ainda disto. O processo
de desencarnao e reencarnao por vezes leva a um esquecimento
temporrio das vidas passadas, mas fazendo alguns exerccios meditativos
especiais facilmente se recuperam essas memrias.
   - Estou to contente por saber que no estou s!  diz Yania quase a
chorar de felicidade. Levanta-se e abraa os seus dois amigos, enquanto
estes retribuem da mesma forma.  Eu estava to triste por ver tanta
maldade na Terra. S tinha uma amiga, a Margarida, da qual eu gosto
muito. Mas de resto sentia-me uma autntica extraterrestre!  sorriu. 
Extraterrestre!!!  isso!!! Eu sou uma extraterrestre, por isso  que no
me adaptava ao modo de vida da Terra! A maior parte dos terrestres
recusam o Amor, e por isso existem l tantas violncias, guerras, dios,
discriminaes, injustias...




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                                            As meninas que vieram das estrelas

   -  verdade.  afirma o rapaz.  Vamos agora apresentar-te a outros
irmos que vivem na Terra, numa pequena aldeia secreta, e lutam
arduamente contra o Mal. A ser a tua prxima casa.
   Acabou de dizer isto, e Yania reparou que estavam j a descer num
descampado. Embora fosse de noite, distinguiam-se bastante bem muitas
casinhas com lindas luzes, rodeadas por uma enorme floresta.
   Saram todos da nave que iluminava fortemente o local, e logo correram
para o p deles trs crianas, aparentemente com idades prximas da de
Yania, seguidos por um casal de adultos.
   - Ol Yania, estvamos  tua espera! Eu sou a Kami, tenho nove anos.
Este  o meu irmo Ilky, tem sete anos, e esta  a minha irm Kimi que
tem dez  dizia uma das meninas, enquanto apontava para cada um dos
familiares  E estes so os nossos pais, a Dyma, que tem vinte e seis, e o
Noiu que tem trinta.
   Todos disseram ol para Yania, e cada um deles a abraou com muito
carinho, como se a conhecem desde h j muito tempo. Yania,  claro,
retribuiu de volta os abraos.
   Entretanto, os dois amigos que a tinham levado at l dirigiram-se de
volta para a nave, e enquanto flutuavam para dentro, disseram at breve
a Yania.
   - At breve!  voltando-se em direco a eles  Como  o vosso
nome?
   - Eu sou a Ilya e ele  o Ceijo!  mal respondeu, entraram na nave,
e esta comeou a subir, aumentando a sua velocidade de tal forma que
desapareceu quase de imediato no cu.
   Kami, a menina loura de olhos azuis, com cabelos lisos pelos ombros,
parecia a mais faladora:
   - Eles tm muito trabalho a fazer, por isso j foram. So uma das nossas
naves que patrulham os cus da Terra. No vivem c connosco. Tm uma
base na face oculta da Lua.
   - S eles usam o uniforme?  perguntou Yania ao reparar que as
pessoas da aldeia vestiam roupas diferentes, muito mais simples, embora
tambm muito bonitas.
   - Sim,  apenas um smbolo para nos distinguir tambm pelo vesturio
dos seres malvolos que tambm tm naves. Mas cuidado,  mesmo s
um smbolo, porque a nica forma de nos distinguir deles  pelo corao,
pelas vibraes de Amor que ns transmitimos e que eles no conseguem
imitar.  alertou pondo a mo sobre o corao.

                                    27
Marcos Arago Correia

   - O qu? Seres malvolos que tm naves como ns?  perguntou
admirada.
   - No so bem como as nossas. Tm uma forma e luzes diferentes, e
no funcionam com o poder da mente, embora tambm tenham grandes
capacidades.
   Entretanto, Dyma, a me das crianas, aproximou-se de Yania e,
acariciando-lhe a cabea, disse em tom de proposta:
   - Julgo que  melhor a Yania descansar primeiro, pois tem tido uns dias
muito atribulados, e depois ento explicamos-lhe tudo.
   - Sim, ela parece estar muito cansada!  concordou Kimi, a menina de
cabelos castanhos ondulados e compridos, e olhos verdes.
   - Vamos lev-la para casa.  disse Noiu.
   - Qual  o teu nome?  perguntou Ilky, o menino de oito anos, cabelos
pretos lisos e olhos castanhos.
   - Sara...  parou e corrigiu.  Quero dizer, Yania!
   - Estava s a testar para ver se j te tinhas habituado!  explica Ilky,
sorrindo.
   Sara sorriu tambm.
   - Julgo que  uma questo de pouco tempo. Eu sou a Yania, e como
vocs, sou um Esprito do Amor!
   - Pois s!  sorriu tambm Kami, enquanto lhe dava a mo.  Vamos
para casa, precisas de descansar.
   Enquanto caminhavam, Sara olhava em toda a sua volta, muito
atentamente. Era tudo to simples e bonito. Imensas tnues luzinhas
assinalavam os caminhos e outras iluminavam delicadamente vrios pontos
da aldeia. Existiam muitos cavalos lindos de vrias cores a pastarem,
tudo estava rodeado de rvores, flores, arbustos, pequenos lagos e ainda
conseguia ver um rio de mdias propores que atravessava a rea.
Existiam muitas casinhas de madeira, e no se via um nico carro nem
estradas alcatroadas. Era tudo muito limpo, sem qualquer tipo de poluio
ou contaminao.
   Enquanto caminhavam todos, Yania reparava que outras pessoas ao
longe sorriam para ela enquanto lhe acenavam. Yania acenava de volta.
   - So todos muito simpticos!  exclama Yania.
   - So todos Espritos do Amor, e sabem que tu tambm s. Em breve sers
apresentada a todos.  explica Dyma, que nunca ningum diria ter j vinte
e seis anos, pois a sua pele era muito jovem, a sua face quase de criana,
os seus cabelos pretos brilhantes compridos e lisos amarrados em forma

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                                             As meninas que vieram das estrelas

de rabo-de-cavalo, e os seus olhos castanhos inocentes, acompanhados
por um sorriso de grande beleza, faziam parecer que tivesse apenas uns
dezasseis ou dezassete no mximo.
    - Aqui todos se amam uns aos outros.  afirmou com meiguice Noiu, o
rapaz tambm com aparncia muito jovem, olhos azuis e cabelos ruivos,
que nunca ningum diria ter trinta anos.
    Entraram todos na casa, que tinha um s andar mas era bastante grande,
e depois de a terem mostrado toda a Yania, Dyma e Noiu levaram-na at ao
quarto que j estava preparado para acolh-la. Seria o seu quarto. Era lindo!
Tinha uma janela que dava mesmo sobre um pequeno lago com muitas
flores  volta. As paredes estavam decoradas com magnficos desenhos de
estrelas, crianas e jardins floridos. A cama era fofa e aconchegante.
    Yania jogou-se para os braos dos novos pais e agradeceu-lhes tudo do
fundo do corao!




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                              Captulo 4




    O dia havia nascido na aldeia. Yania, mesmo super entusiasmada, dormira
profundamente pois o cansao com que chegou tinha sido enorme.
    Espreguiou-se gentilmente na cama. Olhou bem ao seu redor como
se tentando dissipar quaisquer eventuais dvidas de que realmente tudo
aquilo era verdade. Sorriu. Levantou-se e caminhou at  janela, abrindo-a
com excitao. Contemplava com os olhos repletos de luz.
    - Bom dia!!! Isto  para ti!  disse Kami enquanto entrava no quarto
com uma bandeja cheia de comer. - Preparmos-te uma refeio deliciosa:
leite de soja, po integral, doce natural de cereja, quadradinhos de tofu e
salada de frutas!
    - Bom dia Kami! Muito obrigada! Adoro comida vegetariana!  respondeu
toda contente enquanto dava um beijinho  nova amiga.  Tem um aspecto
maravilhoso! Os meus pais no gostavam e no queriam que eu comesse
este tipo de comidas... diziam-me que fazia mal, mesmo sabendo que era
a comida mais saudvel do mundo! Era preciso fazer birras para eles me
comprarem alguma coisa natural...  riu-se.
    - Ainda bem que j sabes que esta  a melhor comida! Aqui ningum come
carne, nem sequer peixe. Todas as nossas refeies so vegetarianas... e
deliciosas!  disse enquanto passava a lngua pelos lbios.
    - Os meus pais tambm tinham o hbito de fumar mesmo ao meu
lado. No se importavam que o fumo incomodasse as outras pessoas.
Fartava-me de tossir e de ficar com os olhos vermelhos.



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                                          As meninas que vieram das estrelas

   - Pois... existem muitas pessoas que no tm respeito nenhum pelos
outros, nem sequer por ns crianas que somos ainda mais sensveis
ao fumo do que os adultos.  afirmou Kami enquanto gesticulava com a
cabea condenando.  Mas est descansada! Aqui ningum gosta de fumar,
nem de beber lcool, nem de consumir qualquer outro tipo de drogas! 
continuou j a sorrir.
   - Ainda bem!  disse mastigando um quadradinho de tofu.  Est
delicioso!  exclamou pondo outro na boca.
   Kami sorriu por ver a sua nova amiga to feliz.
   - Bom dia!!!  diz Dyma ao entrar no quarto.
   - Ol, Dyma, bom dia!!!
   Nisto entram tambm Noiu, Kimi e Ilky, que a sadam de igual doce
forma.
   - Bom dia!!!  responde Yania levantando-se e dando um abrao a
todos.
   Kimi e Ilky sentaram-se tambm na cama, ao lado de Yania e Kami.
   - Fizemos isto para ti  diz Ilky enquanto mostrava a Yania um colar
com uma pedra cor-de-rosa pendurada, brilhante e muito bonita.
   - Todos tm um aqui na aldeia, mesmo que no o usem ao pescoo 
explica Kimi.
   -  lindo! Que pedra ?  pergunta Yania.
   - Chamamos-lhe Rosa-da-Vida.  uma pedra muito rara que serve para
detectar a proximidade de espritos maus. Ela foi trabalhada para esse
fim, porque quando  colhida na Natureza no tem essas propriedades. 
continua Kimi.
   - Sim, so necessrias pelos menos duas pessoas boas segurarem-na com
as suas mos fechadas, e durante cerca de cinco minutos concentrarem-se
e ambas irradiarem-na com energia de Amor provinda dos seus Espritos.
S assim ela comear a brilhar.  explicou Kami.
   -  mesmo muito brilhante!  exclama Yania enquanto a levanta no ar
para observ-la melhor.
   - Pois,  brilhante at ao momento em que um esprito mau esteja
prximo da pedra. A partir da o seu brilho cessa, at ele se afastar
novamente dum raio de cerca de mil metros.  acrescenta Kimi.
   -  um precioso instrumento para nos avisar da proximidade do Mal,
dando-nos tempo para avaliar o que devemos fazer em cada caso.  disse
Kami.
   Ilky pegou no colar e colocou-o  volta do pescoo de Yania.

                                   31
Marcos Arago Correia

    - V como brilha!  exclamou Ilky.
    Dyma e Noiu sorriam.
    - Isto significa que todos ns somos Espritos do Amor!  disse Yania
enquanto tocava na pedra que pendia ao seu pescoo.
    - E todos irmos!  comentou Dyma.
    Enquanto Yania contava sobre o seu interesse no Paranormal e acabava
de comer, Noiu abriu o guarda-fato e ordenou diversas peas de roupa que
l se encontravam.
    -  muito bom o teu interesse sobre as questes espirituais! Vais gostar
muito de viver aqui. Daqui a pouco, vamos fazer uma reunio na aldeia,
para conheceres todos os nossos irmos. Tens aqui dentro roupa para
escolheres  vontade.  toda para ti!
    - Muito obrigada!  respondeu Yania enquanto espreitava.   muito
bonita!
    -  toda feita com tecidos naturais, incluindo os sapatos. Colocamos a
matria-prima numa mquina que temos, programamos o desenho que
desejamos, e ela em poucos segundos faz uma nova pea de roupa. 
continuou Noiu.
    - E tudo funciona com energias no poluentes!  exclamou Kami.  O
trabalho das mquinas, a luz e o aquecimento da gua,  tudo proveniente
da energia solar.
    - Quer dizer que no precisam pagar nada a nenhuma empresa!
    Noiu retirou uma pequena bolsa do seu casaco, a qual continha
rebuados.
    - Ests a ver? L fora, na sociedade, esta bolsa teria dinheiro, mas aqui
tem rebuados naturais de frutas. O dinheiro  coisa que recusamos c na
aldeia, pois todos se ajudam uns aos outros sem esperar nada em troca.
 ofereceu um rebuado de morango a Yania.  Se quiseres mais  s te
servires!
    - Obrigada! Realmente sempre achei o uso do dinheiro uma forma de
discriminao, pois uns tm muito, e com esse muito fazem muito mais
dinheiro, e outros tm pouco, e com esse pouco no fazem nada. Mas o pior
 que so as pessoas ms que geralmente so milionrias pois no olham
a meios para conseguirem dinheiro...  disse num tom firme carregado de
desespero.  E j agora, como  que so tomadas as decises na aldeia?
Elegem algum lder?
    - Jamais!  respondeu Dyma  Aqui todas as pessoas so muito
importantes, imprescindveis. Por isso, reconhecendo a riqueza interior de

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                                            As meninas que vieram das estrelas

cada indivduo, e sabendo que o bem de cada um  o bem de todos, todas
as decises so tomadas por unanimidade, e por conseguinte no existem
lderes nem representantes.
    - E conseguem chegar sempre a acordo?  perguntou Yania admirada.
    - Claro que sim!  sorriu Dyma.  Somos ao todo 189 pessoas, 190
contando agora contigo, e nunca uma nica vez, durante as dezenas de
anos que esta aldeia existe, houve uma deciso que fosse tomada contra a
vontade de algum. Todos debatem, apresentam os seus pontos de vista,
e chegam a um consenso, exactamente porque todos se amam, e como tal
no existe egosmo. Assim, as decises so tomadas a pensar em todos,
e deste modo a linha seguida  cooperar e no competir.
    - Isso  maravilhoso!  comentou Yania.
    - Sim, de facto! Nenhum pas da Terra pode aspirar a tornar-se num
regime ideal por ser uma repblica, uma monarquia, uma democracia ou
qualquer outra coisa com qualquer outro nome. Na verdade, enquanto
existir egosmo, competio, violncia, maldade, nenhum regime ser
bom. E qualquer regime ser egosta, violento e malfico, mesmo por mais
regras que inventem para o tentar evitar, enquanto nele existirem uma
maioria de pessoas ms. Elas boicotaro todas as melhores intenes,
estejam essas pessoas malvolas no governo ou estejam apenas no povo
que esse governo governa.  explicou Dyma.
    - Por isso  que neste cantinho da Terra tudo  maravilhoso! Porque no
existem pessoas ms!  exclamou Kami com emoo.
    - Estou muito feliz por me terem aceite entre vocs!
    - Tu j foste aceite h milhares de anos atrs!  respondeu Dyma, nunca
se cansando de admirar como todas as crianas que tm o Amor gravado
no Esprito tm tambm uma enorme inteligncia e maturidade.
    Yania teve dificuldade em escolher a roupa que iria usar pois era muita
a que l estava, e alm do mais achava todas as peas fantasticamente
bonitas.
    - Talvez vou usar este conjunto  disse enquanto encostava uma camisa
e umas calas junto ao seu corpo.
    - Fica-te muito bem!  exclamou Kami.
    - Veste-os!  incentivou Kimi.
    Despiu a camisa que trazia preparando-se j para vestir a nova, mas
todos repararam nas marcas que ainda tinha nas costas e no peito devido
 agresso do pai.



                                    33
Marcos Arago Correia

    - Coitadinha!  lamentou Kami  Temos que fazer algo para isso passar
mais depressa.
    - Claro que temos!  concordou Kimi.
    Dyma e Noiu aproximaram-se para ver o que podiam fazer.
    - Foi o meu pai... infelizmente ele parece ser uma dessas pessoas ms...
 explicou cabisbaixa.
    Todos sentiam muita pena de Yania por v-la to maltratada.
    - No te aflijas... j passou tudo.  disse carinhosamente Noiu.
    Enquanto isto Dyma passava uma mo sobre as feridas.
    - Esto a desaparecer!  exclamou Ilky de contentamento.
    - O que ests a fazer Dyma?  questionou Yania.
    - Estou a acelerar o processo de cura do teu corpo. Basicamente o que
fao  emanar energia de Amor directamente sobre as feridas de forma a
que o teu organismo tenha mais fora para as curar mais depressa.
    No entanto reparou que Yania tinha uma mancha vermelha junto ao
ombro que persistia, quando todas as outras j tinham desaparecido.
    - Esta mancha aqui...  indagou enquanto passava o dedo  J a tinhas
h mais tempo?
    - Sim, apareceu quando eu tinha seis anos. Tem crescido, e d-me s
vezes muita comicho. Cheguei a ir a vrios mdicos que me receitaram
diversas pomadas e comprimidos. Apesar de ter feito os tratamentos todos
nunca passou.
    - Esta mancha tem uma origem psicolgica.  explicou Dyma.  Como
de pequenina tens sofrido muito e te sentias infeliz, a tua mente que se
encontrava em desarmonia comeou tambm a criar uma desarmonia no
teu corpo. Muitas pessoas ficam doentes, e at morrem, porque a mente
est muito infeliz. O teu estado de esprito repercute-se directamente no
teu corpo. A mente tanto pode destruir, como pode curar. Como agora
ests feliz, esta mancha tem os dias contados. No entanto tu mesmo a
podes curar agora, basta quereres!
    - Apenas querer?  assim to simples?  perguntou Yania ainda algo
perplexa.
    - Claro que sim! E sendo uma doena provocada inconscientemente por
ti mesma, a ajuda que te podemos dar  te ensinar a seres tu mesma a te
curares enquanto te fazemos feliz.
    - E de que forma uso o meu querer?
    - Simplesmente da mesma forma que entraste e saste da nave:
acreditando que s capaz e desejando intensamente que se concretize.

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                                             As meninas que vieram das estrelas

    - Senta-te aqui para estares mais relaxada.  props Kami batendo com
a mo sobre a cama.
    Yania sentou-se, interrogando-se para si mesma se finalmente seria
capaz de se ver livre daquela mancha que h tanto tempo a incomodava.
    - Agora deseja com muita fora!  aconselhou Kami enquanto fazia uma
ligeira massagem de relaxamento nos ombros da nova amiga.
    Entretanto, Dyma, Noiu, Kimi e Ilky comearam cada um a massajar os
ps e as mos de Yania.
    -  muito agradvel!  exclamou Yania muito tranquilizada.
    - Deseja o mais intensamente possvel.  disse Dyma.
    - J estou a faz-lo! Eu posso e quero ficar curada... eu posso e quero
ficar curada... eu posso e quero ficar curada...  repetia em voz baixa
enquanto desejava mentalmente com muita fora.
    - J est! J est!  gritou Kami  J no tens nada!
    Todos comearam a sorrir de alegria e a acariciar Yania, por ela ter
conseguido.
    - Parabns!  disseram todos.
    Yania olhou por cima do ombro, e saltou de alegria. J no tinha nada!
A mancha havia desaparecido por completo!
    Acabou de se vestir, e foram todos para o descampado onde a nave
havia descido. Estavam l todas as pessoas da aldeia  sua espera. Foi
apresentada a cada uma delas, e cada uma delas lhe deu um esplendoroso
abrao de boas-vindas. Yania, como sempre, retribuiu com maravilhoso
vigor todos os abraos que recebia.
    - Me, quem vai agora ocupar-se da aprendizagem de Yania?  perguntou
Kami a Dyma.
    - Bem, o Ilky  mais pequenino e ainda est a aperfeioar os seus
poderes. A Kimi j est a ensinar o Eliu, e eu e o Noiu comemos a
construir uma mquina nova de arar o solo. Parece-me que s restas tu
na lista. O que te parece?
    Kami pulou de contentamento.
    -Yupiiiii!!!  gritou.  Adoro a Yania e terei muito prazer em lhe ensinar
tudo o que sei!!!
    - Ento est decidido!  toda tua!
    Kami correu em direco a Yania.
    - Gostas de andar a cavalo?
    - Adoro cavalos! Mas confesso que tenho um pouco de receio de cair
deles...  respondeu enquanto recebia e dava os ltimos abraos.

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Marcos Arago Correia

    Kami pegou na mo da amiga.
    - Agora que j conheceste todas as pessoas da aldeia, vou-te mostrar
os nossos cavalos! Anda! So muito bonitos! E podes estar descansada
porque so todos extremamente dceis, e nunca deitaram nenhum de ns
ao cho.
    - OK! Vamos l!  respondeu enquanto era puxada pela amiga.
    Estavam as duas felicssimas. Kami mostrou a Yania todos os cavalos,
dizendo-lhe os nomes e as idades.
    - A propsito de idades... reparei que na aldeia no existe nenhuma
pessoa idosa...  comentou Yania.
    -  verdade! Como j sabes, o esprito de uma pessoa tem um poder
ilimitado para concretizar desejos, desde que esses desejos obedeam
a trs requisitos: estar de acordo com o Amor, ter f absoluta de que 
possvel tornar-se realidade, e ter uma grande intensidade mental. Estes
trs requisitos so a chave de toda a magia do Amor.  pois natural
que aqui, onde todos so Espritos do Amor, e onde todos os adultos j
dominam bem os seus poderes, no exista velhice nem doena, porque
ningum quer ser velho nem doente.
    - Compreendo...
    - Sim, muitas das pessoas que tu conheceste h pouco tinham mais
de 400 anos de vida nesse corpo fsico. A Fymi  a mais velha de todos,
com 532 anos. Ou seja, o tempo passa mas o corpo no envelhece nem
adoece!
    - Fantstico!  exclamou enquanto fazia festas num cavalo.   ptimo
saber que nunca irei envelhecer nem nunca mais ficarei doente!  pensou
contente.
    - O poder do Mal reside principalmente na mentira e na hipocrisia.
Como o Mal no pode vencer o Amor, ento tenta neutraliz-lo espalhando
falsidades por diferentes modos. Uma das mais recentes, que te devem
ter ensinado na escola,  que Deus no existe e que o Homem provm do
macaco!
    - Nunca acreditei nisso!  afirma prontamente Yania.
    - Sim, mas muitos acreditam. Essas mentiras apenas servem para tornar
as pessoas dependentes dos maus governantes, dos maus cientistas, e de
toda a restante espcie de bandidos que servem a Fora das Trevas. Essa 
a razo pela qual, mesmo que tu no acreditasses directamente na mentira
do atesmo e do macaco, quando estavas doente procuravas a ajuda de
um mdico convencional. Porque inconscientemente estavas a dar crdito

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                                             As meninas que vieram das estrelas

ao materialismo e, tambm sem te dares conta disso, estavas a acreditar
que a tua cura se encontrava fora de ti.
   - Agora compreendo. A cura est dentro de mim, e no fora de mim.
Tal como aconteceu com a mancha.  constatou enquanto passava uma
mo no lugar onde antes tinha a doena de pele.
   - Isso mesmo! Tudo porque o Amor  o nosso Deus, e ns Espritos
do Amor, como verdadeiros filhos do Amor que somos, fazemos parte de
Deus-Amor, e sendo Deus-Amor imortal, tambm os nossos Espritos so
imortais!
   - D muita segurana ouvir isso... que nunca iremos morrer...  respondeu
olhando em volta contemplando a beleza da Natureza.
   -  verdade! Podemos trocar de corpo, mas o Esprito, a nossa conscincia,
o nosso pensamento, ou seja, aquilo que ns somos, o nosso verdadeiro
eu, esse permanece eternamente.
   - E portanto o Amor  a chave de tudo!!!  exclamou enquanto passava
a mo no rosto de Kami.
   - Sim, Yania...  respondeu Kami agarrando na mo da amiga com
carinho.  Existimos para sermos felizes e fazer que os outros o sejam
tambm!
   - Ai!!! Est a me puxar a camisa!  gritou Yania que estava de costas
para o cavalo enquanto este a tentava levantar do cho.
   - Quer brincar contigo! Anda Tito, queres que a Yania te monte?  disse
enquanto dava palmadinhas no focinho do cavalo, que era todo branco.
   - Tenho receio Kami.  confessou Yania algo embaraada.
   - No, no tenhas!!! Todos os nossos cavalos foram ensinados com
muito Amor, e como tal so todos muito fofinhos!
   - H quem diga que os animais tm esprito, mas eu no posso acreditar
nisso...
   - E tens toda a razo Yania! So apenas mais mentiras para nos tentarem
confundir!  claro que os animais no tm esprito! Porque haveria um
Esprito do Amor escolher encarnar num cavalo, num co, numa r ou num
gafanhoto? Seria uma autntica estupidez! S o corpo humano oferece
as condies fsicas para receber e dar felicidade, no s devido a ser a
mais bela criao material, como tambm devido  forma como interage
com os outros. Por exemplo, posso decidir... te fazer ccegas...  desatou
a fazer ccegas em Yania debaixo dos braos e na barriga com muita
rapidez, enquanto esta se ria sem parar.  E um cavalo, um co, uma r
ou um gafanhoto no o podem fazer! Nem mesmo um macaco, porque no

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Marcos Arago Correia

tem agilidade suficiente para fazer este tipo de movimentos de forma to
rpida!  concluiu enquanto ria de tanto ver a amiga rir.
    - Muito convincente!  exclamava Yania ainda s gargalhadas, enquanto
tentava se recompor das ccegas da amiga.
    - Os animais e as plantas devem ser bem tratados porque fazem parte
da Natureza, e a Natureza deve ser preservada e respeitada porque a
Natureza existe para contribuir para a felicidade dos Seres Humanos.
No  lindo podermos olhar para a beleza deste prado, com estes cavalos
magnficos a pastar e aquelas montanhas ao fundo repletas de rvores
lindas?  questionou retoricamente enquanto suspirava de satisfao.
    - Muito...  concorda Yania, olhando tambm para a Natureza ao seu
redor.   tudo muito bonito!
    - Mas o Mal tem destrudo a Natureza...  continuou Kami  Poluio
de toda a espcie, no ar, nos rios, no mar. Abate de enormes reas de
floresta. Construo de edifcios sem qualquer cuidado, tendo como nico
objectivo o lucro e a ganncia. Radiaes electromagnticas provenientes
de cabos de alta tenso e de antenas de telemveis, que causam doenas
e mortes a muitas pessoas, principalmente crianas...
    - E morte de milhes de animais todos os anos para servir a mesa dos
carnvoros.  acrescenta Yania.
    - Sim... e ainda essa! A propsito de carnvoros... quando te disse que
os animais no tm esprito... quero-te explicar melhor...
    - Sim, o qu?
    - Quis dizer que nenhum Esprito do Amor encarna num animal. E
que em regra, os animais no tm nenhuma espcie de esprito. Mas por
vezes...
    - Por vezes o qu?  pergunta Yania curiosa com as pausas da amiga.
    - Por vez existem espritos maus que se transformam em animais para
nos vigiarem ou fazerem mal. Tivemos um dia um co que entrou aqui na
aldeia. Estava eu a dar os meus primeiros passos, mas consigo lembrar-me
bem desse co. Parecia abandonado. Estava tudo sujo e parecia tambm
que no comia h meses. O Jilu, uma criana de seis anos da nossa
aldeia, recolheu-o, alimentou-o e cuidou dele sempre com enorme ternura.
Passaram-se cerca de trs anos. Tinha ento o Jilu a nossa idade. O co
estava com um aspecto muito saudvel. Havia crescido, e estava com o
pelo todo cinzento, comprido, as orelhas bem levantadas e pontiagudas.
Todos simpatizavam muito com o co. Faziam-lhe festas, deixavam-no



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                                             As meninas que vieram das estrelas

entrar dentro das suas casas. Parecia um co muito meigo. At que um
dia...  fez novamente uma pausa e baixou a cabea.
    - At que um dia...???
    - At que um dia Jilu saiu com o co para dar um passeio no bosque
aqui perto, como de resto costumava fazer quase todos os dias. Ento,
de repente, quase toda a aldeia ouviu os seus gritos pedindo socorro.
Todos correram para acudi-lo, mas quando chegaram era tarde demais.
Viram ainda o co abocanhando violentamente o pescoo de Jilu, e este
debatendo-se contra ele, mas o co tinha muita fora, e os seus dentes, que
haviam perfurado o seu pequeno pescoo, fizeram-no perder muito sangue.
Morreu ali mesmo antes que algum pudesse fazer alguma coisa. Era filho
nico, e os seus pais, que chegaram a ver tudo, nunca mais quiseram ter
filhos. Alguns de ns perseguiram o co que fugiu, conseguiram-no agarrar,
e preparavam-se para abat-lo. Foi ento que o co se transformou num ser
horrvel, enorme, parte lobo, parte bode, parte guia.  difcil descrever-te.
Os nossos irmos que assistiram, disseram que tinha oito patas, quatro
de lobo e quatro de bode, um tronco disforme de lobo donde saam duas
enormes asas e duas terrveis garras, e trs cabeas viradas para a frente,
uma de lobo feroz, outra de bode com dezenas de cornos espinhosos, e
outra de guia com dentes afiados. Tentaram atingir o monstro com bolas
de fogo emanadas das mos, mas o monstro bateu rapidamente as asas e
fugiu voando enquanto se ria de forma maquiavlica e estridente.
    - Foi horrvel!  comentou Yania olhando desgostosamente para Kami.
    - Sim, foi. Por isso  que fizemos estes colares, e hoje todos os usamos.
 disse enquanto olhava e tocava na pedra que pendia no seu pescoo. 
Para que uma coisa dessas nunca mais possa acontecer.
    Yania olhou tambm para o seu. Brilhava to intensamente como o de
Kami. Perguntava-se agora o que aconteceria quando deixasse de cintilar.
Isso significaria que o Mal estaria por perto, e era preciso ter precauo.
No entanto, preferia pensar que quando esse momento ocorresse, j
dominaria bem os seus poderes mgicos de forma a poder proteger-se, e
a proteger de igual modo todos os amigos que estivessem consigo.
    - Ai! Outra vez...!  exclamou Yania  Agora o Tito est a puxar-me a
manga da camisa!  e riu.
    - No te larga enquanto no o montares!  riu tambm Kami.  Espera,
vou trazer umas rdeas.  e deu uma corrida at uma rvore ali prxima
onde existam vrias rdeas penduradas num dos seus galhos mais baixos.



                                      39
Marcos Arago Correia

 Pronto, colocam-se assim  demonstrava, passando as rdeas  volta
da cabea do cavalo.
    - E ento a sela?  pergunta Yania achando que a amiga se tinha
esquecido.
    - No vais precisar. At mesmo as rdeas usars raramente. Vais ver...
 e chamou outro cavalo dando um forte assobio.  Dida, anda.  uma
gua, costumo montar muito nela.
    A gua, grande e de cor negra, correu prontamente em direco a Kami,
e esta colocou-lhe as outras rdeas que segurava na mo.
    - Agora observa...  disse chamando a ateno de Yania.
    - Baixa!  ordenou para Dida, tendo o cavalo baixado de imediato as
patas da frente. Kami saltou para cima dela.  Agora faz o mesmo com o
Tito!  disse  amiga enquanto se ajeitava no dorso de Dida.
    - Baixa!  disse Yania para Tito. No entanto este no reagiu e
continuou tentando mordiscar a roupa dela.  No me obedece.  afirmou
desapontada.
    - No me vais dizer que estavas  espera que ele reagisse apenas a
comandos verbais! Isso  nos circos!  e deu uma gargalhada.  Yania,
lembra-te do poder da tua mente...
    - Ah!  isso mesmo! Desculpa, como foi possvel no me ter lembrado
que o poder da mente funciona para tudo?!  e sorriu tambm.  Baixa Tito!
 ordenou desejando intensamente que o cavalo se baixasse da mesma
forma que o de Kami.
    - Ests a ver como ele te obedece agora!
    - Tens razo. Ai!  exclamou com receio de cair quando o cavalo se
levantou.  E agora que queres fazer?
    - Primeiro, no deves ter medo. O medo prejudica o poder da mente.
Deves ter confiana e concentrar-te no equilbrio.  principalmente para
isso que usamos as rdeas. Tudo o que depender do cavalo, ele nunca te
ir deitar no cho. Se alguma vez tiveres o azar de cair, tudo o que tens
a fazer  de imediato desejares flutuar, de modo a que no te magoes.
Percebeste bem Yania?
    - Percebi! Estou confiante que no vou cair!  disse enquanto fazia
festas no cavalo.  Eu tenho equilbrio... eu tenho equilbrio...  repetia em
pensamento.
    - OK! Ento vamos sair a galope para veres como no h que ter receio.
 e ordenou ao seu cavalo que galopasse a velocidade mdia.
    Yania tinha ficado para trs, parada.

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                                            As meninas que vieram das estrelas

   - No me deites no cho  sussurrou para o cavalo, tendo este relinchado
como se tivesse entendido o que Yania lhe disse.  A galope para alcanar
a Kami!  ordenou desejando. E o cavalo saiu com um galope muito veloz,
tendo alcanado a amiga em breves instantes.
   -  bom galopar, no  Yania?
   - Muito! Estes cavalos so excepcionais!
   E galoparam juntas at um pequeno riacho dentro do bosque.
   - Vamos parar aqui um bocadinho?  sugeriu Kami.
   Yania estava a adorar galopar naquele cavalo mas tambm achava
aquele local muito bonito, e ideal para fazer uma pausa.
   - De acordo. Paramos aqui.
   Saltaram dos cavalos, e sentaram-se ambas  beira do riacho com os
ps descalos a sentir a gua fresca a fluir.
   - Kami, tenho uma pergunta a te fazer...
   - Todas as que tu quiseres Yania.
   - Como  que apareceu o Mal? De onde veio?
   -  muito simples! V: Deus  Amor, logo no podia obrigar ningum
a seguir os seus valores. Deus-Amor cria os espritos e d-lhes liberdade
de escolherem o que querem ser. Logo no incio da existncia de cada
esprito, so lhe apresentados os dois caminhos possveis: seguir a natureza
amorosa da sua origem e portanto tornar-se para sempre igual a Deus
que  Amor absoluto, ou pelo contrrio, renunciar ao Amor e como tal
afastar-se de Deus.
   - Mas porqu algum haveria de escolher o Mal?
   - Porque quiseram experimentar se poderiam ser felizes atravs da
maldade, da violncia, do egosmo e do dio. Ou seja, pensaram apenas
neles mesmos e desprezaram a felicidade dos outros. Mas como toda a
existncia teve origem no Amor, a verdadeira felicidade absoluta s pode
ser atingida por aqueles que tambm so Amor.  por isso que quem 
Amor sente-se to feliz, to maravilhosamente feliz por poder amar e ser
amado pelos outros como ele! E aqui est a razo pela qual Deus que 
Amor, e os seus Espritos que so tambm Amor, nunca, mas nunca mesmo,
quererem deixar de ser Amor: porque eles sabem que isso equivaleria 
perda dessa esplndida felicidade absoluta.
   Yania sentia no corao toda a beleza do Amor. Um calor maravilhoso
induzido pelo reconforto da ideia de que Deus, ela e Kami, e todos os que
como elas seguiram o Amor, nunca deixariam de amar e serem amados.



                                     41
Marcos Arago Correia

    - Mas ento porqu os mauzes no escolhem agora o Amor para serem
felizes como ns?
    - Escolher o Amor tem que ser algo sentido do fundo do Esprito.
No pode ser apenas uma mera frase, algo como "eu agora vou seguir
o Amor". No!  preciso sentir, sentir absolutamente que  isso que a
pessoa verdadeiramente quer. E como felizmente ningum pode esconder
de Deus os seus verdadeiros pensamentos, sentimentos e desejos mais
profundos, Deus saber sempre se a escolha dessa pessoa  genuna ou
no. Alm disso, aqueles que escolheram o Mal acabam frequentemente
por desenvolver tantas e to ms caractersticas espirituais, que lhes 
cada vez mais difcil conseguirem sentir o Amor, e portanto escolh-lo de
plena conscincia.  um ciclo vicioso: quanto mais mal fazem mais maus
se tornam e mais afastados do Amor ficam.
    - Compreendo,  lgico.  comentou cabisbaixa.  E quando  que os
espritos maus comearam a nos atacar?
    - H j muito tempo...  respondeu Kami enquanto jogava uma pedrinha
para dentro do riacho, vendo que a amiga estava bastante interessada em
aprender mais.  Mas h muito mais tempo ainda, h muito mesmo muito
tempo, no incio das coisas, s existia Amor no Universo. Tudo era perfeito,
e os Espritos do Amor viviam felizes, viajando pelo espao, e povoando
novos planetas como a Terra. Nessa altura, o sofrimento, a infelicidade,
a violncia, o dio, a guerra, a doena e a velhice, eram desconhecidos.
Todos tinham corpos humanos muito belos, e homens e mulheres viviam em
perfeita harmonia, amando-se uns aos outros. Sim...!  disse com os olhos
a brilhar. - O lema era amar ao prximo como a si mesmo. Mas subitamente
comearam a aparecer monstros em diversos planetas, inclusivamente
na Terra. Deves ter ouvido falar nos dinossauros! So os monstros que
surgiram na Terra. Cada planeta tinha monstros diferentes, mas todos
tinham algo em comum: eram muito maus, e s queriam destruir.
    - No imaginava que quando os dinossauros apareceram j existissem
Seres Humanos na Terra!  comentou Yania com admirao.
    - Sim, mas existiam. Aldeias inteiras comearam a ser atacadas, e os
Espritos do Amor, porque eram muito ingnuos e no estavam habituados
 guerra, no sabiam o que fazer. A maioria fugia protegendo-se uns aos
outros, mas os que ficaram e enfrentaram os monstros foram mortos.
Ento perante toda aquela crueldade que se alastrava cada vez mais pelo
Universo, os Espritos do Amor chamaram-se uns aos outros e juntaram-se
todos numa galxia que ainda no tinha sido atacada pelos monstros.

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                                          As meninas que vieram das estrelas

Decidiram ento isolar essa galxia do resto do Universo, e comearam a
usar os poderes das suas mentes para construir um escudo energtico de
Amor que, tal como uma bola, isolasse toda a galxia do Mal, impedindo
que este l entrasse. E assim foi. Esta galxia foi preservada, e  hoje
aquilo que denominamos de Paraso.
   - E depois, como  que voltmos  Terra novamente?
   - Bem, o que aconteceu foi que, pouco mais tarde, os Espritos do Amor
concluram no ser justo que tudo aquilo que tinham criado fora dessa
galxia fosse destrudo pelos monstros. Alm disso, se no actuassem,
passariam a estar cercados pelos monstros e nunca mais poderiam sair da
galxia. Ento decidiram que comeariam a desenvolver os seus poderes
mgicos para controlar os monstros e faz-los recuar. Comearam a pedir
voluntrios para sarem da galxia e combaterem os monstros.  por isso
que tu, eu e todos na aldeia estamos aqui: porque nos oferecemos para
os combater.
   Yania estava muito atenta, e ao mesmo tempo pensando sobre tudo o
que Kami lhe contava.
   - E os monstros com forma humana?
   - Pois, fazes uma boa pergunta. Aconteceu que depois, devido a anos de
combate, e em virtude das nossas foras serem muito superiores em magia
por comparao com as dos monstros, estes comearam efectivamente
a recuar. Na Terra, como em muitos outros planetas que j no eram
habitados por Espritos do Amor, congelmos a atmosfera e a superfcie de
modo a que os monstros invasores morressem. Mas muitos conseguiram
escapar, e abrigaram-se numa galxia onde j eram muito numerosos. A
destruram tudo, criaram uma hierarquia implacvel, e passaram a vida
a se guerrearem uns com os outros. Mas no satisfeitos de terem criado
o Inferno, os monstros aplicaram-se na arte da iluso, da mentira e da
hipocrisia, sabendo que essas eram as nicas maneiras para voltarem a
tentar conquistar o Universo. Ento conceberam um plano abominvel:
como geralmente a maioria dos Espritos do Amor encarnam nos seus
corpos, ainda no tero das mes, no incio do stimo ms de gravidez, os
monstros decidiram tentar encarnar antes dos Espritos do Amor, ocupando
assim o corpo do beb, e retirando deste modo o lugar que era reservado
aos nossos Espritos. Mas sabiam que no o podiam fazer logo a seguir
 ltima guerra, pois as nossas foras estavam alertas. Deixaram passar
muitos milhares de anos, e ento, aproveitando de novo o nosso regresso
 ingenuidade, porque ns acreditvamos que os monstros no mais

                                   43
Marcos Arago Correia

arriscariam regressar depois da derrota que tinham tido, comearam ento
a enviar espritos monstruosos que encarnavam no quinto ou sexto ms
de gravidez.  claro que as mes, de imediato, comeavam a ter muitas
dores, e muitos desses seres foram abortados. Mas muitos nasceram. A
nossa sorte foi que no incio, todos os seres que nasceram, nasciam com
deformaes muito, mas muito graves, e a comemos a investigar e
constatmos que no existia nenhum Esprito do Amor nesses corpos.
    - Isso foi terrvel  interrompeu Yania com cara de nojo  Continua...
    - A desvendmos o plano deles. Ento estudmos o modo de evitar que
isso acontecesse, e descobrimos! Passmos a ensinar a todos os Espritos
do Amor que para evitar a encarnao dum esprito malfico nos corpos
dos bebs, as mes deveriam emanar sentimentos de Amor directamente
e continuamente para o beb desde o comeo da gravidez. Isso por vezes
no acontecia, porque como ns sabamos que os nossos Espritos s
encarnavam no stimo ms, mnimo sexto ms, as mes geralmente s a
partir deste perodo comeavam a amar directamente os seus bebs. Ao
introduzir esta alterao, passmos a gerar um escudo energtico de Amor,
semelhante ao que existe  volta da nossa galxia, mas aqui  dimenso
do tero da me, e, desta forma, o escudo s permite a entrada e sada
de Seres do Amor, repelindo qualquer tentativa de invaso de espritos
diferentes. A partir de ento nunca mais existiram encarnaes de espritos
malficos nos nossos bebs. Os meninos e as meninas que nascem desde
ento entre ns, so sempre Espritos do Amor que encarnam para terem
um instrumento maravilhoso, que  o corpo humano, capaz de proporcionar
ainda mais prazer uns aos outros! Como sabes Yania, o corpo  apenas
um instrumento de que se serve o esprito, porque este no tem sexo. O
mesmo esprito pode encarnar num corpo masculino numa vida, como na
seguinte pode encarnar num corpo feminino.
    - Eu j sabia Kami! Mas ento em relao aos corpos, como  que os
monstros adquiriram forma humana?
    - Foi exactamente quando nasceram os primeiros bebs encarnados
por monstros. Como te disse h pouco, muitos morreram, mas muitos
tambm sobreviveram. As mes e os pais, enquanto ainda no sabiam
o que tinha acontecido, cuidavam desses bebs com muita dedicao.
Quando souberam, muitos j tinham crescido o suficiente e haviam fugido,
porque no suportavam o Amor. A vaguearam pela Terra, e muitos se
cruzaram uns com os outros. No incio tinham todos uma aparncia semi-
humana, semi-monstruosa, mas ento dedicaram-se ao estudo da gentica,

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                                            As meninas que vieram das estrelas

e fizeram modificaes de forma a se parecerem mais com os verdadeiros
humanos, ou seja, connosco. Hoje, s pelo fsico,  extremamente difcil
dizer que so monstros, dada a sua incrvel parecena.
    - E o contrrio?  perguntou Yania.
    - O contrrio? Como assim?  retorquiu Kami sem perceber a que se
referia a amiga.
    - Sim, o contrrio. Por exemplo, ns nascermos de monstros.  que,
quando estavas a contar essas coisas, lembrei-me que os meus pais... que
os meus pais poderiam ser monstros de forma humana. Para mim  terrvel
pensar numa coisa dessas! Nasci... nasci dum monstro? Pode realmente
um ser humano ser um monstro?  questionou Yania pausadamente.
    - Vamos por partes... Efectivamente tivemos que pr, e ainda bem, a
nossa ingenuidade de lado. No podamos mais, depois de todas essas
coisas terrveis que os monstros nos tinham feito, continuar a facilitar
a vida deles. Assim, muitos de ns ofereceram-se para nascer entre os
monstros, de forma a demonstrarem que o Amor  a mais bela e poderosa
fora do Mundo, e que como tal no desejamos o mal a ningum, provando
assim que a guerra deles contra ns  completamente estpida e intil.
Mas nunca nascemos entre eles pela primeira vez. Ou seja, os nossos
irmos que nasceram entre eles, j haviam nascido primeiro entre ns, e
experimentaram primeiro connosco toda a beleza do nascimento humano.
Quanto a tu teres nascido ou no dum monstro... bem, isso s tu podes
dizer...
    Parecia demasiada informao duma vez s para Yania. Desde que tinha
entrado numa nave do Amor, passara o tempo quase todo a aprender
coisas novas, que h muito desejava saber, mas que nunca tinha tido a
sorte de encontrar num dos seus livros. Para agravar a situao, a maior
parte das coisas que lhe ensinaram na escola revelavam-se profundamente
erradas. Estava algo fatigada e contrariada por ter perdido tantos anos
inteis na escola.
    - Ao menos aprendi a ler, a escrever e a fazer contas.  pensava.  Por
isso no foi assim um desperdcio to grande!  consolou-se
    Atirou tambm uma pedrinha ao riacho sempre com um ar muito
pensativo.
    - Mas um ser humano pode mesmo ser um monstro?
    - Yania, imagina, digamos, deixa ver... olha, duas crianas inocentes
com coraes de Amor, por exemplo meninas como ns, que esto  beira
dum riacho falando uma com a outra sem fazer mal a ningum, como

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Marcos Arago Correia

ns, e de repente aparece um homem, assassina-as com um machado, e
depois viola-as j cadveres. Quem achas que fez isso? Um Ser Humano
verdadeiro, ou um monstro com forma humana?
   - S um monstro poderia fazer uma coisa dessas!  respondeu com
convico.
   - Essa  tambm a minha resposta.
   Yania reparou que uma formiga subia o ombro de Kami.
   - Espera, no te mexas, tens uma formiga grande no ombro, vou
sacudi-la.  E com um s gesto sacudiu a formiga para o cho.
   Uma breve aragem levantou-se.
   - Kami?  chamou com uma cara algo aflita.
   - Sim?
   - A tua... a tua...  gaguejou enquanto apontava o dedo para o peito
da amiga.
   - A minha qu?  perguntou a amiga j preocupada com a cara de
Yania.
   - A tua... a tua pedra no est a brilhar...
   - No est...  engoliu em seco, e olhou para a da amiga.  A tua
tambm no...!
   - Isso quer dizer...
   Fizeram um silncio de morte. Nem tinham os cavalos prximo, pois
estes haviam se afastado  procura de ervas.
   Ouviram ento um galho quebrar-se no cho, a apenas alguns metros
atrs delas.
   O medo tomou conta de Yania. Tinha acabado de aprender o essencial
sobre o uso dos seus poderes, e j estava enfrentando o perigo.
   Era to expressiva, que Kami conseguiu perceber que a amiga estava
a fazer um esforo enorme para no gritar de pnico.
   - Chiuuuu  sussurou ao ouvido de Yania, enquanto ponha o dedo 
frente da sua boca.  No te preocupes. Tenho tudo sob controlo...  disse
embora realmente tambm sentisse uma sensao de medo crescente
causada pela surpresa dos acontecimentos. Mas no podia deixar a amiga
perceber isso seno tudo ficaria ento mesmo descontrolado.
   De repente passos correndo em direco a elas fizeram-se ouvir, e
Kami instintivamente puxa o brao de Yania e jogam-se para o riacho,
atravessando para a outra margem o mais depressa que podiam, e l
chegadas correram bosque dentro com todo o flego.
   - Chama o teu cavalo  gritou Kami para a amiga enquanto corriam.

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                                            As meninas que vieram das estrelas

    - No sei se consigo...  respondeu com dificuldade  Estou com
demasiado medo...
    - Tens que conseguir! Dida!  chamou o cavalo dela que veio correndo
a galope em direco a Kami.
    - Tito! Tito!  gritou inutilmente.
    Kami percebeu que Yania estava demasiado nervosa para controlar o
seu cavalo.
    - Anda, d-me a mo!  disse enquanto os passos que as perseguiam
se aproximavam cada vez mais. Nem ousavam olhar para trs.
    - Pronto!
    - Agora quando eu disser salta, tu saltas e agarras-te comigo ao pescoo
do cavalo  dizia apressadamente j quase sem flego, enquanto corriam
as duas ao lado de Dida por entre as rvores do bosque.
    - Salta!  gritou mal acabara ela mesma de saltar e de se agarrar ao
pescoo do animal.
    Yania, ajudada pelo impulso da mo de Kami, salta tambm, e vo as
duas penduradas por baixo do cavalo.
    - Prende as tuas pernas  volta dele  gritou para Yania, que o fez de
imediato.  Bola de luz!  desejou com intensidade. Uma grande bola de
luz forma-se  volta das duas.  Larga agora o cavalo  pediu  amiga.
    As duas caram dentro da bola de luz que as amparou, sempre
acompanhando a velocidade do cavalo. A bola de luz subiu, deu meia volta,
e pousou-as suavemente sobre o dorso do cavalo a galope, dissipando-se
de imediato.
    - Agora agarra-te bem  crina dele  disse para Yania enquanto a
segurava com uma mo e puxava as rdeas com a outra. - Tito!  chamou,
tendo o outro cavalo corrido com a mxima velocidade e chegado at junto
delas em pouco tempo.
    Kami olhou para trs. Tinha um homem enorme com patas de caprino,
dois cornos afiados e barbicha de bode quase a alcan-las.
    - Tito ataca!  ordenou Kami.
    O cavalo abrandou a marcha, virou-se para trs, e com um grande
relinchar levantou as patas da frente e desferiu um golpe certeiro na cara
do monstro.
    Kami voltou a olhar para trs ainda em grande velocidade. Conseguiu ver
Tito cado a sangrar, j falecido, em cima do monstro tambm morto.




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Marcos Arago Correia

  Reparou no seu colar. A pedra tinha voltado a brilhar. Ordenou a Dida
que regressasse rapidamente para a aldeia, enquanto suspirava para a
amiga:
  - J est tudo bem! Podemos voltar!
  Yania deu um grito de alvio e alegria. A amiga tinha-lhe salvo a vida.




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                             Captulo 5




   - A situao  preocupante. Desde h muito tempo que no existia uma
incurso to prxima da aldeia.  afirmou Noiu, que convocou uma reunio
de todos os habitantes no descampado.
   - Estvamos  beira do riacho, na parte que passa a sul do bosque,
quando ele nos atacou por trs.  explicou Kami.  Perdemos um dos
nossos melhores cavalos, o Tito, ao nos defender do monstro.
   - Julgo que devemos tomar providncias. Podem estar a tentar invadir-
nos.  sugeriu Dyma.
   Yania estava sentada no relvado, de pernas flectidas e agarradas pelos
seus braos. Ainda recuperava do susto que apanhara no dia anterior.
   - Porqu no destrumos os monstros de uma vez por todas?
 perguntou.
   - Filha, no o podemos fazer pois no somos iguais a eles. Poderamos
matar todos os monstros que esto fora do Inferno lanando um ataque
massivo com a nossa frota espacial, mas a estaramos a ser injustos:
mataramos todos os monstros, inclusivamente aqueles que nunca nos
desrespeitaram.  explicou Dyma com a habitual ternura.
   - Sim, no somos iguais a eles  repetiram muitos dos habitantes,
concordando.
   Yania compreendeu que os Espritos do Amor no o eram s pelo nome.
Existiam valores que os caracterizavam e os distinguiam dos espritos
malvolos.
   - Algum tem mais sugestes?  perguntou Noiu.

                                   49
Marcos Arago Correia

   Um habitante chamado Hytu levantou-se e disse:
   - At agora, tirando o caso do assassnio do meu filho Jilu, ao qual
reagimos fazendo estes colares, nunca desde ento nenhum monstro se
tinha atrevido a voltar a aproximar-se tanto da nossa aldeia. Sugiro por isso
que se treine uma centena de pssaros para assinalarem a aproximao
de monstros num limite de dez mil metros da orla da aldeia. Aumentamos
assim a nossa margem de segurana que at agora tem estado em cerca
de mil metros. Algum comenta ou sugere outra alternativa?
   Ouviu-se um burburinho de concordncia entre todos.
   - Vamos ento ver. Quem concorda com esta medida levante o brao
agora.  disse Noiu levantando o seu logo a seguir a ter terminado a
frase.
   Todos levantaram o brao  excepo de Yania.
   - Querida, no concordas com esta medida?  perguntou carinhosamente
Dyma.
   - Claro que concordo! Acho uma ideia excelente!  respondeu prontamente
Yania.  No levantei o meu brao porque no tinha a certeza se j podia
intervir nas decises.  explicou.
   Dyma ajoelhou-se e abraou Yania fortemente.
   - Minha filha querida...  disse enquanto a abraava   claro que podes
intervir nas decises, desde o primeiro dia que aqui chegaste. s uma
nossa irm. Como podes sequer duvidar da tua igualdade?  e voltou a
abra-la com fora.
   - Obrigada a todos!  respondeu enquanto dava um beijinho molhado
a Dyma.   que estava habituada a viver numa sociedade em que as
crianas no tm direitos.
   - Bem, Yania tambm concorda, portanto foi aprovada esta medida. 
disse Noiu, concluindo a reunio.
   Imediatamente, Hytu, Dena sua esposa, Cimus, Hemia e Eda
aproximaram-se de Noiu como voluntrios para treinar as aves.
   - Vamos Yania. Vou-te ensinar a fazer bolas de fogo!  disse Kami para
a amiga enquanto a puxava pela mo.
   Dirigiram-se para uma rea em que s existiam arbustos, junto ao rio
que passava na aldeia.
   - A chave dos poderes mgicos tu j a conheces. Agora vou-te ensinar
a criar bolas de fogo utilizando essa mesma chave!  afirmou Kami com
uma alegria contagiante.  Tudo o que tens a fazer  imaginares que uma
bola de luz circular se forma entre as tuas mos  explicou enquanto fazia

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gestos circulares com as mos como se existisse uma bola entre elas. 
Faz como eu.
   - Assim est bem?  perguntou enquanto imitava a amiga.
   - Perfeito! Agora deseja intensamente que a bola de luz aparea!  e
poucos segundos depois de o dizer j era possvel ver uma tnue bola de
luz entre as mos de Kami.
   - Espera, estou quase a conseguir...  e Yania cria tambm a sua bola
de luz.
   - Pronto! Agora tens que visionar o alvo e atirar a bola, desejando que
ela o atinja com grande fora. Pode ser ali ao meio do rio, em frente quele
arbusto  sugeriu apontando, enquanto segurava a sua bola com a outra
mo  Quando a bola de luz tiver j sado das tuas mos, tens finalmente
que desejar que ela se transforme numa bola de fogo. Tem sempre cuidado
para que no a incendeies prximo das tuas mos!
   Kami demonstrou  amiga como fazer, jogando a sua bola primeiro, que
atingiu em cheio no alvo.
   - Agora  a tua vez!
   Yania concentrou-se no alvo, atirou a bola, mas no conseguiu
transform-la em fogo.
   -  a tua primeira vez, no te preocupes!  descansou a amiga  V l
tenta de novo!
   Repetiu a Yania a tcnica que usava.
   - Concentra-te no fogo. Imagina a bola a se incendiar e deseja com
muita fora que isso se concretize.
   Yania no queria falhar outra vez. Estava determinada em conseguir
corrigir o erro da sua primeira tentativa. Criou uma nova bola de luz,
concentrou-se no alvo, atirou a bola e desejou que se transformasse em
fogo.
   No entanto, o seu medo de falhar levou a que desejasse uma bola de
fogo muito grande. E foi o que efectivamente veio a acontecer. A ento
pequenina bola de luz transformou-se a meio caminho numa imensa bola
de fogo. Mas mesmo tendo acertado no alvo a meio do rio, o seu fogo
era to grande que espalhou-se e atingiu o arbusto que se encontrava em
frente, pegando-lhe lume.
   - Ai, meu Deus!  exclamou Yania levando a mo  boca de preocupao.
 Peguei fogo ao arbusto!
   - No faz mal!  riu-se Kami s gargalhadas.   muito bom ver
que conseguiste uma bola de fogo to grande!  disse continuando a rir

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Marcos Arago Correia

sem parar  Para a prxima vez tem a certeza que a jogas contra um
monstro!!!
    Kami desejou ento que chovesse em cima do arbusto. Constatou
que esse desejo no era contra o Amor, acreditou com muita f que era
possvel acontecer, e desejou com muita intensidade que isso acontecesse
mesmo. Estavam reunidos os trs requisitos para o exerccio dos maiores
poderes mgicos do Mundo: os do Amor. O cu estava descoberto, mas
imediatamente viram uma nuvem preta a se deslocar a grande velocidade
e a parar mesmo sobre o arbusto, deitando logo a seguir uma abundante
chuvada que apagou por completo o fogo causado.
    - Julgo que tens aprendido bem!  exclamou Kami ainda rindo.
    - Com a prtica irei melhorar! E pegar fogos s a monstros!!!  respondeu
enquanto sorria. E aproximou-se do rio e jogou gua com as mos para a
amiga, sugerindo indirectamente uma pausa para a brincadeira.
    Kami aderiu de imediato, e jogou gua de volta para Yania, mas
desequilibrou-se e caiu dentro do rio, ficando toda molhada, dos ps 
cabea.
    Yania, ao ver a amiga naquele estado, jogou-se ela tambm para dentro
do rio, e assim brincaram uma com a outra dentro de gua durante o resto
da manh.
     tarde, depois de almoarem, Kami ensinou Yania a desenvolver os
seus poderes de psicocinese, telepatia e cura. Lembrava sempre  amiga
a chave para utilizar os poderes mgicos dos Espritos do Amor, fossem
eles quais fossem: AMOR, F E DESEJO.
    Yania progredia rapidamente. Como todos os outros Espritos do Amor,
era muito inteligente, e no demorava muito tempo a compreender como
utilizar os seus poderes, pois ela adorava praticar a magia do Amor.
    Na escola por vezes tinha notas baixas, mas era s porque no se
interessava por alguns dos assuntos que eram ensinados. Principalmente
quando tinha dvidas que fossem verdade. A cincia est sempre a se
contradizer, um dia diz uma coisa, no outro diz exactamente ao contrrio,
costumava pensar. Lembrava-se de um dia o professor ter falado sobre
comunicaes, e de ter dito que estava provado que o uso do telemvel era
completamente seguro para a sade. Comeou a reservar todos os meses
uma certa quantia da sua mesada para comprar um telemvel, pois assim
poderia falar com Margarida sempre que desejasse. Tinham-se passado
apenas trs meses, e leu por acaso uma notcia no jornal do dia, que dizia
que estudos mais recentes tinham provado que afinal o uso mais frequente

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                                            As meninas que vieram das estrelas

do telemvel era extremamente prejudicial para a sade, podendo mesmo
causar doenas fatais. Desistiu a tempo da ideia, e utilizou o dinheiro que
havia poupado para comprar um grande poster de golfinhos que ofereceu a
Margarida. Ela ficou to comovida, que no dia a seguir ofereceu um poster
ainda maior de cavalos a Yania.
   - Acredito na magia do Amor! Isto sim, na magia do Amor!  pensava
satisfeita, lamentando apenas o facto de antes no se ter aplicado mais
na prtica dos seus poderes mgicos. Se o tivesse feito, poderia ter falado
mais vezes com Margarida usando simplesmente... a telepatia!
   - Vou pensar numa destas trs pedras, transmitindo para a tua mente a
pedra na qual estou a pensar. Depois, tens que mov-la at ti, mas sempre
s com a tua mente.  sugeriu Kami enquanto disponha trs pequeninas
pedras no cho  sua frente.
   Estavam as duas sentadas de pernas cruzadas debaixo de uma rvore,
e viradas uma para a outra a uma distncia de cerca de 2 metros.
   - OK! Estou preparada!  assentiu Yania.
   Kami e Yania concentraram-se ento. Sabiam que o que iriam fazer
era Amor, tiveram f de que eram capazes de faz-lo, e desejaram muito
intensamente faz-lo. Kami pensou na pedra do meio, e Yania imediatamente
recebeu essa informao. Sempre utilizando a chave Amor, f e desejo,
deslocou logo a seguir essa mesma pedra at  ponta dos seus ps.
   - Em cheio!  congratulou Kami, toda contente, a amiga.
   - Fantstico!
   Depois de terem feito mais alguns exerccios de telepatia e psicocinese,
Kami procurou e encontrou um pequeno arranho que Yania tinha na
perna esquerda, feito quando fugiram da perseguio do monstro no dia
anterior.
   - A me j te explicou como funcionam os poderes mgicos de cura  e
ps a mo sobre o arranho  Utilizar a chave  concentrou-se  Isto 
Amor... eu posso curar-te... eu quero curar-te.  dizia pausadamente, e o
arranho logo desapareceu, nem se notando que alguma vez l estivera.
   -  bastante simples!  e procurou tambm um arranho em Kami,
tendo encontrado um mais profundo.  Kami! Tenho que te cicatrizar
mais depressa esse arranho!  disse decidida enquanto se concentrava e
repetia mentalmente todo o processo da chave do Amor.
   - Muito bem!!!  exclamou Kami ao ver que o seu arranho desaparecera.
 Agora tens que cicatrizar esse arranho que tens no joelho!  sugeriu
enquanto apontava.

                                    53
Marcos Arago Correia

    Yania repetiu o processo, mas agora sobre si mesma.
    - Isto  Amor... eu sou capaz de me curar... eu quero curar-me...
    E pronto. J no existia arranho.
    Ambas estavam muito satisfeitas e contentes, e decidiram ento fazer
uma pausa para irem montar a cavalo dentro do grande e verde prado da
aldeia. Galoparam, saltaram, brincaram e riram muito uma com a outra.
Eram duas meninas felicssimas.
    Tinha chegado a hora do jantar. As duas amigas j haviam tomado
banho, e acabavam de se sentar  mesa, onde j se encontravam Dyma,
Noiu, Kimi e Ilky.
    - Kami, como est progredindo a Yania com os seus poderes?  perguntou
Dyma  filha.
    - Muito bem! Est em condies de carbonizar monstros!  respondeu
dando uma gargalhada.
    - Filha, sentes-te realmente capaz de utilizar a tua magia?  questionou
virando-se para Yania.
    - Sim me, a Kami tem me ensinado muito bem.
    - O Eliu tambm tem feito muitos progressos.  contou Kimi a Yania
e Kami, pois no tinham chegado a tempo de ouvir o que ela j lhe tinha
ensinado.
    - Ele j consegue tambm fazer bolas de fogo!  exclamou Ilky que tinha
acompanhado Kimi durante esse dia.
    -  muito bom ver que esto todos to satisfeitos!  sorriu Noiu muito
feliz.
    - ptimo, podemos ento dar j uma misso a ambas Yania e Kami! 
sugeriu Dyma  Mas mais fcil, porque ser a primeira de Yania.
    Kami saltou da cadeira de alegria. Adorava misses contra os monstros.
No suportava ver aqueles perversos a espalharem impunemente maldades
pela Terra. Um dos seus maiores sonhos era inutilizar a Grande Besta, mas
sabia que isso era muito difcil pois a Grande Besta era o chefe supremo
dos monstros, demnios e diabos do Inferno, e raramente abandonava o
seu trono na regio infernal do Universo.
    - Que podemos fazer me?  interrogou com os olhos repletos de
contentamento.
    - Existe um menino que tem sete anos de idade e que foi acolhido
num orfanato do Estado h quatro anos atrs. Os pais morreram num
terrvel acidente de viao, mas ele sobreviveu praticamente ileso, graas 
proteco do seu Anjo da Guarda. Acontece que o ano passado foi admitido

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                                          As meninas que vieram das estrelas

um funcionrio que odeia o menino sem ter contudo qualquer razo vlida
para isso, no foi com a cara dele e pronto.  uma pessoa muito severa,
daquelas que acham que a educao das crianas s se faz  pancada, e
que quanto mais se bater nas crianas mais bem-educadas elas sero.
   - Faz-me lembrar algum...  interrompeu Yania com tristeza.
   - Ns sabemos Yania  disse Kami enquanto passava a mo na cabea
da amiga, acariciando-a e reconfortando-a.
   - O problema maior  que sempre que ele se cruza com o menino, e isto
 quase todos os dias, leva-o para uma despensa e comea a queim-lo
com cigarros. Se ele grita, d-lhe bofetadas e pontaps, e ameaa mat-lo
se ele contar a algum.  um homem hediondo que tem de ser afastado
do menino urgentemente. Mas no sei se a Yania estar mesmo preparada
para comear...  explicou hesitando e olhando compassivamente para
Yania.
   -  claro que estou! A Kami j me tinha explicado que a misso dos
Espritos do Amor  exactamente defender o Amor e proteger a liberdade
individual, contribuindo para a felicidade de todos os nossos irmos e
irms, felicidade que  a nossa prpria felicidade.
   - Sim,  verdade. A liberdade  essencial, e a liberdade de cada um
implica o respeito pela liberdade do outro. Assim, o funcionrio est a
violar a liberdade do menino de ter corpo e mente livres de sofrimento.
 olhava sempre compadecida para Yania.  Queres mesmo comear a
desempenhar misses pelo Amor?  voltou a insistir na pergunta.
   - Me, o meu maior desejo  que no exista mais maldade no Mundo.
 respondeu Yania.  Por isso tudo o que eu puder fazer para combater o
Mal eu o farei sem hesitar, e com enorme prazer!
   Kami, mal ouviu isto, deu um beijinho na testa de Yania.
   - Somos mesmo irms!  comentou Kami toda contente por ver que
Yania pensava como ela.
   - Muito bem. Quero te agradecer a tua dedicao em prol dos nossos
valores.  disse Dyma a Yania sem esconder tambm uma grande satisfao
por esta ter aceite.  Amanh podem treinar um pouco mais de magia
enquanto preparamos tudo para a vossa partida no dia a seguir.
   - E se amanh se juntassem todos para treinar?  sugeriu Noiu.
   - Sim!  concordou Kimi  Amanh podemos todos praticar bolas de
fogo ao alvo!
   - Sim!  gritou tambm Ilky apoiando a ideia. Adorava atirar bolas de
fogo!

                                   55
Marcos Arago Correia

   Kami e Yania sorriram uma para a outra. Seria mais um dia super divertido,
e desta vez todos os irmos estariam juntos brincando e treinando. E seria
tambm mais seguro para o sucesso da misso Yania treinar um pouco
mais de magia, pois muito embora ela j dominasse suficientemente bem
os seus poderes, no podiam arriscar nada, uma vez que se algo corresse
mal era o menino que pagaria, dado que o monstro poderia mesmo mat-lo
para se vingar. Estava pois decidido. Partiriam depois de amanh.
   E assim aconteceu. No dia seguinte praticaram todos os seus poderes,
Yania, Kami, Kimi, Ilky e Eliu. Embora seja certo que, todos juntos, e
devido ao constante desafiar de Ilky, passaram mais tempo brincando do
que propriamente treinando. Mas foi ptimo, pois essa era tambm uma
maneira excelente de Yania conhecer melhor os Espritos maravilhosos que
eram as outras crianas, e vice-versa. Yania sentia-se verdadeiramente
muito feliz, e agradecia ao Amor por ser to belo.
   Quando caiu a noite, Kami e Yania foram-se logo deitar de modo a
descansarem bem para a misso que as esperava no dia que se seguia.
   Dormiram as duas juntas e abraadas, no quarto de Yania, de modo a
transmitirem confiana uma  outra de que tudo iria correr bem.
   Mal acordaram, Dyma e Noiu reuniram-se com elas, dando-lhes todos
os detalhes do lugar, do menino e do homem monstruoso. Deram-lhes
ainda dinheiro para se poderem deslocar at  cidade e para comerem num
restaurante vegetariano, bem como as roupas que deveriam usar, pois no
era conveniente levantarem suspeitas, e como tal deviam vestir-se com as
roupas usuais de fora da aldeia.
   Tomaram rapidamente o pequeno-almoo, e chamaram dois cavalos que
as levariam para fora da aldeia at ao fim da floresta. A partir da estavam
por sua conta.
   Ao sarem da floresta ordenaram aos cavalos que regressassem,
e apanharam um comboio em direco  cidade onde se localizava o
orfanato.
   H muito que as pedras dos seus colares haviam deixado de brilhar.
   - Como achas que devemos afastar o monstro do Pedro?  perguntou
Yania a Kami, j sentadas dentro do comboio.
   Estavam ambas um pouco maldispostas, principalmente Kami, pois a
poluio contrastava drasticamente com o ar lmpido da aldeia.
   - Nas misses em que eu participei anteriormente, ns geralmente
decidamos isso sobre a hora, pois muitas vezes eram feitos planos, mas



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                                          As meninas que vieram das estrelas

depois tnhamos que os alterar porque, por exemplo, os monstros reagiam
de forma diferente quela que espervamos.
   - Compreendo...  tudo uma questo de nos adaptarmos e reagirmos
em funo das circunstncias.
   Trs horas e meia depois, o comboio finalmente chegara  cidade.
Dirigiram-se ao posto de turismo junto da estao, onde pediram um
mapa e indicaes sobre a localizao do orfanato, e ainda onde poderiam
encontrar um restaurante vegetariano.
   Tomaram um txi, e foram almoar no nico restaurante que servia
refeies vegetarianas na cidade, pois j era tarde e estavam com fome.
Ambas comeram bifinhos de soja servidos com massa integral, espinafres
e algas. Kami tomou um sumo de cenoura e Yania um de laranja. Como
sobremesa as duas escolheram tartes de ma sem acar. Estava tudo
muito delicioso!
   Apressaram-se para o autocarro que saa dali perto e passava no
orfanato.
   Quando chegaram, combinaram um plano para passarem pelo porteiro
que com cara de mau controlava as entradas e sadas do edifcio.
   - Temos que distrai-lo, mas como?  olhou pensativa Yania.
   Kami reparou ento que no jardim, junto da casota onde ele estava de
vigia, existia um gato comendo restos de comida.
   - Tenho uma ideia!  exclamou Kami.  Vou ordenar ao gato que
entre dentro da casota e que, sem magoar o porteiro, comece a investir
furiosamente agarrando-se-lhe s pernas.
   - ptima ideia! Assim ele ter que tratar do problema do gato e no
olhar enquanto para a porta!
   Kami concentrou-se no gato. Fechou os olhos e imaginou, desejando,
que o gato se pendurava  perna esquerda dele, enquanto miava
enraivecidamente.
   O gato abandonou imediatamente o que estava fazendo, entrou na
casota de vigia, e de um s pulo saltou para a perna do porteiro miando
de forma estridente e ameaadora.
   O porteiro saltou da cadeira sobressaltado e saiu pela casota fora com
o gato  perna.
   Yania e Kami correram logo para dentro passando o mais rapidamente
possvel pelo jardim at entrarem no grande edifcio.
   Uma funcionria austera saiu duma diviso, e reparou nas duas meninas
que ela no conhecia, dentro do hall de entrada.

                                   57
Marcos Arago Correia

   - Quem so vocs?
   Yania gaguejou. Lembrou-se ento que Dyma lhes tinha dito que o
menino tinha aulas fora do orfanato durante as manhs.
   - Sabe, somos colegas de escola do Pedro Ernesto...
   - Sim, somos repetentes e viemos pedir-lhe ajuda com os trabalhos
de casa. J mostrmos os nossos cartes de identificao na porta. 
improvisaram ambas com perspiccia.
   A funcionria no levantou mais questes, pois confiava no rgido
controlo exercido pelo porteiro.
   - Ele est na sala de jogos, ao fundo daquele corredor  direita. 
indicou com o dedo.
   Kami e Yania agradeceram e puseram-se logo a andar, no fosse a
funcionria querer acompanh-las e reparar que no traziam nenhum
caderno.
   Chegaram  sala, mas havia muitos meninos a brincarem com diversos
jogos. Kami aproximou-se de um deles e perguntou onde estava o Pedro
Ernesto. O rapaz indicou para o canto.
   Repararam ento que havia um menino muito triste, que estava sentado
e sozinho, e no brincava, apenas olhava para um grande cartaz que estava
na parede e que representava o sistema solar.
   As duas amigas aproximaram-se. Era a mesma criana da foto que
Dyma e Noiu lhes deram.
   - Como te chamas?  perguntou Yania.
   O menino ficou muito surpreso por ver duas meninas ali. Quase nunca
apareciam meninas naquele orfanato.
   Uns olhos que ressaltavam rios de infelicidade fixaram-se em Yania.
   - Pedro.
   Yania e Kami ficaram profundamente comovidas.
   Yania deu-lhe a mo para que as acompanhasse, e logo repararam que
existiam cicatrizes do que pareciam ser queimaduras de cigarro, logo acima
do seu pulso.
   - Vem, vamos ali at ao jardim para falarmos um pouco.
   - Vocs so muito lindas. Parecem anjos.  comentou o menino, que as
seguiu sem fazer questes.
   - Somos Anjos da Guarda e viemos te ajudar!  respondeu Kami.
   Quando entraram, tinham notado que o jardim era suficientemente
grande para que pudessem arranjar um cantinho para falarem a ss com
o menino.

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                                             As meninas que vieram das estrelas

   Sentaram-se os trs juntos a uma vedao que separava o orfanato
dum bloco de apartamentos.
   Yania acariciou o cabelo do rapaz.
   - Estamos aqui para te ajudar. Sabemos que tens sofrido muito, mas
queremos que tu saibas que o Amor existe.
   - Sim, gostamos muito de ti, e por isso no vamos deixar que tu sofras
mais.
   Pedro olha muito surpreso para uma e para outra alternadamente.
   - Parece um filme...  comentou sem saber mais que dizer.
   - No, no  um filme. Isto tudo  bem real Pedro. Mas no vamos
deixar mais que seja real o que te tm feito.
   Logo que Kami disse isto, levantou-lhe com suavidade um pouco da
camisa. Queria chorar. Estava repleto de marcas.
   - Porqu nunca ningum do orfanato te disse nada sobre isto?
   - O senhor que me faz isto, diz que  primo do director.
   - Ento est tudo explicado!  disse Yania enquanto lhe afagava a
mo.
   - Leva-nos at ele Pedro.
   - Tenho medo...
   Kami colocou-se de joelhos  frente dele.
   - O medo  errado, Pedro. Dificulta a nossa vida e impede-nos de vencer.
De que  que te serviu teres medo este tempo todo? No te continuaram
a bater e a maltratar?
   - Sim, o medo s te manteve no sofrimento.  acrescentou Yania.
   - Tens que ter fora para mudares a tua vida para melhor. E com medo
no poders ter essa fora, porque o medo  fraqueza. E fraco, com medo,
a tua vida ficar sempre m ou mesmo ainda pior.
   Yania levantou-se, agarrou as duas mos de Pedro e puxou-o para
cima.
   - Anda, no tenhas medo. No ests s, ns amamos-te!
   De sbito Pedro comeou a sentir-se corajoso. Aquelas duas meninas, de
olhos to cheios de luz e beleza, e as suas palavras to doces, inspiravam-lhe
fora. Ele acreditou que era capaz de vencer o mal que o atormentava.
   Levantou-se e suspirou.
   - Obrigado por serem minhas amigas. Venham.
   Entraram de novo no edifcio e seguiram Pedro mesmo encostadas a
ele. Subiram umas longas escadas, e pararam junto a uma diviso, onde
estava um homem sozinho frente a um computador.

                                      59
Marcos Arago Correia

   -  ele  indicou Pedro.
   - Esperas aqui.  pediu Kami.  Ests mais seguro vendo a esta
distncia.
   Yania e Kami entraram e aproximaram-se do homem, sem qualquer
receio.
   - Quem so vocs e o que querem?  perguntou o funcionrio de modo
muito antiptico.
   - Viemos falar consigo. Estamos muito aborrecidas com o que tem feito
ao Pedro.  respondeu de imediato Yania.
   - Suas fedelhas! Ponham-se j na rua!  gritou enquanto se
levantava.
   - Ponham-se na rua???  essa a resposta que nos d??? J sei, quer
continuar a maltratar um menino inocente e indefeso!  indignou-se
Kami.
   Entretanto o funcionrio ficou todo vermelho de raiva, e pegou num
guarda-chuva comprido que estava no canto junto  mesa, levantando-o
ameaadoramente no ar.
   - Rua cretinas!  gritou monstruosamente.
   As amigas nem moveram p. Kami acenou com a cabea condenando.
   - Violncia... Tanta violncia... Mas para qu?
   De sbito o homem tenta bater com o guarda-chuva em Kami, mas
Yania deseja imediatamente que o guarda-chuva pare.
   O homem fica boquiaberto ao notar que uma fora invisvel bloqueava o
guarda-chuva no ar. Tenta moviment-lo, mas era intil. Largou-o ento da
mo, mas reparou que o guarda-chuva no caa no cho, ficando suspenso
exactamente na mesma posio onde estava.
   Recuou alguns passos.
   - O que  que isto quer dizer?  perguntou com uma expresso de
espanto e receio.
   - O que  que isto quer dizer??? Que voc  um monstro!  respondeu
Yania, que deseja que o guarda-chuva bata repetidamente e com fora na
cabea do homem.
   Imediatamente o guarda-chuva vira-se para trs e desata a dar fortes
cacetadas na cabea dele, sem parar. Este tentava se afastar, mas o guarda-
chuva perseguia-o incessantemente, atingindo-o sempre certeiramente na
cabea.
   O menino, que estava a observar tudo, comeou a se rir de ver aquele
malfeitor estar a levar tantas e to fortes guarda-chuvadas.

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                                            As meninas que vieram das estrelas

   E Yania e Kami, vendo Joo a rir-se, riram-se tambm.
   De repente, o homem comea a transformar o seu tom de voz para um
tom anormalmente grosso e rouco, enquanto anda para trs em direco
 porta.
   - Aaahhh! Malditos Espritos do Amor! Odeio o Amor! Vocs ho-de
pagar!  revelando uns enormes dentes caninos ao falar.
   Ao verem que o monstro ia sair da sala, correm para o p de Pedro
para proteg-lo.
   O monstro agarrou com uma fora brutal o guarda-chuva e partiu-o
ao meio, fazendo com que este cessasse os movimentos. Kami reagiu de
imediato desejando intensamente que uma cadeira ali prxima atingisse
com grande fora o monstro. Prontamente a cadeira levantou-se e foi atirada
com uma velocidade espantosa contra ele por uma fora invisvel.
   Atingindo-o tambm na cabea, o monstro ficou bastante atordoado e
fugiu a correr dali para fora coxeando.
   - Nunca mais voltes!  gritou Yania enquanto o seguia at s escadas,
por onde ele desceu para fora do orfanato.
   Ambas voltaram-se para Pedro dando-lhe muitos carinhos.
   - Est tudo bem agora!  exclamou Yania.
   O menino estava estupefacto. Abraou-se s amigas, e agradeceu-lhes
muito tudo o que tinham feito. Os seus olhos voltavam a brilhar.
   - Ele nunca mais ir regressar!  garantiu Kami, j habituada a misses
parecidas.
   - Sim, e se um dia precisares de mais alguma ajuda nossa, no hesites
em pedir. Procura  noite no cu a estrela mais brilhante de todas. Pede-
lhe com muita fora que te ajude. Ela satisfar sempre os teus pedidos de
socorro!  assegurou Yania.
   - Que a tua misso seja plena de sucesso!  e Kami d-lhe um longo
beijo na testa.  A Verdade  o Amor, e a tua vida faz parte do Amor. Ests
aqui para uma misso, uma misso de Amor. O teu futuro est apenas nas
tuas mos, com a ajuda das nossas mos.
   Yania deu-lhe tambm um doce beijo na testa, enquanto o abraavam
em jeito de despedida.
   Vieram as lgrimas aos olhos dos trs.
   - Nunca mais vou voltar a vos ver?
   - Claro que vais!  responde Kami prontamente.  Um dia, mais tarde,
nalgum lugar do Universo.



                                    61
Marcos Arago Correia

   - Mas at l estars sempre nos nossos coraes!  acrescentou Yania
enquanto uma lgrima corria j pela sua face, num prenncio claro de
saudades.




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                              Captulo 6




    Kami e Yania estavam j ambas na estao, esperando o prximo
comboio que as levaria de volta ao limite entre a floresta da sua aldeia e
a sociedade.
    Yania pegou num jornal que algum tinha deixado sobre o banco.
    Logo na primeira pgina e em grandes letras pde ler:
    Tarada que raptou filha do Ministro  declarada louca pelo Tribunal e
internada compulsivamente.
    O seu corao quase saltava do peito. Comeou a ler rapidamente toda a
notcia. No tinha dvidas. Era dela e de Margarida que a notcia falava.
    - Kami, depressa, l isto  pediu bastante abalada  amiga.
    Kami ficou tambm chocada.
    - Esto a falar de ti e da Margarida  constatou enquanto lia a notcia
que referia que tinha sido provado o rapto atravs da descoberta dum
bilhete deixado pela menina na casa da proprietria da loja do paranormal,
quando l foi ordenada uma rusga policial por suspeitas dos pais.
    - Os monstros acusaram a Margarida de me ter raptado e prenderam-na
num manicmio. Tenho que ajud-la!  levantou-se de imediato.
    - O que  que ests a pensar fazer?
    - No sei... s sei que tenho que ajud-la!  afirmava enquanto tirava
o jornal das mos de Kami e rasgava-o aos bocados.  Como  possvel
dizerem tamanhas falsidades como se fossem verdades absolutas?  deitou
os bocados no lixo.  O meu pai deve ter reparado no carimbo da loja que
constava nos meus livros, e suspeitou que eu pudesse estar l  suspirava

                                    63
Marcos Arago Correia

 Sa a tempo, mas a Margarida gostava tanto de mim que at guardou o
simples bilhete que lhe escrevi antes. Devia a ter avisado para o destruir.
 culpou-se.
   - No, Yania! No tiveste culpa! Nem tu nem a Margarida! Era normal que
ela quisesse guardar o teu bilhete pois essa seria a sua ltima recordao
tua.
   - Eu vou procur-la!
   - Calma! Temos que voltar  aldeia primeiro e reunir com todos para
ver o que poder ser feito.
   Yania comeou a andar em direco  bilheteira.
   - No Kami! No h tempo a perder!
   - Espera Yania! No faas isso!  muito perigoso! Temos que voltar
primeiro!  gritou.
   Era intil. Yania dirigiu-se  bilheteira e comprou um bilhete rumo 
capital. Eram quatro horas de viagem a partir dali, e quase j no restava
dinheiro, mas no se importava. Estava disposta a passar fome e dormir
na rua se fosse preciso, mas teria que ajudar Margarida.
   Kami correu atrs dela.
   - Yania escuta! No ests preparada para uma interveno dessas. Alm
do mais a polcia ainda anda  tua procura e as tuas fotos foram divulgadas
na imprensa. Irmos  capital  das piores coisas que podemos fazer pois
irs ser facilmente reconhecida.
   Mas a deciso de Yania era inabalvel.
   - Kami, tu no precisas vir comigo. Eu  que vou.  e dirigiu-se
apressadamente para o comboio que partiria dentro de minutos para a
capital.
   Kami ficou parada a olhar para a amiga a se afastar. Sentiu no seu
corao que ela tambm estava triste por no ter tido o seu apoio, por
no ter percebido a dimenso da urgncia que imperava naquele caso. Um
sentimento de culpa invadiu-a.
   Yania entrou, sentou-se, e evitou olhar pela janela. As portas fecharam-se
e o comboio comeou a andar. Sentia-se muito triste e revoltada. A tristeza
que fazia o seu corao doer era constantemente alimentada pela ideia
do mal que Margarida estava a sofrer, e aumentada pela falta do apoio
incondicional que esperava de Kami. Essa amarga tristeza era acompanhada
por um sentimento tremendo de revolta contra as monstruosidades que
devastam a Terra e que pareciam no ter fim. Suspirou e quis chorar
perdidamente. O desespero tomava-lhe conta da alma. Ela amava Kami

                                     64
                                           As meninas que vieram das estrelas

e todos os outros da aldeia. Mas amava tambm Margarida, e Margarida
precisava agora dela mais do que nunca. Fechou os olhos tentando
arduamente conter as lgrimas que j se acumulavam.
   De sbito sente um beijo, muito terno, na cara.
   - Yania, alguma vez achaste que te ia abandonar?
   Era Kami que se sentara ao seu lado!!!
   - Kami!!! Obrigada! Obrigada por seres minha verdadeira amiga!
   E as duas abraaram-se fortemente. E ento choraram, mas choraram
agora pela felicidade de permanecerem sempre juntas.
   Durante a viagem combinaram o que poderiam fazer para tirar Margarida
daquele lugar horrvel. Yania e Kami no confiavam nas instituies da
sociedade. Sabiam que eram corruptas, falsas e malvolas. Kami tambm
tinha aprendido isto, porque muitos na aldeia tinham antes vivido na
sociedade e contaram as coisas horrveis que eram l feitas. Yania tinha
sentido na prpria pele a hipocrisia e o maquiavelismo das instituies,
nomeadamente da polcia, mas era-lhe sempre difcil entender como  que
algum era capaz de obedecer a ordens ou a leis imorais apenas em troca
de dinheiro.
   Contudo, ambas tambm sabiam que existiam indivduos bons em
muitas dessas instituies. Que embora muitos polcias fossem maus,
alguns outros eram bons e utilizavam as suas profisses para tentarem
ajudar as pessoas boas, fossem elas ricas ou pobres.
   Puseram-se de acordo, e decidiram ento tentar falar com o director
do hospital psiquitrico. Contaram todo o dinheiro que tinham. Quando
chegassem  capital iriam a um supermercado e comprariam algumas
sandes de vegetais e um pacote de leite de soja que dividiriam, e ainda
um grande cobertor para se aconchegarem do frio, pois passariam a noite
num lugar escondido num parque da cidade.
   E assim foi. Eram trs da manh, e ambas dormiam juntas,
aconchegando-se, num relvado mais recatado entre algumas rvores.
   De sbito so acordadas por uma lata vazia de cerveja que lhes cai em
cima.
   - Olhem, duas midas a dormirem abraadas... que gozo...!
   Era um bando de sete jovens delinquentes, muitos dos quais embriagados,
que estavam em p  frente de ambas, rindo-se e gozando delas. Kami
pegou na lata e jogou de volta para eles.
   - No gostamos do cheiro a lcool.  disse indignada enquanto se
levantava com Yania.

                                    65
Marcos Arago Correia

    - Devem ser mariquinhas... abraadinhas...  comentou estupidamente
um outro rapaz.
    - Metam-se na vossa vida, cretinos!  respondeu Kami novamente.
    - Sim, bando de parvalhes  apoiou Yania.
    - Olha, olha, as duas pombinhas a protestarem  disse aquele que parecia
ser o lder.
    - Vamos lhes dar uma lio!  props outro rapaz, que foi logo apoiado
por todos.
    - Umas bofetadas e est resolvido o assunto  ordenou o cabecilha.
    Comearam a se aproximar mais delas, e at um deles chegou mesmo
a abrir uma navalha de ponta e mola.
    De imediato Kami desejou intensamente que eles fossem empurrados
para trs. E repentinamente os sete comearam a sentir uma potente fora
invisvel a empurr-los todos no sentido contrrio. Era to grande essa fora
que um at caiu de costas no cho. Eles no percebiam bem o que se estava
a passar, e embora recuando, no fugiram.
    Ento Yania desejou que uma outra fora invisvel desse uma robusta
bofetada em cada um deles. E de sbito cada um experimentou uma forte
estalada na face. Entraram em pnico e fugiram pelo parque fora a gritarem
o mais que podiam!
    - Afinal quem so os mariquinhas?  gritou para eles Yania, que comeou
a rir-se juntamente com Kami.
    Voltaram as duas a se deitarem abraadas, mas desta vez, no fosse
o diabo preparar mais alguma, desejaram que um grupo de esquilos, que
tinham visto antes, sinalizasse com sons altos a aproximao de qualquer
pessoa.
    O dia nasceu. As duas amigas no perderam tempo e informaram-se
onde ficava o hospital psiquitrico da capital para tentarem falar com o
director pessoalmente. Queriam provar que Yania no fora raptada, e que
como tal Margarida estava inocente.
    Ao chegarem, Yania foi logo reconhecida por um guarda do hospital, que
as acompanhou de imediato at ao gabinete do director.
    - Bom dia  cumprimentou Yania com apreenso.  Estou aqui para
provar que no fui raptada por ningum, e que  mentira que Margarida
tivesse qualquer envolvimento. Eu fugi de casa, s isso.
    O director olhou para Yania com um ar de muita calma, como se tivesse
tudo sob controlo.



                                     66
                                              As meninas que vieram das estrelas

   - Sabes mida, vejo que ests mentalmente muito perturbada. Sou
mdico psiquiatra h j trinta e trs anos, e consigo distinguir uma pessoa
s duma pessoa doente apenas olhando.
   - Perturbada? Nunca tive to bem na minha vida!  exclamou
revoltada.
   Kami meteu-se na conversa.
   - Vejo que o senhor no percebe nada de sentimentos, de emoes, do
que vai dentro da alma de algum.
   - Vocs as duas esto muito mal. Essa tua amiguinha  apontou para
Kami  tem te lavado o crebro com ideias loucas, no  assim?
   Yania insurgiu-se.
   - Estou a ver que  intil falar consigo.
   - Intil? Pois, talvez. Muita gente doente precisa de mais... de comprimidos,
de choques elctricos e lobotomias... Tu abandonaste os teus pais, a escola,
tudo! Deixaste de cumprir o teu objectivo principal que era estudar...
   - Objectivo principal? Desde quando  que o objectivo principal da vida
de um Ser Humano  estudar nas vossas escolas? O objectivo principal de
um Ser Humano  ser feliz e fazer os outros felizes!  deu a mo a Kami. 
Vejo que voc  que  um doente mental.
   O director permanecia calmo.
   - Muito bem... talvez at o seja. Mas afinal, o que  a doena mental? No
somos ns, consagrados mdicos psiquiatras, que a definimos? Sim, talvez
at possas ter razo... sermos todos loucos... interessante...  de repente
d um soco na mesa  Mas so os governantes e as suas leis que nos dizem
aquilo que devemos escrever nos livros de psiquiatria! Eles  que mandam!
Ns obedecemos!
   Yania e Kami recuaram uns passos.
   - Onde est Margarida?  perguntou Kami.
   - Onde vocs as duas estaro dentro de poucos segundos!  e levanta o
telefone para chamar os guardas.
   - s um monstro.  disse Yania fazendo uma cara de nojo.
   Quatro guardas entram e agarram nas amigas.
   - Esto muito doentes. Levem-nas para a ala E, onde devero permanecer
fechadas e vigiadas at ordem em contrrio.  e, enquanto so levadas do
gabinete, telefona para o senhor Joo Nbrega para avis-lo do sucedido.
   Durante o percurso forado pelos corredores, Kami tem uma ideia.
   - Senhor guarda  disse para um dos guardas que a segurava pelo brao
 preciso de ir ao quarto de banho. Estou muito aflita.

                                       67
Marcos Arago Correia

   - No temos permisso. Tem que esperar at chegar  ala de internamento.
 respondeu como uma mquina.
   - Mas senhor guarda  continuou fazendo que j nem podia andar  Eu
no vou aguentar. Se eu no for j ao quarto de banho terei que fazer chichi
mesmo aqui, e o senhor guarda ficar com esse lindo uniforme todo molhado
e manchado. O que diro os seus superiores?
   O guarda olhou para o colega do lado. No podiam deixar que isso
acontecesse. As normas internas eram tambm muito rigorosas em relao
s fardas.
   Comunicaram aos colegas que os seguiam atrs com Yania que teriam que
parar rapidamente no quarto de banho mais prximo.
   Kami entrou no quarto de banho, ficando os quatro guardas com Yania
mesmo  porta.
   Abriu a torneira ao mximo, e desejou que a abundante corrente de gua
se transformasse numa grossa corrente de ferro que voaria at aos guardas
acorrentando-os imediatamente. Abriu a porta, e pum!
   A gua j transformada em corrente de ferro joga-se para cima dos
guardas, deitando-os ao cho e amarrando-os rapidamente uns contra os
outros dos ps  cabea, de tal forma que nem podiam gritar.
   - Depressa Yania vamos!
   - Mas onde estar Margarida?  perguntou Yania enquanto corriam.
   - J tratamos disso!  respondeu enquanto procurava um esconderijo.
   Reparam ento num quarto vazio. Entram e fecham a porta. Encostaram-se
 parede recuperando o flego.
   - D-me as tuas mos  pediu Kami enquanto agarrava ambas as mos
de Yania.
   - Quero agora que te concentres e visualizes Margarida, e que penses no
quanto gostas dela e no quanto ela gosta de ti.
   - Mas tenho que te transmitir por telepatia?
   - No  preciso. Pensa apenas!
   Yania fechou os olhos, e fez o que Kami lhe pediu.
   Ela tambm fecha os olhos e concentra-se. Passam-se alguns segundos.
Kami sentiu toda a beleza da relao entre as duas, os maravilhosos sentimentos
de Amor que brotavam de ambas. Ento pressentiu de imediato onde estava
Margarida.
   - Pronto j est! J sei o lugar onde a puseram! Anda!  abrindo a porta
com cuidado.
   - Como  que fizeste isso?  perguntou Yania admirada.

                                      68
                                             As meninas que vieram das estrelas

   - No foi eu, foste tu! Anda, no h tempo a perder!
   Correram as duas, Kami  frente indicando o caminho.
   Chegaram ento a um quarto que tinha a porta trancada.
   - A Margarida est aqui.  disse Kami.
   - Deixa que eu abro a porta  e desejou muito que a porta se
destrancasse.
   Entraram as duas, e viram uma mulher no fundo, amarrada  cama, e com
uma garrafa de soro ligada ao brao.
   - Margarida!  correu Yania aflita em direco a ela.  Margarida, sou
eu!  abanava-a pois parecia inconsciente. Logo reparou que tinha muitos
hematomas e feridas que ainda sangravam na cabea e nos braos. Ficou muito
ansiosa.  Margarida! Margarida! O que  que tu tens? Acorda!  gritava.
   Ento Margarida abre vagarosamente os olhos fixando Yania.
   - Margarida! Sou eu!  apertando-lhe a mo.
   - Sarinha...  respondeu com muita dificuldade   to bom te ver...
   - O que  que te fizeram aqueles monstros?  perguntava agitada.
   - Querida... no importa o que me fizeram...  continuou com imenso custo
 Importa que tu ests bem, e que te amo muito...
   - Eu tambm te amo muito!
   - Eu sei... por isso um dia, mais tarde... nos voltaremos a encontrar  e
suspirou fechando os olhos e a cabea virando-se.
   - Margarida... no! Margarida!  gritou Yania ainda mais aflita enquanto a
abanava com fora.
   Kami, que se encontrava ao lado de Yania, encostou-se a ela confortando-a
e mostrando que era intil.
   - Ela j no est aqui Yania.
   - No! Margarida!
   - Yania, ela vive agora num lugar melhor...
   - Margarida!  e comeou a chorar imenso, abraando o corpo j sem
vida.
   Kami sabia que Margarida j estava na galxia do Paraso, mas compreendia
a dor imensa de Yania. Afinal, mesmo tendo partido para um lugar melhor,
o modo horrvel como essa partida se dera, cheia de sofrimento e antes da
hora, tambm a revoltava enormemente.
   - Monstros! Monstros! So mesmo monstros!  gritava Yania
chorando.




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                              Captulo 7




    O Ministro do Estado, pai terrestre de Yania, acabara de receber um
segundo telefonema do director do hospital psiquitrico avisando que a sua
filha e a amiga eram comprovadamente Espritos do Amor, pois haviam
demonstrado poderes excepcionais que confirmavam as ideias que lhe
tinham transmitido antes.
    Joo Nbrega ficou bastante preocupado. J tinha ordenado um cerco
policial ao hospital, mas sendo uma situao de grande gravidade para a
ordem pblica e para a segurana dos monstros, decidiu telefonar ao seu
superior hierrquico, o Presidente do pas mais poderoso do planeta, para
avis-lo do que se passava.
    - Senhor Presidente, desculpe incomod-lo, mas existe uma situao de
emergncia no nosso pas.  informava inquieto ao telefone.
    -  senhor Ministro!  sempre um prazer ouvir um dos meus mais fiis
servidores. Ento o que  que se passa?
    - Obrigado senhor Presidente. Acontece que descobri que a minha filha
 um Esprito do Amor. Fugiu de casa h uma semana, e agora regressou
para salvar uma amiga dela que tnhamos mandado o tribunal condenar e
internar num manicmio. Est acompanhada por outra mida, e fizeram
uso de poderes paranormais bastante desenvolvidos.
    - Isso  realmente grave...  fez um silncio de alguns segundos
enquanto pensava.  No podemos arriscar. Envie os comandos militares
para aprision-las, enquanto eu vou avisar a Igreja de Satans.



                                    70
                                            As meninas que vieram das estrelas

    O Ministro do Estado, que no seu pas era o chefe do governo, cumpriu
imediatamente as ordens do Presidente do pas militarmente mais poderoso
e financeiramente mais rico da Terra, tendo mandado avanar para o local os
comandos do exrcito. Redigiu tambm um comunicado oficial  imprensa,
divulgado pelo seu gabinete de assessoria, informando falsamente o povo
de que um grupo de loucos extremamente violentos havia se amotinado e
tomado conta do hospital psiquitrico da capital, mas que a situao estava
sob controlo e em vias de ser regularizada.
    Entretanto, a sede da Igreja de Satans acabara de receber o telefonema
do Presidente pedindo a interveno desta. O Altssimo Sacerdote, lder
da Igreja de Satans, Embaixador do Inferno e intermedirio entre os
governantes corruptos da Terra e a Grande Besta, mandou reunir de
emergncia o Conselho do Sacerdcio Infernal.
    - Altos Sacerdotes Satnicos, Bispos do Supremo Bode Bestial, Monstros
Abominveis do Inferno, estamos aqui reunidos porque Espritos desse
nome que no ousamos pronunciar, tiveram o atrevimento de desencadear
uma aco de ataque mesmo debaixo das nossas barbas.  e explicou com
uma voz estpida e rouca a situao aos seus subordinados.
    O conselho era composto por dezoito monstros, todos com forma
humana, mas que usavam barbichas penduradas no queixo como bodes,
pequenos chapus com longos cornos, longas vestimentas que combinavam
as cores vermelha e negra, e aos seus pescoos, grandes pentagramas
invertidos. A hierarquia dos monstros era indicada pelo tamanho dos
cornos do chapu. Assim, o Altssimo Sacerdote vangloriava-se de ter os
cornos maiores e mais pontiagudos (com cerca de trs metros cada  sim,
a sala era muito alta).
    Ouviu-se um burburinho frentico.
    - Excelncia, essas criaturas repugnantes devem ser mortas sem
piedade.  props com voz de vbora o Bispo Infernal de Mendes.
    - De acordo!  gritou o Alto Sacerdote do Trapzio Maldito, dando um
soco estrondoso na mesa. Ouviram-se berros de apoio.
    No entanto, o Bispo de Belial, nmero dois na hierarquia do conselho,
deitando a lngua de fora como uma serpente, levantou-se e disse:
    - Excelncia  dirigindo-se ao Altssimo Sacerdote  H que ter cautela.
Mat-las sem mais iria causar um contra-ataque macio e imediato dos
Espritos do nome que no ousamos pronunciar. Proponho que as matemos
sim, mas que ao mesmo tempo ataquemos com numerosos esquadres de



                                     71
Marcos Arago Correia

monstros da morte a aldeia deles. Assim ficaro enfraquecidos, e incapazes
de reagir  morte dessas duas criaturinhas nojentas.
    Fez-se um silncio na sala. Um ataque dessa envergadura  aldeia era
coisa desejada por todos h muito, mas que tambm todos temiam.
    O Altssimo Sacerdote da Igreja de Satans levantou-se.
    - Est decidido. Ordeno, pelo poder que me foi conferido pela Fora
das Trevas, que sejam j mortas essas midas asquerosas, ao mesmo
tempo que atacamos com mil esquadres da morte, dez mil batalhes de
infantaria monstruosa e oitocentas naves a aldeia deles na Terra.
    O monstro escrivo redigiu a acta da reunio e deu ao Altssimo
Sacerdote para este assinar, pois era necessria a sua autorizao por
escrito para que o Exrcito dos Monstros mobilizasse tamanho nmero
de foras. Enquanto, trinta e seis lacaios com caras e asas de morcego
entraram para segurarem nas longas capas de cada um dos sacerdotes,
enquanto estes se dirigiam para o Templo Maldito, anexo da sede da Igreja,
para preparem um ritual contra as meninas.
    No templo, colocaram mscaras de animais (lobos, morcegos, felinos e
vboras) e o Altssimo Sacerdote, pegando numa enorme e afiada espada,
iniciou um ritual de destruio com o propsito de provocarem a morte
de Yania e Kami, atravs da emanao psquica de ondas destrutivas de
dio. Concentraram-se, e invocando Satans (um dos nomes da Grande
Besta), comearam a desejar com grande fora que as meninas morressem
imediatamente.
    Entretanto, no hospital psiquitrico, Yania e Kami percorriam
apressadamente os corredores do oitavo andar procurando uma maneira
de sarem dali sem serem vistas, pois j sabiam que l fora polcias e
militares cercavam por completo o edifcio.
    - Temos que encontrar uma sada para o telhado, e depois de l vamos
voar at longe daqui.  afirmou Kami enquanto tentava encontrar uma
porta at ao terrao.
    - Voar? Eu s flutuei e mesmo assim j achei difcil!  respondeu
preocupada.
    -  o mesmo poder. Flutuar  voar em distncias curtas, portanto quem
sabe flutuar sabe voar.
    Yania no estava muito convencida da facilidade de flutuar em distncias
muito maiores, e por isso suspirou de angstia com todo o problema em
que se tinham metido. No entanto, nem ela nem Kami se arrependiam
minimamente de terem tentado salvar Margarida. Pelo contrrio, ambas

                                     72
                                          As meninas que vieram das estrelas

estavam mas era desgostosas por no terem descoberto mais cedo o que
se passava com ela, e assim poderem ter chegado a tempo de a ajudar.
    -  por aqui!  exclamou Kami  Esta  a porta que vai at ao
terrao!
    Subitamente Yania comea a sentir uma sensao de sufocamento,
como se algum lhe estivesse a apertar o pescoo tentando mat-la.
    - Kami! Espera!  gritou levando aos mos ao pescoo.  No me estou
a sentir bem...
    Nisto Kami comea a sentir exactamente o mesmo.
    - Yania, esto a tentar matar-nos com energia psquica negativa... 
disse com dificuldade.  Invoca o Amor, pensa no Amor e pede-Lhe ajuda
contra o Mal.
    As duas estavam bastante aflitas, e pararam por momentos para reagir
ao que lhes estavam a fazer  distncia. Concentraram-se em pensamento
na beleza do Amor e invocaram a sua ajuda. Um grupo numeroso de
soldados entra no corredor onde esto as duas ainda debatendo-se contra
o ataque psquico.
    - Amor, eu e a Kami amamos-Te muito, por favor no nos deixe morrer
sem que pelo menos a nossa misso na Terra esteja cumprida. Por favor...
 pensou Yania com um intenso sentimento de Amor.
    Kami invocava tambm a ajuda do Amor. Mas os soldados de elite j as
haviam visto e aproximavam-se correndo, agora acompanhados por um
feiticeiro das trevas.
    A necessidade aumentou o desejo das amigas se verem livres do ataque
mental, e... pronto! Ficaram as duas imediatamente libertas das energias
destrutivas que lhes estavam enviando a partir da Igreja de Satans.
    Apenas tm tempo de entrar rapidamente no vo de escadas que leva
ao terrao do prdio, e Kami desejando muito transforma a porta que
acabaram de passar num bloco imenso de pedra. O feiticeiro das trevas
tenta desfazer o bloco, mas no o consegue logo.
    J no terrao Yania e Kami concentram-se para voar.
    -  como todos os outros poderes!  deu a mo a Yania  S tens que
te concentrar e desejar muito intensamente, com Amor e f. Deseja que
te eleves, como quando flutuaste, s que agora deseja tambm tomar
determinada direco, a uma determinada velocidade.
    - OK!
    - Segue-me!  e Kami elevou-se do cho lentamente.



                                   73
Marcos Arago Correia

   Yania concentrava-se enquanto Kami esperava j a cerca de meio metro
do solo, sempre de mo dada com a amiga.
   Pronto. Estavam as duas no ar.
   - Mais para cima, e agora em frente a grande velocidade!  gritou para
Yania, que a acompanhava bem de perto.
   Comearam a voar velozmente de cabea, com os braos agora estendidos
para a frente. Ouvem ento o rudo de helicpteros aproximando-se.
   Um deles consegue ficar a poucos metros delas, atingindo uma
velocidade anormalmente alta para um helicptero. O vento que provocava
o movimento da hlice comeou a perturbar o voo de Yania e Kami, tendo
ambas que realizar uma manobra de fuga voando para baixo.
   Contudo o helicptero seguiu-as rapidamente, e abrindo-se uma porta
lateral do aparelho, vem que o feiticeiro das trevas que as perseguiu no
hospital psiquitrico estava agora ali tentando atingi-las com raios de fogo
que saam da sua varinha de magia satnica.
   - Deixa comigo!  exclamou Yania enquanto voavam desviando-se dos
raios.
   Concentrou-se, estendeu uma mo em direco ao feiticeiro e desejou
muito que uma bola de luz se formasse. Atirou-a ento com muita fora
contra ele, desejando que durante o percurso ela se transformasse numa
enorme bola de fogo.
   O feiticeiro ficou arregalado quando viu aquela gigantesca bola de fogo
em direco a ele. Tentou reagir com a sua varinha, mas no teve tempo.
Foi atingido em cheio, mesmo a meio dos dentes, e o helicptero explodiu
no ar imediatamente.
   - Tens mesmo jeito para isso!  riu Kami, tentando descontrair da tenso
que experimentavam.
   - Carbonizar monstros!!!  respondeu Yania tambm rindo para
relaxar.
   Desceram mais  frente fora da cidade, numa pequena montanha, para
descansarem.
   Entretanto, na aldeia, os pssaros de vigia comearam a assinalar
ruidosamente a aproximao de monstros, enquanto iniciavam tambm
voos circulares em volta de todo o permetro da aldeia.
   Os habitantes reuniram-se de imediato para organizarem a sua defesa.
Pouco depois os seus colares deixavam de brilhar. Os monstros estavam
muito perto. Comearam ento a ouvir rudos terrveis vindos de entre as
rvores, embora ainda no vissem nada.

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                                             As meninas que vieram das estrelas

    Decidiram prontamente formar um grande crculo, todos de mos dadas
virados para fora. Apenas as crianas que ainda no dominavam bem os
seus poderes ficaram sentadas no interior do crculo, beneficiando da
proteco dos restantes.
    No ar notaram tambm que se aproximavam naves malvolas, pois as
suas formas eram bastante diferentes das naves dos Espritos do Amor. Os
monstros que estavam dentro da floresta comearam a aparecer, imensos,
a maior parte tinha aspecto humano e usavam fardas militares comuns,
bem como armas convencionais, como metralhadoras e granadas. A outra
parte tinha a sua forma original de monstros, dos mais variados aspectos,
geralmente mistura de diversos animais, com patas em fenda, pele de rptil,
olhos de felino e vrios cornos. Neste grupo destacavam-se alguns lderes,
pois ostentavam ar de grande importncia, enquanto davam agressivos
gritos de ordens, deixando entrever descomunais dentes pontiagudos.
Estes teriam tambm habilidades mgicas, pois traziam enormes varinhas
em forma de serpente, as quais estavam permanentemente a faiscar.
    Era um ataque enorme. Os Espritos do Amor da aldeia tiveram a noo
que corriam perigo de vida, e ento chamaram telepaticamente os seus
irmos que tripulam as naves do Amor.
    Ao som estridente de um rugido, um monstro lder ordenou a ofensiva.
A batalha principiava.
    Soldados comearam a disparar continuamente e a lanarem granadas,
mas os Espritos do Amor j haviam criado um escudo  sua volta, o qual
rechaava todas as munies.
    Os monstros feiticeiros constatando a ineficcia das armas convencionais,
rugiram e lanaram com as suas varinhas satnicas uma chuva de raios de
fogo sobre o escudo, que o consumiu em pouco tempo.
    Imediatamente, os habitantes da aldeia, que at ento estavam evitando
matar os monstros, no tiveram outra escolha seno comear a atirar sobre
eles enormes bolas de fogo, o que levou a que os feiticeiros malvolos,
com receio, saltassem rapidamente pelo ar para a linha de trs, deixando
a infantaria ser o alvo.
    Nisto inicia-se o ataque areo das naves nefastas, e as naves do Amor
no tinham ainda chegado. A sim, foi terrvel. Espessos e contnuos raios
de laser ardiam as casas da aldeia, mas os habitantes no moveram p do
crculo que formavam. Desejaram que uma colossal e impenetrvel placa
reflectora se formasse sobre eles. Conseguiram que vrios raios laser que



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Marcos Arago Correia

atingiam a placa fossem instantaneamente reflectidos de volta, o que levou
a que muitas naves inimigas fossem destrudas.
    Contudo, a frota hostil era numerosa e prosseguia o ataque, tendo
j queimado todas as casas da aldeia. Os monstros em terra tambm
continuavam a atacar, mas muito felizmente nem as suas armas nem os seus
feitios conseguiam atingir os habitantes da aldeia, pois estes desejavam
que aqueles explodissem no ar antes que os pudessem acertar. Parecia
um gigantesco espectculo de fogo de artifcio. Balas, granadas e mesmo
feitios lanados explodiam todos no ar. Em virtude, muitos dos monstros
ficaram doidos ao verem a sua impotncia de no conseguir matar nenhum
habitante, e comearam a extravasar a sua sede de violncia disparando
indistintamente uns contra os outros. Foi uma razia.
    Eis que nos cus chega uma frota de trinta naves do Amor, que
mesmo antes de se posicionar sobre a aldeia, j os Espritos do Amor
que as tripulavam tinham desejado que todos os sistemas blicos das
naves malficas se avariassem de imediato, o que veio efectivamente a
acontecer.
    Impedidos de dispararem mais sobre o Amor, os monstros que as
tripulavam tiveram que recuar. A derrota dos demnios era geral, e
finalmente um general monstruoso, comandante do ataque, no teve
outro remdio seno dar ordem de retirada, mandando contudo incendiar
a floresta pelo caminho.
    Os habitantes da aldeia e os tripulantes das naves do Amor rejubilaram
de alegria, e tendo estes descido das suas mquinas voadoras, juntaram-se
todos para comemorarem a vitria. Beijaram-se e abraaram-se de
contentamento por todos estarem vivos. Todavia, embora fosse a vida de
cada um o mais importante, e da a sua alegria, existia algo a lamentar:
a aldeia estava destruda, todas as casas queimadas, todos os cavalos
mortos, e quase toda a floresta ardia.
    Uma enorme chuva comeou a cair sobre a floresta, desejada pelos
Espritos do Amor, mas o fogo era to extenso, e as labaredas to grandes,
que s bastante tempo depois  que conseguiram extinguir o respectivo
fogo. Desafortunadamente, toda a rea florestal prxima estava queimada.
O fumo que ainda se levantava, as rvores que estalavam do excesso
de calor, o verde que j no existia, deixou todos os habitantes muito
amargurados. Haviam perdido um dos ltimos parasos na Terra.
    Entretanto, Kami e Yania tiveram que regressar voando at ao bosque
da aldeia, pois no tinham mais dinheiro. Tinham sido aconselhadas a evitar

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                                          As meninas que vieram das estrelas

faz-lo dentro da sociedade, para no chamarem a ateno dos monstros,
mas no tinham outra hiptese.
   Enquanto o faziam, um grande abutre aproximou-se delas.
   - Cuidado Kami!  gritou Yania alarmada  Tens um abutre atrs de ti!
   Kami deu depressa uma cambalhota no ar, ficando agora ela atrs
do abutre. Este comea a guinchar, e rapidamente centenas de abutres
aparecem no cu, voando mesmo por cima de Kami.
   - O que  que eles querem?  perguntou sobressaltada Yania.
   - Querem que morramos para nos comerem!  gritou Kami, ao mesmo
tempo que vrios abutres conseguiam agarrar com as patas a sua camisa
tentando agora lhe dar bicadas.
   Yania olhou para trs e viu a amiga em srios problemas. Concentrou-se
ento nela para lhe enviar uma mensagem por telepatia.
   - Kami, mergulha a pique j!  a amiga pareceu hesitar enquanto olhava
de volta para ela. Teria recebido bem a mensagem?  Mergulha j! Confia
em mim!
   Kami jogou a cabea para baixo e acelerou o mximo at ao cho. Com a
velocidade a sua camisa rasgou-se e os abutres ficaram apenas com tecido
nas garras. Embora eles tambm descessem de imediato tentando voltar
a agarr-la, Yania j tinha conseguido o tempo suficiente de separao
para materializar, desejando, uma enorme rede  volta dos abutres, que
os prendeu e f-los cair por no conseguirem mais bater as asas.
   Mesmo na hora, dado que Kami foi logo obrigada a subir de volta, pois
j quase atingia o cho. Restava um abutre no cu. Yania comeou a criar
uma bola de luz, mas antes de atir-la, encarou o abutre de frente.
   - Ento seu mauzo? Queres ir parar ao churrasco agora?
 perguntou.
   Parece que o abutre percebera, e dando bruscamente meia volta,
desapareceu nos cus.
   Kami voou em direco a Yania, abraando-a.
   - Obrigada, amiguinha querida! Muito obrigada!
   Tinha-lhe salvo a vida.




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                             Captulo 8




   O Presidente do pas dirigente dos outros pases acabara de receber as
notcias da derrota. No conseguiram matar nenhum Esprito do Amor, e as
meninas haviam escapado. Consolava-se apenas com a destruio material
que tinham causado, mas no era suficiente. Telefonou novamente para a
Igreja de Satans, pedindo aconselhamento. O Altssimo Sacerdote mandou
transmitir, via satlite, uma comunicao para o Inferno, informando
do sucedido, e solicitando ordens. Eram satlites ultra-secretos, que
conseguiam transmitir dados a uma velocidade muito superior s ondas
de rdio, utilizando impulsos electromagnticos que chegavam  galxia
do Inferno em poucos minutos.
   Um lacaio monstruoso informou ento o chefe da Igreja de Satans
que a Grande Besta iria se deslocar pessoalmente  Terra, e que deviam
preparar tudo e formar uma comitiva de recepo para o seu palcio
voador.
   E assim foi. Todos os mais importantes sacerdotes e bispos da Igreja
de Satans, sacerdotes com cargos de direco nas igrejas satnicas
protestantes, demnios de reputao, diabos comandantes de legies
infernais na Terra, bruxas e feiticeiros malficos da primeira ordem,
vampiros chefes, lobisomens lderes das mais importantes matilhas,
governantes imorais de todos os pases da Terra, empresrios corruptos
com as maiores fortunas, cabecilhas das maiores redes de trfico de
crianas, mulheres e drogas, generais dos grandes exrcitos, mafiosos
de renome, cientistas peritos na deturpao da verdade, psicopatas e

                                   78
                                            As meninas que vieram das estrelas

assassinos famosos, manipuladores da opinio pblica, e muitos outros
monstros de crdito, embarcaram numa grande nave que, acompanhada
duma numerosa escolta, aguardava no espao areo duma zona militar
secreta a chegada do palcio voador da Grande Besta.
   Dezanove horas depois da hora marcada, desce na atmosfera da Terra
a nave-palcio da mais prfida de todas as bestas. O atraso  propositado
como de costume, e , nas reunies agendadas, o primeiro smbolo da
supremacia duma besta sobre as outras. As avassaladoras dimenses
desproporcionais da nave-palcio da Grande Besta s ficavam em segundo
plano face ao desenho das suas formas. Existiam milhares de enormes
cornos metlicos por cima de toda a nave cilndrica, que tambm serviam
de antenas de comunicao e de controlo remoto. Em volta de todo o
aparelho, canhes laser decorados em forma de duendes gticos, desenhos
de rpteis, lobisomens e vampiros, e cada uma das janelas tinha o feitio de
um enorme e terrvel olho de tigre. Mais de um milhar de pequenas naves
blicas escoltavam a nave-me, garantindo a sua segurana.
   Uma vez dentro do palcio voador, os monstros principais da Terra
foram conduzidos por demnios-guardas at  enorme sala de recepo,
na qual,  frente e num gigantesco plpito, se ostentava um colossal trono
de ouro com forma de vbora.
   Estavam todos conversando (grunhindo), quando aparece um horrendo
lacaio com cara e asas de morcego, anunciando a entrada da Grande
Besta.
   - Sbditos monstruosos da Terra, de joelhos e com a saudao dos
cornos!  ordenou  multido.  Vai entrar o maior de todos os monstros,
deus do Mal e de todas as Bestas, Chefe Supremo do Inferno, General-
Maior Comandante de todas as legies de demnios, Imperador de todos
os imperadores, reis e presidentes, Venervel e Meritssimo Juiz de todos
os juzes, Professor Doutor Catedrtico Reitor de Cincias Satnicas, Maior
Diabo do Universo, senhores e senhoras, abram alas para Sua Excelncia
a Grande Besta!
   Todos se puseram de joelhos e curvados, levantando a mo esquerda
enquanto faziam o sinal dos cornos, e dizendo em unssono "Hail Satans".
Nisto, ouvem-se estrondosos passos de casco. Sai de trs duma cortina
vermelha perto do trono um monstro horrendo. Tinha cerca de oito
metros de altura, um corpo cinzento com enormes msculos salientes de
leo, patas e pernas de bode, tronco e braos de lagarto com escamas,
mos com garras de guia, e da cabea, tambm de bode, uma enorme

                                    79
Marcos Arago Correia

barbicha de cinco metros destacava-se, alm  claro, de um grosso par
de cornos revirados para trs, cada um com mais de trinta metros de
comprimento.
    A sua expresso era sisuda, e com uma horripilante voz rouca e
cavernosa, chamou  sua presena o seu Embaixador na Terra, o Altssimo
Sacerdote da Igreja de Satans.
    - No me agradam as tuas derrotas.  rugiu para o vassalo.
    - Excelncia, foi uma derrota temporria. Estamos neste momento
a treinar milhes de psicopatas dos nossos exrcitos no uso da magia
satnica.  respondeu com voz de lacaio fervoroso.
    - Esses imbecis s sabem matar com facas e espingardas.
    Nisto aproxima-se um assassino clebre, que havia morto mais de
trezentas pessoas na sua vida actual, e dezenas de milhes em vidas
passadas. Havia sido, h pouco tempo, condenado a priso perptua num
julgamento fantoche, mas logo a seguir as autoridades fizeram-lhe uma
operao plstica mudando-lhe o rosto, e colocaram na priso, em vez dele,
um vagabundo que enlouqueceram previamente e ao qual transformaram
a cara atravs de um feitio, de forma que ficasse igual ao do homicida.
    - Maior de todas as Majestades, as minhas licenas  e beijou as patas da
Grande Besta.  Sou a reencarnao de Adolf Hitler, e ostento um enorme
currculo na arte de matar. J fui chefe de governo, e agora sou chefe da
maior rede de mfia ilegal da Terra. Fui encarregue de fornecer para as
fileiras dos exrcitos deste planeta os melhores bandidos da actualidade.
Posso vos garantir que estes esto a aprender bem e rapidamente os
poderes ocultos das Trevas. Como garantia, se Vossa Majestade no ficar
satisfeita, mande-me pessoalmente para uma cmara de gs.
    - Assim ser.  roncou.  Embaixador Maldito, como esto as mentiras
e as hipocrisias na Terra?
    - Excelncia, so ainda as nossas melhores armas. Controlamos quase
toda a populao deste miservel planeta. Eles no mais acreditam na
verdade, por isso nos obedecem to cegamente.
    - Muito bem. Mas acabem com esses repugnantes Espritos do nome que
no ousamos pronunciar que ainda vivem na Terra. No haver desculpas.
 e retirou-se novamente com grandes estrondos, enquanto todos se
curvavam e comearam a entoar um ttrica cano blica intitulada "O
Senhor Satans  o nosso deus".
    Entretanto na aldeia, ou no que restava dela, os Espritos do Amor
estavam j preocupados por Kami e Yania ainda no terem regressado,

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                                            As meninas que vieram das estrelas

quando as vem a voar e a descer no meio deles. Todos se dirigiram para
elas, tentando abra-las.
    - Mas o que  que aconteceu?  perguntou Kami espantada ao ver
tamanha devastao.
    Yania levou a mo  boca.
    - Est tudo destrudo...
    Ento Dyma e Noiu contaram-lhes tudo o que se havia passado.
    Kami e Yania perceberam que, to vingativos que so os monstros,
deveria ter existido uma relao entre a tentativa de resgate de Margarida
e aquele terrvel ataque, e contaram tambm tudo o que sucedeu com elas
fora da aldeia.
    Ningum da aldeia as censurou, muito pelo contrrio, todos as consolaram
pois sabiam que elas agiram sempre segundo o Amor.
    O facto de a maior parte da floresta estar ardida levou os habitantes a
decidirem procurar outro lugar na Terra para construrem uma nova aldeia.
Tinha que ser um local no meio dum grande bosque longe da sociedade,
e que tivesse um rio para poderem utilizar a sua gua. Contudo, sabiam
que esses lugares eram cada vez mais raros, pois os monstros detestam
a natureza, e ao longo de sculos empenharam-se em arder as florestas,
abater rvores sem necessidade, poluir as guas, o solo e o ar, rebentar
montanhas, cavar imensos buracos, e mais recentemente contaminar com
material radioactivo extensas reas tanto da terra como do mar.
    Esperaram que viessem ainda mais naves do Amor, de forma a que
houvesse lugar para todos, e ento partiram, tendo sobrevoado a Terra
durante vrios dias, procurando escolher o melhor lugar para uma nova
aldeia. Foi durante estes dias que houve a maior vaga de avistamentos
sucessivos de OVNIs da sociedade moderna.
    Eis ento que finalmente encontraram um lugar muito bom. Estava
preservado, bem isolado, e um grande rio de guas cristalinas banhava-o.
Saram todos, e em conjunto, servindo-se da preciosa ajuda do poder da
mente, construram novas casas para todas as famlias. Eram todas de
madeira, mas por cada rvore que tinham de cortar para a construo,
plantavam outras duas pequenas rvores na mesma zona.
    Nove dias depois estava tudo pronto. Era uma nova aldeia to linda
quanto a anterior, com imensas flores, rvores de fruto e novos cavalos
que foram trazidos da densa floresta e ensinados. Os colares de todos
brilhavam intensamente.



                                     81
Marcos Arago Correia

    Yania, Kami, Ilky, Kimi, Dyma e Noiu foram ento dar um passeio a p,
todos juntos, pelas imediaes do bosque.
    - Ainda penso muito na Margarida.  afirmou Yania olhando para o
cu.
    - Filha, no te preocupes, pois ela vive agora num lugar muito melhor
que a Terra, vive na nossa galxia do Paraso. Ser em breve uma criana
saudvel e linda, por isso no te preocupes, pois est tudo bem com ela.
 respondeu Dyma muito serenamente.
    - Mas no  justo que no tenha sido ela a escolher quando queria
partir!  exclamou revoltada.
    Kami chamou um pequeno pssaro s suas mos e fez-lhe festas.
    - A Yania tem razo. O que fizeram com ela foi horrivelmente injusto.
Porqu esses monstros odeiam todas as coisas maravilhosas da vida?
Porqu?  atirou suavemente a ave de volta para o cu.
    - Exactamente porque so monstros!!!  exclamou Ilky.
    - Sim, se amassem no seriam monstros!  acrescentou Kimi.
    Noiu parou e abraou as quatro crianas.
    - H uma coisa que eu e a Dyma queremos vos dizer...  olhou cabisbaixo
por alguns segundos.  Receamos que possa haver um novo ataque contra
ns. Algumas das nossas naves detectaram naves inimigas sobrevoando
prximo, pareciam que estavam sondando o nosso novo paradeiro.
    - No podemos deixar que nos destruam tudo outra vez!  reagiu Yania,
apoiada pelas outras crianas.
    - Ns s vos queremos dizer o mesmo que todos as outras famlias da
aldeia tm dito aos seus filhos e filhas. Sigam-nos!  e, com Dyma, mostrou
um atalho para uma imensa rea de relvado, escondida mais  frente entre
as rvores.
    - So naves nossas!  exclamou Kami.
    - Sim  continuou Noiu  Em caso de um novo ataque ns queremos
que todas as crianas da aldeia fujam para estas naves, e levantem
imediatamente voo em direco  nossa base na face oculta da Lua. No
queremos colocar novamente em risco as vossas vidas.
    - As crianas com os poderes mentais mais desenvolvidos devem assumir
o controlo das naves e lev-las rapidamente para a Lua.  acrescentou
Dyma tambm com um ar algo inquieto.
    - O qu??? Vocs esto a dizer que vos devemos deixar para trs numa
situao dessas???  questionou Yania com uma voz de indignao.



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                                          As meninas que vieram das estrelas

    As quatro crianas opuseram-se veementemente  ideia e abraaram
de imediato Noiu e Dyma.
    - No, vocs tm que compreender...  explicou Noiu  Da ltima
vez, muitos meninos e meninas ficaram assustados porque eram muito
pequeninos e nunca tinham visto tanta violncia. E o pior  que tinham
razo para isso, pois por pouco um raio laser no atingiu o grupo de
crianas que estava dentro do nosso crculo. Vocs so um pouco maiores,
e por isso podem cuidar e proteger os mais vulnerveis.
    - Vejam isto como uma misso...  comparou Dyma  Vejam como se
tivessem que sair da aldeia para ajudar pequeninos que estariam em perigo
de vida devido s agresses dos monstros. A nica diferena  que esses
pequeninos esto aqui, so meninos e meninas da nossa prpria aldeia.
    As crianas ficaram ento muito sensibilizadas, e compreendiam agora
que no era apenas a sua prpria vida que estariam salvaguardando, mas
tambm a vida das suas irms e irmos mais pequenos da aldeia. Ento,
novamente abraaram Dyma e Noiu, e os quatro, inclusivamente Yania,
comearam a chorar enquanto diziam:
    - Mam! Pap! Amamo-vos muito!
    Noiu e Dyma tambm manifestaram o seu Amor pelas quatro crianas,
e choraram de igual forma com a ideia de poderem um dia ter que se
separar deles. Entretanto repararam que outras famlias ali perto estavam
fazendo o mesmo com os seus filhos, e todos reagiam tambm chorando
de modo enternecedor, pois o Amor na aldeia era muito intenso, e todos,
mas mesmo todos, se amavam uns aos outros como a si prprios.
    Passaram-se cinco dias. Era o fim de uma tarde muto divertida. Kami,
Yania, Kimi e Ilky estiveram todos juntos a montar a cavalo, brincando
e galopando por entre as rvores do bosque da aldeia. Estavam agora
a tomar banho no rio, preparando-se para irem jantar. De repente, nos
cus levantam-se as aves que estavam de vigia, e comeam fortemente a
sinalizar a presena de monstros num raio de dez mil metros.
    Os quatro vestem-se rapidamente e vo para o centro da aldeia, tal
como estava combinado para situaes de alarme. Todos os habitantes
correm tambm at l, e os pais e mes traziam ao colo as crianas mais
pequenas.
    Juntaram-se no centro, preparados para o pior. Os seus colares agora
j no brilhavam. Contudo fazia-se um silncio perturbador. Existiam
monstros por perto, mas no havia sinal deles.



                                   83
Marcos Arago Correia

    Todos olhavam em redor. Os minutos pareciam horas. Nada. Nem um
passo.
    A noite caa rapidamente, e alguns trouxeram tochas de fogo para
iluminarem bem o local onde estavam. Comearam-se a sentar nos
relvados, pois a espera era j longa. Yania, Kami e Kimi foram ento ajudar
as crianas mais pequenas, trazendo-lhes cobertores e comida, ao mesmo
tempo que inventavam jogos para as divertirem.
    Ningum queria regressar s suas casas enquanto os colares no
brilhassem. Tinham que estar todos juntos para se poderem defender com
mais fora, fazendo com que o poder de cada um aumentasse o poder do
prximo.
    Alguns ofereceram-se para formar um grupo que entrasse na floresta a
cavalo e averiguasse o que se passava, mas a noite j era densa, e foram
convencidos a ficar pois seria demasiado perigoso para eles deixarem a
proteco da aldeia.
    Fazia frio. Muitas crianas adormeceram, mas nenhum adulto arredou
p da viglia. Entretanto Kimi foi ajudar Ilky a acalmar vrios cavalos que
comearam a ficar inquietos, e Kami e Yania que tinham acabado de auxiliar
um pai a tratar dos seus cinco filhos, foram agora descansar para debaixo
de uma rvore prxima, sentando-se juntas, apoiadas no seu tronco. Uma
tocha que estava perto contribua para a iluminao da zona, e a sua luz
apaziguadora incentivava o relaxamento da tenso que persistia tambm
com as duas amigas.
    - Yania, caso me acontea alguma coisa, prometes que nunca te irs
esquecer de mim?
    - Kami, como podes sequer perguntar uma coisa dessas? No te vai
acontecer nada! Que disparates ests para a a dizer?!
    - Mas se acontecer...
    - No! No vai acontecer! Sabes o que eu te prometo tolinha? Isto sim,
prometo-te que nunca deixarei que te acontea nada de mal. Prometo!  e
agarrou-lhe as mos, apertando-as, tentando afastar aqueles pensamentos
pouco positivos da cabea de Kami.
    - Obrigada, Yania! Tambm te prometo que estarei sempre ao teu lado
te protegendo, acontea o que acontecer.
    - Prometido!
    E abraaram-se fortemente.
    A noite avanava inquietante. As duas estavam muito cansadas, e
adormeceram uma no ombro da outra.

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                                            As meninas que vieram das estrelas

   Puuuuummmmm! Um grande estrondo fez-se ouvir. Kami e Yania
acordaram de imediato e correram para junto dos outros habitantes da
aldeia. Uma casa ficara em pedaos, mas no ardia, parecendo que tinha
sido explodida  distncia. No cu continuava a ver-se diversas naves do
Amor bem l no alto, pareciam estrelas muito cintilantes deslocando-se
regularmente de um lado para outro. Desde que o alarme das aves irrompeu,
que as naves patrulhavam os cus da aldeia, protegendo-a de um ataque
areo inimigo. Permaneciam iguais no seu comportamento de vigilncia
espacial, pelo que tudo indicava que o ataque era feito em terra.
   Outro estrondo e mais uma casa explode sem causa visvel. Pedaos
de madeira e vidro foram impelidos a uma considervel distncia, quase
atingindo alguns habitantes. Outra e outra casa explodem tambm. Os
Espritos do Amor desejam com muita fora que as casas no expludam,
e conseguem evitar de facto a destruio de mais casas. No entanto
comeam-se a ouvir rugidos abominveis vindos da floresta em volta, e
numerosas grandes facas aguadas saem voando velozmente atravessando
de ponta a ponta a aldeia, dando apenas tempo para os seus habitantes
jogarem-se para o cho. Estavam quase em pnico, mas conseguem
que as facas percam fora e caiam. De repente, milhes de serpentes
comeam a sair do bosque e a avanar sobre a aldeia. Eram tantas, que
o pnico acabou por se instalar. Comeam a correr dum lado para outro
agarrando as crianas mais pequenas e gritando para as maiores para
que as levassem imediatamente para as naves e descolassem. Chegaram
reforos das naves do Amor, mas eis que, qual manobra maquiavlica, uma
enorme frota de naves de monstros que estava escondida em diversos
pontos da grande floresta, descola e ataca as naves do Amor. Grandes
exploses no cu. As crianas correm. Yania leva consigo um menino de
quatro anos e uma menina de cinco. Kami leva ao colo um menino de trs
anos. Todas as crianas chegam s naves com o apoio de um grupo de
adultos que as acompanhou e que repelia os ataques que os monstros
faziam sobre elas.
   As crianas esto a embarcar em trs das quatro naves reservadas
para esse fim. Kami colocou dentro duma das naves, sentado no cho
sobre cobertores, o menino que trazia, e volta a sair para ajudar as outras
crianas a subirem. Continuam grandes clares no cu devido a exploses.
O menino que Kami trazia ao colo, ao v-la sair da nave, segue-a. Com
a confuso os outros nem se apercebem. Kami repara que enquanto
ele corre em sua direco, uma serpente que o segue abre a boca e

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Marcos Arago Correia

prepara-se para mord-lo. Corre agora em direco a ele para o levantar
do cho mas a serpente joga-se e Kami imediatamente deita-se sobre o
menino, conseguindo proteg-lo, mas levando em vez uma forte dentada
na perna.
   Yania estava preparando j a sua nave para levantar voo. Ia pilot-la,
mas pressente algo de grave e corre para fora para ver o que se passava,
dando os comandos a um menino de onze anos. A nave descola.
   V Kami prostrada no cho com trs adultos  sua volta.
   Parecia que o mundo tinha terminado. Corre para ela.
   - Kami! Kami!  grita aflita.
   - Foi mordida por uma serpente mortal. J no respira.  informou com
tom pesaroso um dos adultos.
   - Kami, no! No!  gritava em vo enquanto a abraava tentando
cur-la com a mente.
   -  intil... este veneno mata instantaneamente qualquer pessoa 
abanava a cabea o mesmo adulto.
   - Kami! Tu vais viver!  chorava e, com uma fora para alm das suas
capacidades, consegue levar Kami para dentro da nave que estava vazia.
   Rasga toda a parte das calas  volta da ferida. Concentra-se novamente
e tenta curar Kami, como esta mesma a tinha ensinado.
   Nada. Concentra-se de novo e deseja muito que ela fique boa, mas a
amiga no reage. Tenta sentir a respirao dela... e nada. Coloca o ouvido
sobre o corao de Kami. Est parado.
   A sua cabea j no se levanta. Ficou l, mesmo por cima do corao de
Kami. Agora Yania tinha uma expresso de como tambm ela mesma tivesse
morrido. A nica diferena visvel era que grandes lgrimas cristalinas
escorriam continuamente dos seus olhos abertos, caindo ritmicamente
sobre o peito de Kami. Ao tocar no peito dela, cada lgrima parecia querer
reproduzir a batida do corao sem vida. O mundo havia terminado.
   Pela cabea de Yania ecoam os sons da ltima conversa que tivera com
Kami, quase como se ela tivesse efectivamente pressentido qualquer coisa.
A promessa...
   - Yania, caso me acontea alguma coisa, prometes que nunca te irs
esquecer de mim?
   - Kami, como podes sequer perguntar uma coisa dessas? No te vai
acontecer nada! Que disparates ests para a a dizer?!
   - Mas se acontecer...



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                                           As meninas que vieram das estrelas

   - No! No vai acontecer! Sabes o que eu te prometo tolinha? Isto sim,
prometo-te que nunca deixarei que te acontea nada de mal. Prometo!
   - Obrigada, Yania! Tambm te prometo que estarei sempre ao teu lado
te protegendo, acontea o que acontecer.
   - Prometido!
   Yania levantou a cabea. Um imenso dio contra os monstros tomou
conta dela. Ia vingar a morte de Kami, acontecesse o que acontecesse.
   Colocou o corpo inanimado sobre muitas almofadas, num canto da nave.
Depois tirou do compartimento de roupa um uniforme do seu tamanho,
dos Espritos do Amor que pilotam as naves. Colocou as botas. Estava toda
vestida de branco com grandes riscas laterais azuis-celeste que percorriam
todo o comprimento do uniforme. Simbolizavam a luz (branco) que patrulha
o cu (azul). Amarrou o seu cabelo em forma de rabo-de-cavalo. Sentou-se
na cadeira do meio da primeira fila. Olhou para os botes do painel. No
eram necessrios.
   Com uma voz determinada, comandou a nave.
   - Nave, mxima velocidade, direco Grande Besta.
   Onde quer que esse monstro estivesse, iria enfrent-lo. Afinal era ele
o responsvel nmero um pela morte de Kami.




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                              Captulo 9




   No palcio voador da Grande Besta, que no tinha ainda partido de volta
para o Inferno, um lacaio fervoroso com cara de carneiro aproxima-se do
seu monstruoso chefe.
   - Sua Majestade, mil perdes  curvou-se.  Uma nave inimiga acabou
de entrar na nossa rea de segurana e est agora parada mesmo  frente
de uma das nossas principais portas.
   - Enviaram alguma mensagem?  grunhiu a Grande Besta.
   - No, Majestade. Mas parece quererem entrar! Temos j vrios canhes
apontados para eliminar a dita nave...
   O chefe de todos os monstros concentrou-se psiquicamente na nave,
tentando descortinar as suas intenes.
   - Sinto um grande dio... Isso agrada-me! Abram a porta e deixem-na
aterrar. Escoltem a sua tripulao at  minha presena.
   - Majestade, desculpe-me a ousadia... mas devo sublinhar o perigo que
isso constitui para a segurana da nossa nave.
   Imediatamente com um s gesto a Grande Besta corta a cabea do
lacaio com uma das suas garras.
   - No admito que questionem a minha infalibilidade.  virou-se para
um monstro de guarda na sala  Vai e informa o comando das minhas
ordens.
   Yania viu a porta do palcio voador abrir-se, e manda a sua nave entrar
l dentro. Desce corajosamente, levando o corpo de Kami nos braos.



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                                           As meninas que vieram das estrelas

Utilizou, uma vez mais, os seus poderes psquicos, para que a sua fora
muscular aumentasse.
   Oitenta e nove guardas escoltam-na pelos longos, frios e escuros
corredores do palcio voador. Yania tinha a ntida sensao de que se
aproximava da mais nefasta fora do Universo. Era uma impresso
esmagadora, como se estivesse caindo num buraco sem fundo.
   Chegam a uma descomunal porta de ferro, ricamente decorada com
cobras de ouro, quase estilo barroco. Um dos guardas introduz um cdigo
num pequeno quadro lateral. A porta abre-se. Ao fundo, o imenso trono
encontrava-se virado de costas. Yania conseguia apenas ver uns gigantescos
cornos, as patas de bode e uns braos de lagarto apoiados no trono. Era
a Grande Besta. Tinha a certeza, pois encontrava-se perante uma terrvel
emanao de sentimentos horrendos de malevolncia como nunca antes
tivera experimentado, nem mesmo quando ela e Kami foram atacadas
psiquicamente.
   - Deixem-nos a ss.  roncou a Grande Besta, tendo todos os guardas
obedecido de imediato. O abominvel chefe dos monstros sabia j quem
se encontrava atrs de si.
   Yania aproximou-se do trono, e muito suavemente coloca o corpo de
Kami no cho, mesmo  sua frente.
   - Monstro imundo!  disse-lhe Yania bem alto.  Mataste duas das
minhas melhores amigas.
   A Grande Besta no reagiu.
   - Porqu tanta violncia? Porqu? Porqu alimentas o sofrimento, a
morte, a dor, o dio, a misria e o derramamento de sangue?  levantou
ainda mais a voz  Porqu as guerras, as doenas, a velhice, a fome, o
egosmo, a perversidade, a explorao do Homem pelo homem, a podrido
e os vermes que se saciam com tudo isso? Porqu tantas crianas que
choram perdidamente? Porqu enquanto uns se banqueteiam, outros se
consomem na fome e padecem a crueldade de mendigar, roubar, para no
morrerem? Porqu os ladres, os grandes ladres escondidos atrs de
grandes empresas e governos? Porqu os assassinos, tanto os que matam
por puro prazer, como os que matam em nome de leis imorais? Porqu
tantos campos de concentrao, tantas cadeias, hospcios e manicmios?
Porqu tantos deficientes fsicos e mentais? Porqu tantos animais que se
devoram cruelmente uns aos outros? Porqu tantas armas? Qual o motivo
de tantas catstrofes ditas naturais que dizimam pessoas inocentes, suas
casas, plantaes e animais? Porqu criaste o dinheiro, o mesmo vil metal

                                    89
Marcos Arago Correia

pelo qual j tantos Seres Humanos foram vendidos e comprados? Porqu
geraste e incentivaste tantas e tamanhas aberraes? Responde-me!
 gritou.
   Mas Satans permanecia em silncio.
   - Responde-me Besta hedionda! Tenho o direito de saber! Porqu desejas
que os Seres Humanos se arrastem como vermes? Porqu lhes cortas o
entendimento? Para qu milhares de filosofias, seitas e religies, se todas
se contradizem entre si, e tantas vezes suscitam guerras devastadoras?
E essa cincia oficial, moderna dona da verdade, porqu mente e engana
tanto? Porqu so quase sempre os nefastos os que se sentam em tronos
dourados e se reclinam em camas de cetim? Quem lhes deu o direito de
possurem mais do que os outros ou o direito de julgarem e condenarem?
E porqu tantos bobos se ajoelham aos seus ps e lhes beijam as mos?
Porqu tantas mentiras, tantas falsidades, tantas maldades, tanto roubo e
corrupo? O homem que tu desejas, e que dizes ser uma casual evoluo
do macaco, est a para que todos o vejam! Sim, ele  a tua imagem
perfeita: mau, prfido, violento, assassino, egosta, mesquinho, mentiroso,
hipcrita, covarde, traidor, perverso, avarento, ladro, capaz de todas e das
piores maldades! Mas esse homem que existe e que devasta o Mundo, no
 o verdadeiro Homem! Ele  o falso homem, o monstro que tu alimentas
e que te alimenta, e do qual s o seu deus. Sim, tu s o falso deus do falso
homem! Besta maldita!!! Besta horrorosa!!!  gritou muito zangada.
   O maior de todos os diabos permanecia impvido.
   - No tens nada a dizer? Porque te escondes e no me olhas? Aos
meus ps tenho o corpo de um Ser Humano verdadeiro, um Ser Humano
autntico, que eu amava tanto... Pois, mas  isso mesmo que tu queres,
no ? Destruir o Amor e matar todos os seus Espritos... s asqueroso!
Perverso! Imundo!
   Ento a Grande Besta rugiu contente.
   - Isso! Odeia-me! O dio alimenta-me! Odeia-me, pois eu tambm vos
odeio a todos!
   Yania controlou-se. Tinha aprendido na aldeia que o dio era um
sentimento que tinha que ser evitado, pois no era nada saudvel para
um Esprito do Amor.
   - No, eu no te vou satisfazer essa vontade! Eu no te odeio! Apenas
te detesto!




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                                            As meninas que vieram das estrelas

   A Grande Besta vira-se ento no trono, encarando agora Yania. Havia
se mantido de costas pois no suportava a viso directa dum Esprito do
Amor.
   - Vais morrer!  gritou de forma pavorosa, e abre uma das suas garras
lanando uma tremenda serpente de fogo criada psiquicamente contra
Yania.
   Yania consegue criar imediatamente um escudo energtico que a
protegeu. A Grande Besta reage lanando uma chuva de outras terrveis
serpentes de fogo que queimam o escudo protector. Yania foge abrigando-se
num recanto da sala. A Grande Besta levanta-se com os seus passos
estrondosos e Yania deseja que o monstro caia no cho. Mas no acontece
nada. A Grande Besta ri-se ao perceber a manobra de Yania pois havia
sentido a energia do seu desejo a qual conseguiu repelir. Aproxima-se de
Yania e ela volta a fugir para outro lugar da enorme sala. Ento ela comea
a sentir uma sensao de sufocamento enorme. Muito maior do que a
que experimentara antes. Invoca o Amor e a sua ajuda. Liberta-se. Cria
diversas grandiosas bolas de fogo que joga contra a Grande Besta. Mas
nada lhe acontece novamente. As bolas batem contra as suas escamas e
caiem logo no cho de forma ineficaz. O monstro corre at ela, qual bode
tresloucado, e encurrala-a contra um canto. Levanta uma enorme garra
para decep-la. Subitamente Kami aparece em Esprito pondo-se entre o
monstro e Yania e quando ele desce a garra para cortar a cabea da amiga
 a sua garra que fica cortada ao atravessar o corpo imaterial de Kami,
caindo no cho. O monstro ruge tremendamente. Kami j no est visvel
mas Yania agradece-lhe em pensamento enquanto foge dali aproveitando
a distraco do monstro.
   - Yania, tu tens o poder de vencer esse monstro. O poder do Amor de
uma criana  o maior poder que existe no Mundo. Deseja e conseguirs!
   Era o Esprito de Kami comunicando por telepatia com Yania.
   O monstro persegue outra vez a menina pela imensa sala. Yania pensa
novamente nas palavras de Kami. Concentra-se muito. Pensa no Amor e no
quanto Ele  lindo. Estende os braos e abre as palmas das mos em direco
ao monstro que se aproxima. Acredita que  capaz. Deseja intensamente
que o monstro caia e seja amarrado por uma corrente de energia de Amor
que o imobilize e impea que a sua energia psquica malfica seja lanada
para fora. Deseja, deseja, deseja... e traz... o monstro cai no cho com
um enorme estrondo, que at fez o prprio palcio voador estremecer



                                    91
Marcos Arago Correia

fortemente. Uma corrente de luz branca muito potente amarrava agora a
Grande Besta das patas aos cornos.
    Yania vai at ao p do monstro, e estendendo as mos novamente,
emite um denso raio de luz perfurador contra os olhos dele, tentando
aniquil-lo.
    - Espera!!!!  gritou a Besta aflita.
    - Acabou-se o teu imprio do Mal! Nunca mais fars crueldades a
ningum!  e reforou ainda mais a densidade do raio.
    - Espera! A tua amiga pode voltar  vida!  roncou desesperado.
    Yania baixou as mos.
    - O que ests para a a dizer?  mais uma das tuas mentiras?
    - No!  rugiu.  Existe um antdoto contra o veneno das nossas
serpentes demonacas. Fazemos um acordo. Eu liberto a tua amiga da
morte em troca da minha liberdade.
    Yania hesitou. Como podia confiar na palavra da maior de todas as bestas?
Era afinal o lder de todas as monstruosidades, de todas as maldades, o
lder de todas as mentiras e falsidades do Mundo inteiro. Pensou mais um
pouco. Mas e se fosse verdade? Sim, e se ele de facto tivesse um antdoto
contra o veneno daquelas cobras? Podia ser capaz de fazer o corpo de
Kami regressar  vida. Estava perante um dilema de vida ou de morte.
Por um lado, se fosse verdade, salvaria a vida da amiga, mesmo que isso
significasse que a Grande Besta pudesse continuar viva a reinar. Por outro
lado, se fosse mentira, seria com certeza alguma espcie de cilada na
qual ela prpria poderia morrer inutilmente. Hesitou mais uns segundos...
E pronto, decidiu. Tinha a oportunidade de tentar fazer Kami regressar 
vida corporal, e no podia por isso deixar perder essa oportunidade nica,
mesmo que essa fosse a sua ltima boa aco nesta encarnao. Vida por
vida, Kami!  pensou.
    - Prometes que nos deixas partir em liberdade?
    - Sim, prometo  grunhiu.
    - Est bem, e eu prometo que se o antdoto funcionar e a minha amiga
voltar  vida, liberto-te.
    - Muito bem... Dizem que se pode confiar na vossa palavra!
    -  verdade! E embora saiba que s um grande mentiroso, espero que
pelo menos desta vez cumpras o prometido.
    - Debaixo do brao esquerdo do meu trono, existe esculpida uma
serpente de ouro que est a morder um humano. Pressiona-lhe a cabea



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                                             As meninas que vieram das estrelas

com fora, e deitar o antdoto por entre os dentes, que devers deitar
dentro da boca da mida.
    Sem mais perguntas, Yania foi at ao trono, e com muita precauo,
procurou a dita serpente. Devia ser aquela, mesmo ali por debaixo, a
morder a perna duma pessoa. Estendeu a palma duma das suas mos
por baixo da cobra de ouro, e com a outra pressionou robustamente a sua
cabea. Nada. Seria uma armadilha? Voltou a pressionar com mais fora.
E eis que  jorrado um abundante lquido avermelhado.
    Cuidadosamente levou o lquido dentro das suas mos at ao corpo de
Kami. No tinha nada a perder pois ela j estaria morta. Abriu-lhe com
ternura a boca, e l deitou o lquido.
    - Yania?  perguntou Kami algo confusa enquanto abria os olhos.
    - Kami!!!  e abraa-a com pujana.
    - Agora tens que cumprir aquilo que prometeste! Liberta-me!  disse a
Grande Besta apelando para os valores dos Espritos do Amor.
    Yania ajudou Kami a se levantar.
    - Irei te libertar sim, mas s depois de nos deixares regressar  nossa
nave e partir.
    A Grande Besta urrou fortemente.
    - Maldita sejas para todo o sempre! Era suposto me libertares agora!
    - No sou parva! Vou cumprir a minha promessa, mas s depois de nos
deixares partir.
    A besta volta a bramir. Yania sabia que no podia libertar o grande
monstro ainda, pois seria certo que ele as atacaria de novo. Ento, agindo
muito inteligentemente, conciliou os seus valores morais com a precauo
que o caso concreto exigia. Afinal, se libertasse j a Grande Besta, colocaria
inutilmente em perigo a sua vida e a de Kami, o que seria, isso sim, contra
os seus valores como Esprito do Amor. A besta no deixaria de ser
libertada, mas s depois de ambas estarem em segurana fora daquela
horripilante nave.
    - Enganaste-me!
    - No, a tua impacincia  que prova que tu nos queres enganar, e que
portanto s tenho razo naquilo que estou a fazer.  respondeu Yania.
 Qual  o problema em ns sairmos primeiro, e te libertarmos a partir
do exterior? Ser porque fica tarde demais para nos tentares matar de
novo?
    - Gostas muito de ser espertinha! Guardas!  chamou a besta com um
grito feroz.

                                      93
Marcos Arago Correia

   Entram centenas de monstros que estavam de guarda l fora, e que at
agora no tinham ousado ingressar na sala sem autorizao do seu chefe,
no lhes fosse acontecer o mesmo que aconteceu com o fervoroso lacaio,
capito de ponte, que ficara sem cabea h bem pouco tempo.
   - Abram a porta da pista, e deixem-nas sair com a nave  ordenou com
desagrado.
   Yania deu a mo a Kami.
   - Depressa,  por aqui  indicou o caminho de volta  amiga.
   Entraram rapidamente na sua nave. Os monstros que estavam na pista
roam-se de raiva por verem Espritos do Amor se escaparem debaixo das
suas prprias barbas.
   Yania ordenou  nave do Amor que partisse, e parasse l fora no cu
em frente do palcio voador, mas a uma distncia segura. Kami entretanto
vestia o seu uniforme branco e azul-celeste.
   Concentrando-se na Grande Besta, Yania desejou que a corrente de luz
que aprisionava o monstro desaparecesse.
   A besta levanta-se e d ordem para que toda as naves disponveis da
frota do Mal persigam e destruam a nave de Yania e Kami.
   Estas arrancam a toda a velocidade enquanto centenas de naves
malficas saem do palcio voador da Grande Besta.
   A velocidade da nave do Amor era enormssima, e por isso todas as
naves inimigas j h muito tinham ficado para trs. No entanto, uma nave
nefasta que estava navegando mais  frente, detecta a nave do Amor, e
tendo conhecimento das ordens do chefe, dispara sobre a nave de Yania e
Kami, tendo a atingindo com um raio laser.
   - Kami, fomos atingidas e estamos a perder altitude!
   Ela ainda estava um pouco abalada, mas chegou-se at ao painel de
comandos.
   - No te preocupes Yania, esta  uma das raras ocasies em que
precisamos destes botes  e dizendo isto pressiona um grande boto
vermelho que estava a piscar intermitentemente.
   Imediatamente dez grandes pra-quedas abrem-se no topo da nave, e
um sinal de socorro  emitido para todas as naves do Amor.
   Quase no mesmo instante, esto rodeadas de mais de uma vintena de
naves das suas, as quais abatem de imediato a nave inimiga, desintegrando-a
no ar de modo que ao cair no ferisse ningum.




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                                           As meninas que vieram das estrelas

    A nave de Yania e Kami atinge o solo com suavidade, e as crianas so
prontamente resgatadas por uma outra nave do Amor, enquanto um seu
tripulante pe em funcionamento robs de reparao de avarias.
    Entretanto desce mais uma nave. Eram Ilya e Cejo, o casal de Espritos
do Amor que levaram Yania pela primeira vez para a aldeia!
    Abraaram-se, e contaram a Yania e Kami o que se tinha passado na
nova aldeia. O facto de Yania ter entrado no palcio voador da Grande
Besta, provocou uma enorme desestabilizao no comando do ataque, pois
os monstros que estavam a dirigir a ofensiva foram alertados que uma
nave dos Espritos do Amor tinha sido autorizada pela dita besta a entrar
dentro do seu palcio. Era para eles uma coisa impensvel at ento, e
acharam que a Grande Besta tivesse enlouquecido ao permitir tal coisa.
Julgando que o seu chefe supremo no estava mais em condies de
governar o Inferno, os diversos generais que se encontravam na floresta
da aldeia comearam a constituir faces de monstros para disputarem uns
contra os outros a nova liderana. Ordenaram s serpentes que atacassem
os grupos de monstros rivais, e dos oito generais que chefiavam os oito
grupos em contenda, apenas um sobreviveu. Os monstros dizimaram-se
todos uns aos outros nessa guerra interna, e apenas umas dezenas deles
escaparam com vida. Vendo que j no tinha monstros suficientes para
tomar o controlo do palcio voador, o general comunicou  ponte de
comando deste que as serpentes haviam enlouquecido e mordido todos os
monstros em campo de batalha, e pediu a reforma alegando stress ps-
traumtico.
    Felizmente a maior parte da floresta no ardeu, e os Espritos do Amor
l residentes no precisaram mudar de local. Utilizando os seus poderes
paranormais conseguiram reconstruir quase tudo em poucas horas. A
patrulha regular dos cus da aldeia por naves do Amor foi largamente
reforada.
    Kami e Yania estavam ambas muito contentes por todos na aldeia
estarem bem. Despediram-se de Ilya e Cejo, e desceram num descampado
junto  aldeia. Os seus colares cintilavam de novo com uma cor rosa muito
brilhante, juntando-se aos maravilhosos raios do Sol que nascera h pouco.
Estavam felizes por verem a natureza j recuperada devido s intensas
emanaes de Amor. Tambm as casinhas que haviam sido destrudas j
estavam de novo de p, e por vrias chamins escoava um agradvel fumo
com cheiro a po de lenha. Na vasta campina de relva, os cavalos saltavam
e relinchavam agora satisfeitos. Muitas crianas brincavam j alegremente

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Marcos Arago Correia

nas margens do rio, fazendo jogos que utilizavam a psicocinese e a telepatia.
A beleza restabelecida da aldeia incentivava apenas as boas recordaes
dos pequeninos.
   Descalaram as botas, e com os ps sentindo a fofa e apaziguadora erva
do cho, caminharam calmamente pelo caminho que as levava ao centro
da aldeia. Queriam aproveitar todos os momentos de beleza da vida. No
compreendiam como  que algum podia recusar o Amor, o Bem mais
precioso do Mundo, para se dedicar a espalhar o Mal, ou simplesmente
acumular metais e papeis. Os verdadeiros diamantes, o verdadeiro ouro,
era realmente tudo aquilo que acol as rodeava. As rvores, as plantas,
as flores, o rio correndo, os pssaros cantando, os cavalos galopando, e,
acima de tudo, a maravilhosa afinidade de absolutos sentimentos de Amor
que unia todos os Espritos que ali habitavam. Eram ricas, muito ricas, e
no precisavam nem queriam mais nada.




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                             Captulo 10




    O Sol iluminava com doura o verde resplandecente do bosque da aldeia,
assim como as guas cristalinas do rio que a banhava, as quais pareciam
cantar suavemente a felicidade de todos os habitantes do pequeno povoado
de Amor.
    As 52 crianas da aldeia com idades entre os 4 e os 12 costumam-se
reunir quase diariamente, durante a parte da manh, durante uma a duas
horas, num campo repleto de flores, onde quatro adultos encarregam-se
da sua educao geral. Na sociedade chamar-se-ia a esta reunio uma
escola, mas na aldeia tudo  diferente para melhor, sendo que os seus
habitantes preferem cham-la "reunio das crianas", porque aqui as
crianas so tratadas pelos adultos como Seres Humanos plenos e iguais a
eles, tendo por isso exactamente os mesmos direitos. Ningum  obrigado
a comparecer  reunio, mas todas as crianas sem nenhuma excepo
gostam tanto desses momentos, que s faltam mesmo quando no podem
ir. Sentam-se no cho formando um grande crculo, sendo que os adultos
distribuem-se separadamente pelo mesmo. Incentivam a participao
de cada criana, num ambiente informal e divertido. As crianas mais
novas tm aqui a oportunidade de aprender com as mais velhas, num
amoroso intercmbio de conhecimentos e experincias. A educao mais
individualizada e completa de cada criana  deixada a cargo dos pais, os
quais jamais faltam s suas responsabilidades, pois para alm do mais
encaram-nas como uma maravilhosa oportunidade de ajudar em especial
um Esprito irmo.

                                    97
Marcos Arago Correia

    Yania, Kami, Kimi e Ilky estavam os quatro tambm participando na
reunio das crianas desse dia.
    Eniky, um homem adulto com 378 anos de idade, mas que tinha um
corpo que aparentava ter apenas 35 anos, estava a falar sobre o espao
e o tempo, de modo que todas as meninas e todos os meninos da reunio
compreendessem bem essas noes. Vrios aparelhos de projeco de
imagens no radioactivas com trs dimenses flutuavam por cima do
grupo, de forma a complementarem os ensinamentos com desenhos e
filmes.
    - Meus queridos irmozinhos, onde esto vocs agora?  perguntou
carinhosamente s crianas.
    Todos responderam simultaneamente que estavam no Jardim dos Lrios,
assim chamavam ao local.
    - Muito bem. E quando?  continuou.
    - No dia 6 de Maio de 2007.  responderam, embora os mais pequenos
hesitassem por momentos por ainda no saberem bem as datas.
    - Muito bem! Muitos de vocs devem estar a questionar-se sobre o que
tem isto de to difcil... Para compreenderem melhor vou pedir  Sijy que
conte o que aprendeu sobre o tempo e o espao. Sijy, queres ter a gentileza
de explicares o que sabes?
    Sijy  uma menina que tinha ento 12 anos e j tinha participado em
muitas misses pelo Amor.
    - Obrigada Eniky! Sabem meus irmos,  que at no mais evidente os
monstros mentem, tentando perturbar o livre arbtrio das pessoas atravs
da confuso de ideias to simples como o espao e o tempo...  comeou
a falar algo desgostada  Muitos monstros esto a divulgar por muitas
maneiras diferentes que  possvel viajar no tempo, isto , que uma pessoa
pode, por exemplo usando-se de uma mquina, viajar para o passado ou
para o futuro. Percebem bem o disparate e a gravidade dessas mentiras?
 que se algum que tivesse, suponhamos, 50 anos, e pudesse viajar para
o passado, suponhamos, 40 anos, podia encontrar-se a ele mesmo em
criana. Depois, se ele fosse um assassino poderia matar essa criana que
era ele mesmo em pequeno. Ento percebam bem o disparate de tudo
isto: primeiro, quem era ele afinal  o adulto ou a criana? Se existiam
os dois ao mesmo tempo, como podiam ser a mesma pessoa? Segundo,
como podia ele matar a criana que seria ele prprio 40 anos antes? Se a
criana foi morta, ele nunca ento poderia ter sido adulto nessa mesma
encarnao, e como tal nunca poderia ter morto a criana! Terceiro, como

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podia ele assassinar-se a si prprio? Era assassinato ou suicdio? Os dois
no podia ser porque assassinar  matar outra pessoa!
   Nisto, Kylie uma menina de quatro anos, pergunta baixinho a Jiniu,
um menino de 9 anos que se encontrava ao lado dela, o que era isso de
suicdio.
   -  algum matar-se a si mesmo  respondeu ao ouvido dela.
   - Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii  disse muito admirada  Obigado Jiniu!
   Deiriu, um dos outros adultos encarregues da educao geral das
crianas, acrescenta:
   - Perceberam todos bem o que a Sijy vos explicou? Se fosse possvel
viajar no tempo, isso representaria um caos total na ordem universal. Caos
quer dizer uma confuso destruidora na nossa existncia. Logo, o Amor
nunca poderia concordar com isso. Se viajar no tempo fosse possvel, que
no , pelo menos os Espritos do Amor nunca o fariam.
   - Sim, vejam bem o absurdo dessa mentira: os monstros fazem confundir
propositadamente os conceitos de tempo com o de espao! Ora, quando se
viaja, viaja-se no espao, pois o tempo  apenas um conceito abstracto,
quer dizer, um conceito que se refere a uma coisa que no existe em si
mesma. Sim, porque o tempo no existe.  simplesmente a continuao
do tudo e do nada.  sublinhou Imya, uma das outras adultas.
   Uma coisa que parecia to simples acabou por necessitar de explicaes
mais complexas, de modo a desfazer aquelas mentiras e preparar as
crianas para se poderem defender a si e aos outros desse tipo de ataques
baseados em falsidades.
   Ealy, a outra adulta, finalizou a elucidao sobre estas questes.
   - Vejam s como so maus os monstros: negam a existncia daquilo que
 to evidente como  a existncia dos Espritos, para em vez defenderem
aquilo que  totalmente impossvel como  o caso das viagens no tempo.
Lembrem-se sempre irmozinhos e irmzinhas daquele princpio infalvel
que j vos ensinmos: questionem-se sempre sobre tudo, e perguntem-se
a vs mesmos se aquilo que vos  apresentado est de acordo com o Amor
ou no. Se no estiver de acordo com o Amor, rejeitem de imediato, pois
ou  uma mentira, ou  algo que existe mas que no  Amor, e como tal
 contra ns todos. Peo-vos ento que me digam se sentem ou no que
estes ensinamentos so de Amor.
   Imediatamente, todas as crianas, com uma extrema convico,
exclamaram que sim.



                                    99
Marcos Arago Correia

     Em seguida os adultos propuseram s crianas que fizessem desenhos
sobre o Amor, mais especificamente que cada uma desenhasse o Amor que
sentia pela criana que estava  sua direita. Todas comearam a tarefa com
grande entusiasmo, pois o Amor entre todas era imenso, como de resto
acontecia com todos os habitantes da aldeia. Depois cada criana ofereceu
o seu desenho quela que foi por ela desenhada, e a reunio das crianas
assim terminou nesse dia, todas saindo pelos campos fora saltando, rindo
e brincando.
     - Que lindos coraes cheios de estrelas... Obrigada Yania pelo teu lindo
desenho!  exclamou Kami de emoo, encostando o desenho ao peito.
     - Obrigada!  mesmo o que sinto por ti! Olha o desenho que o Ilky fez
para mim...
     - Uau!  tambm muito giro... olha tanta luz a sair das mos dele para
ti...  mesmo um mido muito sensvel!  dizia Kami enquanto Yania lhe
mostrava o desenho de Ilky.  Sabes, no te tinha dito nada ainda para no
te preocupar, mas ele teve um pesadelo terrvel esta noite...  desabafou
inquieta  A Kimi foi ao nosso quarto chamar-nos, mas tu estavas a dormir
profundamente e no te quisemos acordar. A Dyma e o Noiu estavam j a
tentar perceber se havia ou no razes para nos preocuparmos, ouvindo
todos os detalhes do pesadelo de Ilky.
     - O qu Kami??? E vocs no me acordaram?  perguntou Yania algo
indignada  Eu tambm gostaria de ter tentado ajud-lo!
     - Eu sei Yania, desculpa... Sei que s uma mida fantstica! Mas no
ias adiantar muito mais, por isso deixamos-te dormir. A Kimi contou-nos
que acordou ao ouvir o Ilky a ofegar muito enquanto dormia, coisa que
ele nunca faz. Deitou-se ento na cama dele, acariciando-o, tentando
que ele acordasse suavemente. Ilky deu ento um grande grito, assim:
"Nooooooooo", e acordou sobressaltado, transpirando e dizendo que
tnhamos que ajud-la.
     - Ajudar quem?
     - Ele no nos soube explicar, mas tudo indica que algo de muito mau
pode ter acontecido recentemente com mais um Esprito do Amor... disse-
nos que era uma criana das nossas, uma menina, e que tinha sido...
brutalmente violada e assassinada.
     Yania ficou muito preocupada.
     - Temos que saber quem  essa menina!




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                                             As meninas que vieram das estrelas

   - A Dyma e o Noiu j esto a convocar todos os habitantes da aldeia
para nos reunirmos esta noite, e a tentarmos saber mais informaes e
acertarmos uma estratgia de aco com os nossos Anjos da Guarda.
   - E achas que os nossos Anjos da Guarda vo poder nos ajudar nisso?
   - Acho que sim... pelo menos essa  tambm uma das misses deles...
   Yania e Kami, como todos os outros habitantes da aldeia, tinham
aprendido que os Anjos da Guarda so Espritos do Amor como eles, mas
que escolheram estar temporariamente desencarnados para poderem se
dedicar melhor a certos tipos de misso em que o corpo fsico constituiria
um embarao, como por exemplo proteger as pessoas a partir do plano
espiritual, obter e revelar informaes importantes, aconselhar atravs de
sonhos e vises e assistir espiritualmente as pessoas quando morrem.
   Assim, esperaram impacientemente pela hora marcada para a reunio
geral da aldeia.
   A noite caiu, e outras maravilhosas e deslumbrantes estrelas do cu
substituram o Sol.
   No grande descampado da aldeia, Ilky abraava-se  me com tristeza.
Lembrava-se das terrveis cenas que vira na noite anterior e sentia que
tinham sido mesmo uma comunicao por parte daquela menina brutalmente
violentada.
   Aina estava encarregue de coordenar a reunio. Nos seus 259 anos de
vida na presente encarnao, Aina ocupava-se especialmente da ligao
entre os habitantes da aldeia, encarnados, e os seus irmos desencarnados
que cumpriam misses como Anjos da Guarda por todo o planeta Terra.
Sob a suave luz duma tocha, pediu em orao que fosse realizado contacto
com o Anjo da Guarda que zelava pela menina com que Ilky sonhou, de
modo a que pudessem saber todos os detalhes sobre o que acontecera.
   Depois de alguns minutos, duas tnues figuras luminosas com forma
humana comeam a tomar lugar no centro do descampado, junto a Aina,
e pouco a pouco vo-se materializando, at ao ponto de a maior chegar
mesmo a parecer que era um Esprito encarnado.
   - Irmos e irms, ol a todos! Ilky, reconheces esta menina?  pergunta
enquanto abraa a criana que trazia consigo.
   - Obrigada por teres vindo Lyndi!  diz Aina ao identificar logo o Anjo da
Guarda, um resplandecente Esprito de forma feminina que h j centenas
de anos se dedica a esse trabalho.
   Ilky aproxima-se da criana em Esprito, a mesma menina com cerca
de 4 anos de idade que vira no seu pesadelo. Olha-a bem fundo nos olhos.

                                     101
Marcos Arago Correia

A menina sorri para ele e d-lhe a mo. Embora no sendo uma mo
totalmente materializada, consegue  mesma sentir-lhe um maravilhoso
calor
   - Ilky...  diz com imensa ternura a menina.
   - Ser... ser ela?  pergunta-se a si prprio ainda algo descrente.
   - Sim... sou eu...  responde ao ter lido o pensamento dele.
   Uma lgrima inicia a sua descida pela delicada face de Ilky. E abraa-a
com toda a fora que tinha. A luminosidade que brotava do corpo espiritual
da menina uniu ambos num magnificente abrao cintilante. Era Madeleine!!!
A sua forma de criana havia o feito hesitar por momentos, mas agora que
as dvidas estavam dissipadas, o reencontro de ambos fez vir  mente de
Ilky todos os momentos maravilhosos que partilharam juntos durante mais
de 400 anos quando viviam como companheiros na galxia do Paraso.
Haviam nessa altura fundado uma deslumbrante famlia de Amor, e durante
esses anos tiveram juntos 25 filhos, 13 meninas e 12 meninos. Depois de
todos serem adultos, ofereceram-se ambos para vir  Terra em misso.
   - Madeleine est bem agora. Mas no conseguimos proteg-la naqueles
momentos fatais.  Lyndi, com uma enorme dose de mgoa, comea a explicar
a todos o que sucedera  Existe falta de Anjos da Guarda. Temos cada vez
mais irmos nossos a encarnar em misso na sociedade, e os ataques dos
monstros contra eles tambm aumentaram muito desproporcionalmente.
S eu tenho 321 crianas e 954 adultos sob minha proteco, espalhados
por vrios pontos do planeta. Os monstros tm concertado milhares de
brutais ataques simultneos contra os nossos irmos a viver na sociedade.
O objectivo  exactamente o de conseguirem que no tenhamos meios
para acudir a todos. No momento em que Madeleine foi raptada, outras 159
crianas aos meus cuidados foram tambm atacadas. Desculpem... no ter
conseguido proteg-la...  fechou os olhos evitando que se materializassem
lgrimas.
   - Sabemos bem das vossas dificuldades. Por favor, no te culpes Lyndi! 
consolou Aina.  Ns tambm temos muitas dificuldades em desempenhar
as nossas misses. A Terra  um planeta dominado por monstros, ns
ainda somos uma minoria aqui. Os vossos problemas enquanto Anjos da
Guarda so tambm os nossos problemas enquanto Anjos encarnados.
 verdade que tem havido mais voluntrios da nossa galxia para estas
misses, mas o Universo  enorme e so muitos os planetas que estamos
a tentar devolver ao Amor.  levantou-se e beijou Lyndi.  Irm, alegremo-
nos pelo facto de agora estar tudo bem com a Madeleine.

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                                            As meninas que vieram das estrelas

    A linda Anjo da Guarda passou ento a descrever os detalhes que diziam
respeito ao rapto, espancamento, violao e assassinato de Madeleine.
Vrios aparelhos da aldeia, de captao de imagem e som, sobrevoavam a
reunio de modo a gravarem automaticamente tudo o que l se passava,
para que os habitantes ficassem com todas as informaes registadas
em suporte de filme. Mais l no alto, nos cus da aldeia, diversas naves
do Amor certificavam-se que a aldeia no era atacada, ao mesmo tempo
que garantiam que os monstros no espionavam o que l se passava,
nomeadamente criando um campo de energia que formava uma barreira
eficaz contra os satlites espies daquela corja, os quais poluam a rbita
da Terra sempre  procura de violar a privacidade dos Espritos do Amor.
    Logo que Lyndi terminou a descrio dos terrveis acontecimentos, um
rapaz levantou-se. Os seus curtos cabelos lisos e castanhos, da mesma
cor dos olhos, esvoaavam suavemente pela leve aragem que muito
gentilmente se fazia sentir. Ele olhava para Lyndi. Lyndi olhava para ele.
O olhar falava mais do que mil palavras. Um corpo fsico que aparentava
cerca de 31 anos de idade, mas uma encarnao j com 198 anos, com
muita dor e experincia de quem passara a maior parte da sua presente
vida na sociedade. Estudara os monstros por dentro, durante longos e
longos anos, e conhecia bem as atrocidades de que eram capazes. Era um
autntico especialista no conhecimento da psicologia do Mal.
    - Vou sair da aldeia para ajudar a Madeleine.  decide convictamente.
    - Calma, Ijyu. No podes ir assim de qualquer maneira, e algum vai
precisar de te ajudar.  responde Aina com preocupao.
    - Tenho a Lyndi! Ela vai-me ajudar!
    Ao responder isto, muitos habitantes da aldeia disponibilizaram-se para
irem com Ijyu, pois explicaram que podiam passar as suas tarefas para
outros enquanto estivessem ausentes.
    Mas a maioria olhou discretamente para Kami e Yania.
    Kami e Yania sentiram ento que os seus irmos ambicionavam a ajuda
delas. Elas tambm queriam se oferecer para ir com Ijyu, mas acharam
que os habitantes da aldeia no iriam concordar, pois eram ainda crianas e
esta era uma misso muito perigosa, e como tal, no haviam dito nada.
    Yania levanta-se num impulso e puxando o brao de Kami com ela,
dirige-se a todos os habitantes:
    - Sabemos que ainda somos crianas, mas sabemos tambm que apesar
disso temos muita experincia na luta contra os monstros! No  Kami? 
perguntou  amiga, tendo esta assentido logo com a cabea com grande

                                    103
Marcos Arago Correia

alegria.  Ns as duas enfrentmos sozinhas a Grande Besta, por isso esta
misso ser uma brincadeira para ns.
   Ningum disse palavra. Parecia que todos queriam ouvir aquilo, mas
ningum tinha coragem para pedi-lo.
   Ijyu coloca-se de ccoras frente s duas meninas.
   - Nunca seria capaz de vos pedir isso, embora tenha que admitir que a
vossa experincia, nica entre ns, seria preciosa. Mas por favor fiquem,
porque as coisas podem complicar-se.
   Yania e Kami olham para os pais, como que pedindo permisso. Dyma
e Noiu compreensivamente assentem com a cabea, concordando com a
coragem delas.
   - Est decidido! Eu e a Yania vamos com o Ijyu!  responde de imediato
Kami, dando a mo a Ijyu e a Yania, e esta por sua vez fechou o crculo
dando tambm a mo Ijyu.
   Os trs olharam uns para os outros.
   - No tenho palavras para vos agradecer  diz comovido Ijyu.
   - Somos Espritos do Amor, no somos? Ento no tens que nos
agradecer!  responde Kami.
   - Vamos ajudar a Madeleine!  isso que interessa!  exclama Yania.
   Os habitantes da aldeia discutiram ento os meios que seriam necessrios
disponibilizar para ajudar os trs naquela misso. Ijyu sabia j conduzir
automveis, bastava-lhe por isso os documentos de identificao. Era
tambm necessrio que ele pudesse passar como sendo algum considerado
com alguma importncia pelos monstros. Isto porque os monstros do
mais importncia ao que as pessoas tm do que ao que as pessoas
so. A hierarquia infernal que criaram valoriza a maldade em todos os
aspectos. Na sociedade, uma pessoa sem papis, documentos, dinheiro,
no  considerada uma pessoa. L a bondade  desprezada e os maus
elogiados. Ento lembraram-se que Ijyu podia passar como advogado. Os
monstros davam um certo estatuto social aos advogados, e para alm
disso era uma profisso que podia ser relacionada com o que ele iria fazer.
Quanto a Yania e Kami, seriam suas filhas. Iriam viajar para Portugal, um
pas em que nenhum dos trs era conhecido, mas que os trs sabiam falar
a sua lngua oficial.
   Pediram aos Espritos do Amor que tm uma base na face oculta da Lua
para fabricarem os documentos necessrios, registarem esses documentos
nas bases informticas dos monstros em Portugal, e imprimirem vinte mil



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                                            As meninas que vieram das estrelas

euros, tudo atravs das sofisticadssimas tecnologias que os seus irmos
manuseavam.
    Alm disto, Denya, a nica habitante da aldeia que j tinha vivido em
Portugal, dedicou-se durante vrios dias a ensinar aos trs irmos tudo
o que era importante eles saberem sobre esse pas. Tambm os ensinou
a falarem Portugus sem sotaque, de modo a no levantarem quaisquer
suspeitas.
    Uma das coisas que Denya explicou foi que Portugal tambm foi um pas
a maior parte das vezes governado por monstros. Que na sua Histria mais
recente tinha havido uma revoluo, chamada a Revoluo dos Cravos,
para a qual e na qual muitas pessoas boas colaboraram, mas que depressa
os monstros, fazendo-se valer da sua ilimitada hipocrisia sem escrpulos,
voltaram a tomar conta do poder.
    Passadas duas semanas, uma nave do Amor veio buscar Ijyu, Kami e
Yania, para os levar at ao Algarve, a regio de Portugal onde a Madeleine
foi raptada. Cada um deles levava uma pequena mala com roupa e outras
coisas necessrias  sua misso, e haviam os trs deixado os seus colares
mgicos na aldeia pois iriam estar quase sempre rodeados por monstros,
e como tal os colares de Rosa-da-Vida no lhes seriam muito teis.
    Seria por volta das 10 horas locais quando a magnfica nave reluzente
pousou na Serra do Espinhao de Co, longe dos olhares indiscretos.
    Kami, Yania e Ijyu tinham agora que andar a p cerca de 20 minutos,
por um caminho de terra, at chegarem  localidade mais prxima, a de
Pedralva.
    A chegados, procuraram um txi para os levar at  cidade de Lagos,
onde alugariam um carro e um apartamento.
    A quase meia hora de viagem por txi era j uma pequena amostra daquilo
a que teriam que se sujeitar. Aps conseguirem contornar a impertinente
curiosidade do taxista sobre os trs, para ele, figuras inslitas, e apesar
de a Madeleine ter desaparecido h menos de trs semanas dali perto, a
conversa quase toda girou  volta do jogo de futebol entre o Benfica e
o Sporting, das melhores tascas da zona, e dos chineses e indianos que,
segundo o taxista, deviam ser expulsos pois andavam a tirar o negcio aos
comerciantes portugueses.
    De futebol e tascas nenhum dos trs sabia nem estava interessado
em falar, mas dos chineses e indianos Ijyu l foi tentando explicar que as
pessoas no so melhores nem piores por terem nascido num ou noutro



                                    105
Marcos Arago Correia

lugar da Terra. Que o planeta era um s, e que os pases no eram mais
do que divises artificiais da mesma casa comum.
     certo que para o taxista essa ideia era difcil de aceitar, pois o mesmo
argumentava que quando passava a fronteira para Espanha, os polcias
l tinham uma farda diferente e a gasolina era mais barata. Mas l foi
confessando que a esposa gostava de ir comprar coisas a uma loja de
indianos, que era mais em conta. E que a prima vivia na Austrlia, e que
l tambm gostavam de futebol.
    Yania, Kami e Ijyu chegaram finalmente a Lagos. Despediram-se do
taxista e lembraram-lhe que desde h muito que existiam cangurus em
Portugal, e que apesar de serem da Austrlia ningum se queixava, muito
pelo contrrio, at pagavam s para os irem ver. E que portanto, sendo os
chineses e os indianos Seres Humanos, deviam ter mais direitos do que
os cangurus que eram apenas animais. Ijyu deu uma gorda gorjeta ao
homem, mas na condio que ele desse  esposa para ela comprar mais
coisas na loja dos indianos.
    Pelas 12 horas e 30 minutos, Ijyu tinha j alugado um automvel, e os
trs estavam agora a chegar a um pequeno apartamento, com vista para
a linda Praia da Luz.
    Era afinal da, dessa pacata localidade, que Madeleine tinha sido
raptada.
    A misso havia comeado.




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                             Captulo 11




   A noite tinha cado. As ondas do mar balouavam-se carinhosamente
sobre o areal da Praia da Luz.
   Aps terem ido visitar o lago onde estava o corpo de Madeleine, e de
se terem inteirado da investigao policial em volta do caso, Ijyu, Yania e
Kami preparavam-se agora para dormir, continuando a reflectir sobre como
poderiam resgatar o corpo da irm.
   Yania e Kami foram levadas pelo cansao, e acabaram por adormecer
pouco depois. Dormiam ambas no quarto mesmo ao lado do de Ijyu,
que continuava acordado, pensando, e pensando. No podiam tirar eles
mesmos o corpo de debaixo de gua pois se assim o fizessem, usando por
exemplo os seus poderes paranormais, iriam alterar a cena do crime e logo
prejudicar a investigao duma polcia materialista. Mas ser que a polcia
estaria mesmo interessada em descobrir a verdade sobre Madeleine? No
existiam certezas, e por isso talvez fosse melhor primeiro tentar dirigir a
ateno da polcia para aquele lago de modo a pressiona-los a fazerem
buscas.
   Enquanto a sua mente preocupava-se com todas estas questes, uma
luz tnue comea a aparecer no seu quarto. Delicadamente vai aumentando
e tomando uma forma humana. Ijyu no se assustou, pois desde o incio
sentira que era uma boa presena, dadas as intensas vibraes amorosas
que acompanhavam a luz.
   - Meu querido...  disse enquanto a sua gentil forma etrea se debruava
sobre Ijyu  obrigada por teres vindo.

                                    107
Marcos Arago Correia

    - Lyndi...
    Um dilogo suave e repleto de Amor iniciava-se.
    - No te aflijas tanto, pois tudo  mais simples do que parece. A
Verdade e a Justia vencero no final. O teu papel e o das meninas em prol
da Madeleine contribuir decisivamente para que o Amor seja cumprido
tambm neste caso. Em todas as situaes segue a tua intuio. Eu irei te
aconselhar quando mais precisares.
    - Lyndi, amo-te tanto...
    - O nosso Amor  eterno, sabes disso. Mas entristece-me saber que
ainda no constituste famlia na aldeia, apenas por deciso tua.
    - Mas eu sinto tanto a tua falta... no me sinto capaz de formar uma
nova famlia sem ti.
    - Ijyu, tu sabes tambm que o Amor que nos une se estende com a
mesma fora sobre todos os outros Espritos do Amor. O Amor que nos
une, a todos,  absoluto. Ao amares os outros Espritos do Amor j me
ests a amar a mim, porque eles tambm me amam, porque eles te amam
e porque eu os amo. No  necessrio estarmos juntos fisicamente. Tu
sabes isto...
    - Eu sei disso Lyndi, mas a dor da nossa separao fsica continua-me
a corroer o corao.
    - Ijyu... no digas isso! Existem vrias raparigas na aldeia que ainda no
tm companheiro. No deves prender todo o Amor que podes dar. S me
amargurava muito se te envolvesses com algum sem Amor, porque a sim
irias sofrer. Mas no  o caso da aldeia, pois l todos so Amor.
    - E se eu esperar por ti... sabes, que tu um dia voltes e venhas viver
entre ns... no me importa esperar o tempo que for preciso...
    - Se eu um dia voltar, gostaria de voltar como tua filha, porque a
minha misso enquanto Anjo da Guarda no ter fim to brevemente.
Cada vez mais os Anjos da Guarda so necessrios, porque h cada vez
mais Espritos do Amor nascendo na Terra, fora da aldeia. Sabes que
estes nossos irmos e irms que nascem fora dos vossos beros precisam
duma proteco especial. Eles no tm o amparo que encontram entre
vs. Esto especialmente vulnerveis, e somos ns, os Anjos da Guarda,
que os protegemos. Tambm tu precisaste da minha proteco enquanto
no vivias na aldeia. Ento, confiana no nosso destino, confiana, que 
sempre um destino de Amor.
    - Eu sei que, graas a todos ns que somos Amor, os monstros iro
perder o controlo da Terra j no falta muito tempo!

                                     108
                                           As meninas que vieram das estrelas

   - Estamos a fazer tudo para que assim seja! Por isso esto a nascer
muitos mais Espritos do Amor neste planeta, os quais vm nos ajudar a
cumprir esse objectivo. E por isso tambm os monstros esto desesperados,
tentando fazer sofrer e eliminar o maior nmero possvel dos nossos irmos
e irms. E ainda no h Anjos da Guarda em nmero suficiente para
os proteger a todos ao mesmo tempo. E  tambm por isso que tantas
crianas nossas esto a morrer nas mos deles. No posso to cedo deixar
esta minha misso...
   - Minha belssima Anjo da Guarda! Tens toda a razo! Mas naquela vida
em que nos conhecemos... no sei... hoje pergunto-me se fiz bem em te
deixar partir assim, em no te abraar e pedir por tudo que ficasses ao
meu lado...
   - Eras um rei to bom... Mas a minha misso no era ser rainha. Eu
queria fazer mais pelos outros, e no ia adiantar nada ao reino ocupando
um trono ao teu lado porque tu j dirigias bem os destinos daquele
pequeno pas baseado nos lindos ensinamentos de Zarathushtra... bons
pensamentos, boas palavras e boas aces. E como podia eu continuar a
fazer parte da tua guarda pessoal sabendo que me amavas tanto e que
me desejavas daquela maneira? Eu tambm te amava muito, mas queria
fazer mais, e mais, e mais... eu queria servir o nosso Deus sem limites,
pela Terra fora, onde eu fosse mais necessria.
   - Lyndi... eu compreendi isso, e por isso te dei todo o apoio possvel.
   - Nunca o esquecerei! Foi graas a ti que to rapidamente me consegui
aperfeioar tanto. E fico to contente por teres aceite esta misso, pois
continuamos, passados tantos sculos, a trabalhar juntos.
   Lyndi materializa-se mais a ponto de quase parecer que tinha um
corpo fsico, embora a extrema luminosidade delicada que emanava no
permitisse confuso.
   Toca nas mos de Ijyu com carinho. Este consegue senti-las e aperta-as
com doura. Lyndi curva-se sobre Ijyu e d-lhe um reluzente e afectuoso
beijo na boca.
   Uma lgrima verte do olho do rapaz, percorrendo delicadamente o seu
rosto, enquanto reflectia toda a luz interior e exterior do momento, qual
pequeno arco-ris nascido do corao.
   Lyndi retira-se com suavidade, atravessando a parede que separava os
quartos de Ijyu e das meninas.
   Sem as acordar, Lyndi beija-lhes tambm os rostos. E desvanece-se.



                                   109
Marcos Arago Correia

   Logo de manh, Yania e Kami comentam com Ijyu que sonharam com
Lyndi.
   - No foi um sonho.  respondeu  Ela esteve aqui.
   - E ento Lyndi aconselhou-te sobre a Madeleine?  pergunta Kami.
   - Sim, o que te disse ela?  refora Yania tambm saltando de
curiosidade.
   - Que confiasse na nossa intuio, porque ela iria nos guiar sempre que
necessrio.
   - E o que te diz a tua intuio Ijyu?  indaga Yania.
   - Que  praticamente certo que a polcia nos ir ignorar, mas por alguma
razo  por a que devemos comear. Vamos  Polcia Judiciria.
   Chegados a Portimo, ao Departamento da Polcia Judiciria, Ijyu
identificou-se como advogado e pediu para falar com algum inspector do
processo sobre a Madeleine.
   A funcionria da recepo tricotava, como que tentando esquecer os
anos que ainda lhe faltavam para a reforma.
   Dirige-os para um gabinete no 1 andar.
   - Procuro o senhor inspector Joo.
   - Sou eu.
   - Bom dia! O meu nome  Eduardo, sou advogado, e estas so as minhas
duas filhas Ana e Andreia.
   - Em que lhe posso ser til?
   Ijyu, Kami e Yania sentam-se nas velhas cadeiras do gabinete.
   - Tenho informaes fidedignas de que Madeleine foi raptada, espancada,
violada e assassinada, e o seu corpo atirado para a Barragem do Arade,
onde se encontra submerso.
   - Em que  que se baseia?
   Ijyu abre um mapa do Algarve, e coloca um recorte dum jornal sobre
a mesa.
   - Em vrias coisas: primeiro, esta  a segunda barragem mais prxima
da Praia da Luz, a uns escassos 25 minutos de carro; a mais prxima, a
da Bravura, foi j procurada pelos Bombeiros de Lagos e no encontraram
nada; alis, um criminoso calculista sabia que a Barragem da Bravura era
a mais provvel para a polcia fazer buscas, exactamente por ser a mais
prxima, e por isso a menos indicada para o fim que pretendia. Segundo,
a Barragem do Arade  a nica barragem do Algarve completamente
deserta, sem movimento de pessoas, nem casas  volta, com uma grande
extenso e profundidade, e de guas muito turvas, fazendo-a por isso num

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                                            As meninas que vieram das estrelas

local ideal para algum se ver livre dum cadver. Terceiro: um camionista
portugus garante ter visto, no dia 5 de Maio, dois carros parados um atrs
do outro, em que a mulher que ia no carro de trs sai e d uma criana
toda embrulhada em cobertores ao homem que conduzia o outro carro. O
camionista assegura que o vulto embrulhado tinha claramente a forma de
uma criana pequena, e que estando toda tapada, no poderia respirar.
Alm do mais era um dia de muito calor. Acontece que isto passou-se em
Silves, muito prximo da Barragem do Arade.  Ijyu mostra o recorte
de jornal, o qual fala sobre o camionista e informa ainda que a polcia
ignorou as suas pistas. E quarto: tenho tambm informaes obtidas
mediunicamente que confirmam este local.
    Ao ouvir a ltima frase o inspector Joo fica claramente nervoso.
    - Senhor doutor, a nica razo pela qual eu o recebi foi pela sua
qualidade de advogado. Devo dizer-lhe que a polcia tem neste momento
as suas prprias pistas e que estas no apontam para o local que acabou
de mencionar. Para alm disso, no acreditamos em fontes espirituais,
e dessas temos milhares apontando diferentes concluses. Mais alguma
coisa?
    - No lhe estou a pedir para acreditar na espiritualidade. Alis, esse
foi apenas o quarto argumento que lhe apresentei. Todos sabemos que
pessoas que se dizem mdiuns existem aos milhares ou mesmo milhes.
Mas quantas so genunas? E das genunas, quantas recebem informaes
correctas? Poucas, muito poucas. Por isso peo-lhe que concilie o meu
quarto argumento com os outros trs primeiros, e que s depois de excluir
estes, ento exclua o ltimo. Assim obter confirmaes materiais para a
alegao espiritual.
    O inspector levanta-se irritado.
    - Muito obrigado, senhor doutor. Tenha um bom dia.
    Ijyu levanta-se com as meninas. Ao sarem, Yania lana um olhar de
reprovao ao inspector e diz-lhe de forma audvel:
    - Mercenrios...
    - Anda!  sussurra Kami a Yania, puxando-lhe o brao.
    O inspector ao ouvir aquilo vai atrs de Yania e agarra-lhe no outro
brao com fora.
    - Com quem ests a falar pestinha?
    - Consigo, porqu?
    - Achas que isso so modos de falar com um agente da autoridade? 
perguntou ainda mais irritado.

                                    111
Marcos Arago Correia

   - E voc, acha que isso so modos de falar com quem vos veio ajudar
a descobrir uma criana desaparecida?
   Vendo que o inspector no largava o brao de Yania, Ijyu provoca-lhe
um forte choque elctrico na mo gerado atravs de energia psquica.
   Imediatamente o inspector larga Yania, ficando boquiaberto com o que
lhe tinha acontecido.
   J l fora, os trs constatam que no havia nada a esperar da polcia.
   Voltam  Praia da Luz, onde, j ao final do dia, decidem dar uma longa
caminhada descalos pelo areal.
   - E agora Ijyu, o que podemos fazer?  pergunta Yania preocupada.
   - Lembram-se do que a Lyndi me disse? Tenho que me concentrar de
novo na minha intuio  responde enquanto fitava o mar, fechando os
olhos logo de seguida.
   Kami fechou tambm os olhos, tentando sentir o que Lyndi iria
aconselhar.
   Contudo Yania repara que, no muito longe dali, um grupo de crianas
pareciam estar a agredir uma outra que se encontrava a meio. Sem dizer
nada, vai em direco ao grupo.
   V ento que nove crianas, meninos com idades entre os 8 e os 10,
estavam a rodear e a agredir um outro menino da mesma idade.
   - Porqu esto a fazer isso?  pergunta Yania indignada.
   - A fazer o qu? Estamos s a ensinar-lhe como dar socos!  responde
um dos agressores.
   - Sim, queres tambm aprender?  pergunta outro, dando de imediato
um soco no brao esquerdo de Yania   assim, viste? Os punhos bem
cerrados, com os ossos dos dedos  frente. Assim magoa mais!
   Yania foi apanhada de surpresa.
   - Seus monstrinhos! Ento vocs querem ensinar os outros a dar socos?
Ento porque no demonstram em vs mesmos?
   - No tem tanta piada!  responde o que agrediu Yania, imediatamente
seguido pelo riso de gozo dos outros.
   Yania coloca-se ao lado do menino que estava a ser agredido.
   -  isso que vocs querem ser quando forem crescidos? Monstros? Fazer
o mal aos inocentes?
   - Porque no?  divertido, no ?  responde com um sorriso de desafio
um outro, enquanto o grupo desata de novo a dar gargalhadas...
   - Vo se embora!  grita Yania para eles.



                                   112
                                          As meninas que vieram das estrelas

   Novamente sem esperar, os nove comeam a dar pontaps em Yania e
no menino que ela protegia.
   Entretanto Ijyu e Kami eram persistentemente intudos com o nome
de Yania, abrem os olhos procurando-a, e vendo-a em apuros correm em
sua direco.
   Kami puxa vrios rapazes pela roupa para os afastar, e Ijyu puxa-os
para o lado e abraa Yania e o menino que estava a ser agredido.
   Desejando intensamente, Kami ordena que todas as gaivotas na praia
comecem a dar bicadas nos agressores.
   Mais de trinta gaivotas tombam sobre o grupo de pequenos malfeitores,
dando-lhes fortes bicadas. Surpreendidos, recuam enquanto tentam a todo
o custo protegerem-se das gaivotas, embora sem sucesso.
   Vendo que a lio era suficiente, Ijyu ordena mentalmente s aves que
se vo embora.
   O grupo de midos, alguns cados por terra e outros em p, mas todos
assustados, no compreende ainda o que se passou.
   Ijyu fala-lhes com desespero:
   - Que isto vos sirva de ensinamento! Vocs so livres de seguir o
caminho do Mal. Mas lembrem-se sempre que se fizerem sofrer algum
que  Amor, fazem sofrer a todos os que so Amor, e todos os que so
Amor protegero aquele a quem fizeram mal. Esta  uma das grandes
diferenas entre ns e vocs. O Mal no passar! Agora desapaream da
nossa frente!!!
   Ao ouvirem isto, os nove fugiram pela praia fora o mais que puderam,
efectivamente desaparecendo por detrs das casas ao cimo do areal.
   O menino que foi protegido agradece do fundo do corao a ajuda.
Yania, Kami e Ijyu do-lhe um terno beijinho na face, e continuam o
percurso pela praia.
   Embora no muito extensa, a Praia da Luz era maravilhosa! Nenhum
dos trs estava habituado s praias, pois na aldeia no havia mar, e o
rio tambm tinha pouca areia. Todos adoravam a areia e o mar e as
brincadeiras que proporcionavam. Os habitantes da aldeia organizavam
de vez em quando uma ida  praia especialmente para as crianas, em
conjugao com os irmos que tripulavam as suas naves. Era tipo uma
excurso. As crianas embarcavam numa grande nave que as levava at
uma praia de uma ilha deserta, onde passavam o dia. O problema era que
no o podiam fazer muitas vezes pois era muito arriscado, dado que os
monstros esperavam por qualquer vulnerabilidade para os atacarem.

                                  113
Marcos Arago Correia

   A noite caa apressadamente. Uma fria aragem levantava-se agora das
ondas do mar, percorrendo a praia, como que fazendo lembrar que o calor
humano era insubstituvel.
   Sentaram-se os trs na areia, e Ijyu abraou as meninas com uma
enorme ternura.
   Estas pousaram a cabea sobre o seu peito.
   -E agora Lyndi? E agora o que devemos fazer? Por favor, diz-me! 
pensava tentando comunicar com o belo Esprito desencarnado.
   Yania e Kami ouviram os pensamentos de Ijyu, e juntaram-se a ele nos
pedidos de aconselhamento.
   Olham os trs para as estrelas. Um cu lindo sem uma nica nuvem
parecia convidar  meditao.
   Lembraram-se dos milhes de planetas habitados por esse Universo
fora e da galxia maravilhosa  qual pertenciam.
   Nisto, uma estrela cadente percorre os cus, mesmo  frente dos trs,
como que querendo dizer que no desanimassem.
   As meninas abraam Ijyu ainda com mais fora.
   As intensas vibraes de Amor que emitiam uns pelos outros, aqueciam-
lhes os luminosos coraes.
   E mais vibraes surgem. Parece que mais um irmo se junta aos
trs.
   Uma luz esplendorosa rodeia-os. Ouvem uma voz com uma doura
inconcebvel. Era Lyndi.
   - Brevemente recebero uma visita importante! Aguardem! Amo-vos!
   A deslumbrante luz concentra-se num s ponto e sobe em direco aos
cus com uma velocidade espantosa, qual estrela que regressava  sua
origem.
   A alegria brotou novamente com vigor.
   Lyndi no se esquecera deles.
   Com os pequenos, mas grandes, coraes cheios de confiana, Yania e
Kami adormecem no ventre de Ijyu.
   A esperana voltara s suas almas.




                                  114
                             Captulo 12




   Vrios dias se passaram. Os pssaros da Praia da Luz acabavam de
assinalar o nascer do Sol.
   Kami e Yania ainda dormiam profundamente nas ondas suaves de belos
sonhos que as tranquilizavam das angstias que enfrentavam. Ijyu, esse,
j preparava o pequeno-almoo para os trs, tentando elaborar, uma vez
mais, uma refeio o mais parecida com as da aldeia. Os enlatados do
supermercado eram uma tortura  sade e ao paladar de quem, j h
muito, se habituara a deleitar com os generosos e frescos sabores naturais
oferecidos pelas lmpidas terras onde viviam. No existiam muitos produtos
biolgicos nos supermercados das redondezas. As mas e bananas sabiam
a pesticidas, os meles e melancias a adubos qumicos, as couves, alfaces
e tomates a veneno para ratos. Ijyu sentia-se culpado por parecer que
estava a envenenar as meninas. J h vrias semanas que estavam a
padecer a regra da maximizao do lucro dos egostas. Sabia que era
impossvel formar uma sociedade igualitria enquanto existissem tantas
desigualdades dentro dos coraes das pessoas. Num impulso de revolta,
deita tudo ao lixo e decide preparar apenas umas fatias de po integral
com leite seleccionado para Yania e Kami comerem. Pelo menos assim no
teria problemas de conscincia.
   Mal a tampa do caixote do lixo batera, ressoa pela casa o insistente som
da campainha da porta.
   - Inspector Joo?!
   - Preciso falar convosco.  sobre a Madeleine.

                                    115
Marcos Arago Correia

    - Entre!
    As meninas levantam-se ainda ensonadas e ao verem a visita que
chegara, mesmo de pijama e descalas juntam-se de imediato a Ijyu.
    - Bom dia Ana e Andreia, ou seja l qual for o vosso verdadeiro nome...
 diz o inspector j sentado, enquanto pousava uma capa cheia de papis
sobre a mesa.
    As duas retribuem o bom dia, mas estavam surpresas pelas dvidas
do inspector. Contudo percebiam que o olhar dele estava diferente para
melhor. Mais luminoso.
    - No se preocupem... eu vim vos ajudar. Sei que vocs so especiais,
que querem um mundo melhor. Sabem... estou farto de ser um monstro...
 desabafou baixando a cabea envergonhado.  Desde aquele dia em que
vos vi que percebi porque  que sou to infeliz. Os vossos olhos brilhavam
duma maneira que nunca tinha visto. A vossa felicidade causou-me inveja.
Sim... vocs eram felizes. E estavam felizes em poderem ajudar uma menina
que foi violentada. Eu no percebia isso antes.  a isso que chamam Amor,
no ?
    Yania, Kami e Ijyu estavam cautelosos. Sabiam que os monstros mentem
e so hipcritas. Que eles frequentemente fingem serem pessoas boas,
mas apenas para ganharem a confiana das verdadeiras boas pessoas. E
que s depois de obterem aquilo que pretendem  que revelam as suas
reais intenes.
    O inspector percebeu a razo da prudncia dos trs.
    Levantou-se e aproximou-se de Yania.
    - Mida, quero pedir-te desculpa por te ter agarrado no brao com fora,
e por te ter chamado pestinha. Sei que no merecias, e que tinhas razo
em me apelidar de mercenrio.  e fez-lhe uma festa na cabea.
    Yania concentrou-se nos sentimentos do inspector, tentando verificar se
correspondiam realmente s palavras que dizia. Fez-se alguns segundos
de silncio.
    - Posso dar-te um abrao?  perguntou hesitante o inspector.
    Yania olhava profundamente nos olhos dele. Tentava ver bem dentro do
seu Esprito. Concentrava-se. O silncio continuou mais alguns segundos.
    - Ele est a brilhar por dentro!  constatou Yania sempre
silenciosamente.
    Ento compreendeu que ele tinha mudado. Que estava verdadeiramente
arrependido de ser um monstro. Uma lgrima aparece no canto de um dos
olhos de Yania. Levanta-se e d um forte abrao ao inspector.

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                                             As meninas que vieram das estrelas

   - Desculpe eu lhe ter chamado mercenrio!  disse comovida.
   Os dois abraavam-se de forma enternecedora.
   Kami e Ijyu tambm sentiram o mesmo que Yania. O inspector no
queria continuar a ser um monstro, e estava profundamente arrependido
de todo o mal que fizera.
   Voltou ao lugar e tirou vrios papis de dentro da pasta que trouxe.
   - Consegui tirar isto do gabinete do coordenador da polcia. Vejam! 
mostrou um grande mapa.  Aqui na Praia da Luz existem dezenas de
tneis subterrneos. Quando eu estava a investigar o caso juntamente com
um colega, falmos com um arquitecto que nos revelou esta informao,
a qual desconhecamos por completo. E foi o mesmo arquitecto que nos
deu este mapa, o qual juntmos ao processo.
   Ijyu, Kami e Yania observavam o mapa.
   - At aqui nada de especial.  continuou  Existem muitas localidades
com tneis subterrneos. O estranho foi quando sugeri ao nosso chefe que
investigssemos estes tneis, pois poderiam ter sido utilizados no rapto
da Madeleine. A resposta dele foi um imediato no! Justificou-se dizendo
apenas que no havia tempo a perder com isso. E proibiu-nos de entrar
nos tneis. Mais tarde, quando fui folhear o processo, constatei que o mapa
tinha desaparecido. Todas as folhas dum processo so numeradas. E os
nmeros correspondentes s folhas do mapa passaram a dizer respeito
a outro documento que no existia antes, documento sem qualquer
importncia. Questionei o chefe sobre o desaparecimento do mapa, e ele
respondeu-me que esse mapa nunca existiu, e que eu voltasse ao trabalho
se no quisesse ter problemas.
   - E foi o que fez, no foi?  indagou Ijyu descortinando j a resposta.
   - A polcia  constituda por uma hierarquia muito rigorosa. O departamento
de Portimo  pequeno. S temos um chefe, e este  da confiana absoluta
do coordenador do departamento, e o coordenador  o superior hierrquico
de todos. Houve colegas que j tinham tido problemas por questionarem
o chefe junto do coordenador, inclusivamente terem sido injustamente
condenados em processos disciplinares caluniosos.
   - Parece que esse chefe  um bom lacaio desse coordenador!!!  riu
Yania.
   - Tens toda a razo mida! Mas mesmo assim eu fui falar com o
coordenador...
   - E ento?  questiona Kami  Foi metido na ordem, j estou a ver!



                                     117
Marcos Arago Correia

   - Mais do que isso! O tipo ameaou-me de morte. Sabe que eu no
tenho famlia prxima, e portanto no pde fazer chantagem com isso.
Simplesmente colocou a arma dele sobre a mesa, e perguntou-me se eu
sabia que s vezes aconteciam acidentes, se eu sabia que s vezes as
armas disparavam sozinhas...
   - Mas que grande monstro!  comentou Yania indignada.
   - Mas no  tudo. No incio a tese que a polcia defendia era a do rapto.
Tnhamos instrues claras para quando falssemos com os jornalistas,
seja oficialmente, seja por fugas de informao que estrategicamente
seleccionvamos...  Kami interrompe o inspector.
   - Fugas de informao estrategicamente seleccionadas? O que quer
dizer com isso?
   - Bem, a polcia sabe que os rgos de comunicao social so importantes
para obter o apoio do pblico em geral em relao aos nossos objectivos.
Assim, interessa-nos que as pessoas achem que algum  culpado ou que
algum  inocente. Ento clandestinamente contactamos com um jornalista
e passamos uma informao que reforce essa ideia, mesmo que seja falsa,
o que interessa  manipularmos a opinio pblica de acordo com os nossos
interesses. Muitas vezes torturamos pessoas para atingir mais facilmente
os nossos malvolos objectivos, obrigando-as a assinar confisses falsas
depois de terem levado uma grande dose de porrada, tal como fizemos
com a me da Joana Cipriano. Os tipos da comunicao social publicam
tudo o que ns lhes dizemos, porque acham que como vem da polcia s
pode ser verdade!
   Ijyu baixou a cabea. Lembrava-se muito bem da Joana, uma linda
menina Esprito do Amor que tambm foi brutalmente violentada anos
antes.
   - Mais um caso igual...  era grande a revolta de Ijyu.
   - Pois, e muito curioso que em ambos os casos foi devido s vossas
intervenes que a polcia foi obrigada, de forma a proteger os monstros
envolvidos, a transformar a tese do rapto para a tese do homicdio e ocultao
de cadver por parte dos pais.  o inspector mostra um documento.  Logo
a seguir ao vosso contacto eu fiz um relatrio descrevendo as vossas
pistas ao coordenador, at falei do estranho choque que tinha levado na
mo quando agarrava aquela menina  aponta para Yania  j agora posso
saber o teu nome?
   - Claro!!! Yania! E esta  a Kami, e este  o Ijyu!  respondeu com
confiana.

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                                              As meninas que vieram das estrelas

    - Nomes muito bonitos!
    O inspector puxa outro documento da pasta.
    - E agora vejam isto... uma ordem interna do prprio coordenador,
assinada logo no dia seguinte ao do meu relatrio, para toda a equipa
passar a dar prevalncia  tese da morte da Madeleine pelos pais e
abandonar as buscas pela menina.
    - Mas porqu?  indaga Yania, mais uma vez indignada.
    - Nesta ordem, a explicao dada  que o balano dos indcios j
recolhidos aponta para o envolvimento dos pais. Mas isso  falso! Eu
estive no terreno e conheo os principais indcios que os outros colegas
recolheram. E tudo aponta para o rapto.
    - Ento porqu?  insiste Kami.
    Tira mais um documento e mostra aos trs.
    - Esta  uma circular interna da Polcia Judiciria datada de 4 de Maio
deste ano, apenas um dia depois da Madeleine desaparecer. Diz que os
agentes devem recomendar aos pais preocupados com a segurana dos
filhos a colocao de microchips nas crianas. Os modernos microchips
permitem a localizao em tempo real do paradeiro da criana, utilizando
os satlites. Alm disso contm toda a informao sobre a criana, e
quando os governos quiserem, poder tambm ser usado como meio de
pagamento nas lojas. At  invocado, aqui, o nome da Madeleine, dizendo
que este rapto poderia ter sido evitado se ela tivesse o chip implantado!
    - Que horror!  diz Yania.
    - Os monstros querem controlar todas as pessoas!  acrescenta
Kami.
    Ijyu sorriu ironicamente.
    - J era de esperar! O admirvel novo mundo monstruoso, onde todos
so vigiados e perseguidos at ao mnimo detalhe!
    - Exacto!!! Mas j estou a imaginar o pior...  que  uma total mentira que
o microchip possa impedir o rapto de uma criana. Muitos criminosos sabem
da existncia dessa tecnologia, e caso fossem eles a raptar a criana com
certeza iriam procurar, atravs de um detector de sinais electromagnticos,
se a criana tinha ou no o chip, e se tivesse, seria bastante fcil retir-lo
porque at agora o chip  introduzido apenas superficialmente, pouco
abaixo da pele. A nica maneira de evitar isso seria introduzir o chip num
local do corpo onde a tentativa de o retirar poderia causar a morte 
criana. Dentro da cabea por exemplo, e ser com certeza isso mesmo



                                      119
Marcos Arago Correia

que os governos iro propor mais tarde. Mas a questo principal, julgo que
vocs j a entenderam...
   - Lgico! Quem protege as crianas dos criminosos dos governos? 
respondeu Ijyu.
   - Exacto!  que os governos passam a ter controlo directo sobre todas
as crianas, e mais tarde, sobre todos os adultos da sociedade, sabendo em
tempo real tudo sobre eles. Isto quer dizer que eles prprios podem raptar,
espancar, violar e assassinar impunemente, com a maior das facilidades,
porque o microchip dir tudo sobre o alvo. E como so eles que fazem o
chip, s eles tero uma chave electrnica, tipo controlo remoto, que activa
ou desactiva o chip quando bem entenderem, evitando a localizao da
pessoa pela famlia. E podero sempre desculpar-se dizendo que o chip
avariou-se ou foi desactivado por criminosos, se questionados sobre o
porqu do chip no estar a funcionar na pessoa desaparecida. E como so
eles, os governantes, que mandam nas polcias, ficaro sempre impunes.
   - Sabendo ns que a Histria nos ensina que a maior parte dos governos
da Terra foram e so constitudos por criminosos da pior espcie, essa 
uma ideia terrvel!  comentou Kami.
   - Claro! Basta lembrarmo-nos de Hitler, Stalin, Mussolini, Mao Ts-Tung,
e tantos outros...  acrescentou Yania.
   - Pois meninas, imagine-se o chip nas mos de qualquer um desses
monstros... Se eles j conseguiram matar milhes de inocentes sem chip,
o que seria se tivessem acesso ao chip!  apoiou Ijyu.
   - Agora percebem o perigo de tudo isto.  que primeiro eles vo propor
o chip, servindo-se duma propaganda manipulada em torno das crianas
que desapareceram. E depois de terem lavado o crebro das pessoas, iro
tornar o chip obrigatrio.
   - Como j fazem com os ces! Porque para eles as pessoas no passam
de ces!  disse Yania expressando abertamente a sua revolta.
   - Tens razo Yania! Mas eles  que so os animais, e no ns! 
concordou Kami tambm revoltada.
   - Tudo isso faz parte dum maquiavlico plano mais vasto dos monstros
para proibirem o Amor na Terra.  Ijyu recorda-se do que estudou quando
vivia na sociedade.  As crianas so sempre um dos alvos preferenciais,
pois alm de serem mais vulnerveis sero tambm os futuros adultos da
sociedade. Uma das maiores perverses dos monstros  fazerem igualar
o termo pedofilia com violaes de crianas. Na verdade, "pedo" significa
criana e "filia" amigo, portanto pedofilia significa realmente "amigo de

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                                            As meninas que vieram das estrelas

crianas". Ora, um verdadeiro amigo de crianas, no as viola nem lhes
faz qualquer outro mal. Ao chamarem amigos de crianas a monstros que
lhes fazem mal, esto a tentar, disfaradamente, incutir nas pessoas que
ser amigo das crianas  uma coisa m. O que leva a que muitos adultos
tenham receio de expressar o seu Amor por uma criana, evitando lhe dar
abraos ou beijos com medo de serem apelidados de pedfilos e serem
perseguidos pela polcia. E se as crianas crescerem sem afecto, sem Amor,
tornar-se-o pessoas doentes e facilmente manipulveis pelos monstros.
A, sendo a ausncia de Amor a regra na prtica e algo aceite como normal,
os monstros daro o passo final de fazerem leis para proibir definitivamente
o Amor na Terra. Essa  a grande ambio deles.
    Ouvindo isto, Yania e Kami jogam-se para cima de Ijyu e comeam a
lhe dar imensos beijinhos e abraos sem parar.
    - Se eles julgam que vo conseguir proibir o Amor, esto muito
enganados! - diz Kami dando um forte abrao.
    - Experimentem mandar a polcia...  um beijinho de Yania  para
prenderem...  outro beijinho  aqueles que nos amam...  e outro beijinho
 e vero o que lhes sucede!  afirma Yania dando imensos beijinhos a
Ijyu.
    Ijyu retribua abundantemente.
    Joo comoveu-se muito e pensava no quanto perdera enquanto tinha
sido monstro.
    Yania e Kami perceberam o pensamento de Joo, e vo at ele dando-
lhe tambm muitos abraos e beijinhos.
    - J no s monstro, e como tal tambm mereces!  diz Yania.
    Mas o inspector Joo ficou envergonhado e inibido pois ainda estava
viciado nas regras hediondas do Mal.
    - Descontrai, relaxa!  dizia Kami fazendo-lhe umas ccegas debaixo
dos braos que finalmente o fizeram sorrir.
    - Obrigado meninas!  responde dando um beijo na testa de cada uma.
 Voltemos ento  nossa conversa...  como que ainda tentando sair duma
situao algo embaraosa.
    As crianas voltaram a se sentar. Sabiam que tinham importantes
questes de trabalho ainda por resolver.
    Joo comps a camisa.
    - Sim,  evidente que o Mal pretende a proibio total do Amor. 
isso que eles querem afinal. E isso tambm passa por eles raptarem e
assassinarem crianas.

                                    121
Marcos Arago Correia

   - Eles! Lembrem-se do eles! Eles levaram-na!
   - De facto, foi a frase de Kate quando regressa ao restaurante informando
que Madeleine desaparecera!  recorda-se Joo.
   - E uma frase muito espontnea... como se o "eles" fosse algo bastante
bvio para ela...  constata Ijyu.
   - Mas ento porque  que a Polcia Judiciria abandonou a tese do rapto,
se a tese do rapto era o que os tais "eles" queriam?  perguntou Yania
tentando esclarecer esse ponto.
   - A soluo est na conjugao destes elementos todos. Eles queriam
a tese do rapto, disseste bem, queriam... Mas a partir do momento em
que vocs aparecem e falam de informaes espirituais sobre a Madeleine,
tudo muda. Eles devem com certeza ter pedido informaes aos servios
secretos, e souberam quem vocs realmente eram. Porque vocs no so
deste mundo, certo?
   Ijyu sorriu.
   - Depende do que considera ser este mundo...
   - Aquele choque na minha mo com certeza no  algo habitual neste
mundo...
   - Pode ser. Mas j imaginou a possibilidade deste mundo ter sido
usurpado aos seus habitantes originais?
   O inspector no percebeu.
   - O mundo inteiro, e todas as suas estrelas e planetas, pertencem ao
Amor, que  a fonte primeira de toda a existncia!  explica Kami.
   - E ns somos Espritos do Amor em misso para devolver a Terra ao
Amor!  informa Yania com muito orgulho.
   - Ento acabaram de dar a resposta ao problema do porqu da tese da
polcia ter repentinamente mudado! Eles no poderiam deixar que, aqueles
a quem eles mais odeiam, ou seja, vocs, fossem os responsveis pelo
resgate do corpo da Madeleine! J imaginaram??? As televises, rdios,
revistas e jornais de todo o mundo anunciando que Espritos do Amor
descobriram, atravs da espiritualidade de Amor, o que aconteceu com
Madeleine? Eles provocaram e depois empolgaram este caso com uma
nica inteno: fomentar o medo global dos raptos de crianas entre as
pessoas, para que todas as crianas sejam marcadas com o microchip. Toda
a populao est a olhar para o caso Madeleine. E ento vocs aparecem
e dizem: ns somos Espritos do Amor e temos informaes espirituais
exactas sobre o que aconteceu  Madeleine! E ento as pessoas vo ao
lago que vocs disseram, e constatam que o corpo da menina est l, e

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                                            As meninas que vieram das estrelas

que o que lhe aconteceu foi exactamente aquilo tudo que vocs disseram!
Tudo! Descrio do assassino e tudo o mais, tudo correcto! Ento toda
a populao ia querer saber mais sobre o Amor, o Amor que descobriu
Madeleine e o seu assassino! Toda a comunicao social de todo o planeta
a falar de vocs e com vocs! Toda a comunicao social a falar do Amor e
a ensinar a verdade sobre o Amor!  o que se chama virar o feitio contra
o feiticeiro!!!
   - Entendemos agora bem, Joo. O porqu disto tudo...  Ijyu olha ao mesmo
tempo para uma fotografia dos Espritos de Madeleine, Joana e Francesca
abraados  Pobres meninas! Vtimas inocentes de monstruosidades to
grandes!  encosta a foto ao corao e fecha os olhos  No deixaremos
que tambm as vossas memrias sejam roubadas. Vamos impedir que eles
consigam aquilo que desejaram quando vos fizeram todo esse terrvel mal.
Estamos ao vosso lado. Incondicionalmente ao vosso lado. Amamo-vos.
   Yania e Kami abraaram-se a Ijyu.
   O inspector dobra o mapa e mete-o num bolso. Joga a carteira com
o distintivo da polcia para o cho. Retira, dum saco que trazia, quatro
lanternas.
   Decididamente, levanta-se. Prepara a pistola.
   - Caro Ijyu, caras meninas, chegou a hora de acertarmos contas com
eles.
   Cerca de uma hora depois, os quatro localizavam uma das entradas
para os tneis subterrneos da Praia da Luz.
   Era uma pequena gruta, escondida por debaixo das escarpas montanhosas
que embelezavam a pequena praia.
   Para aceder  gruta era necessrio estar a mar baixa, o que se
verificava mesmo naquele momento.
   Joo, Ijyu, Yania e Kami entraram na tenebrosa gruta. Hmida, escura e
com um cheiro nauseabundo, apenas compensado pela agradvel fragrncia
lanada pelas ondas do mar. A lanterna que cada um segurava abria um
luminoso caminho por entre o espao nfimo que rompiam sem hesitao.
Mais  frente existia uma descida, e depois de terem atravessado as
longas escadas que mergulhavam nas entranhas do subsolo, um grande
tnel apresentava-se  frente, desta feita com uma largura e altura
considerveis. O silncio absoluto era apenas quebrado pelo respirar
dos quatro. Prosseguiram, movidos por uma causa que lhes aquecia o
corao.
   - Parece no ter fim  sussurrou Kami.

                                    123
Marcos Arago Correia

   - Segundo este mapa temos que continuar at chegarmos a uma
encruzilhada em que confluem seis tneis diferentes  comentou Joo.
   Caminharam mais cerca de meia hora.
   E eis que chegam a um espao, onde se apresentam dois tneis 
direita, dois  frente e dois  esquerda.
   - E agora?  questionou Yania.
   Joo observava atentamente o mapa.
   - O mais  esquerda passa por debaixo da Igreja da Luz. O outro
logo a seguir comunica com um ptio do Ocean Club. O mais  direita
vai em direco a Lagos. Quanto aos outros trs, tm um ponto de
interrogao.
   - Se esse mapa est correcto, interessa-nos seguir os tneis no
identificados  diz Ijyu olhando para as trs alternativas secretas.
   - Tudo indica que est correcto. Alis se compararmos com as direces
que cada um segue, na verdade indo mais  nossa esquerda vamos para
Oeste, onde temos a Igreja. Um pouco mais acima encontraremos o
Ocean Club. E se seguirmos sempre para Este iremos ter  cidade Lagos.
 observou Joo.
   - Parece que  hora de nos concentrarmos na nossa intuio!  constata
Kami.
   - No tenho prtica nessas coisas...
   - No se preocupe, este trabalho  connosco!  responde Kami a Joo.
 Yania, Ijyu, vamos a isto?
   Os trs olharam alternadamente para cada um dos tneis, inclusivamente
para aqueles que estavam identificados no mapa.
   Pouco depois, Yania, Kami e Ijyu olhavam uns para os outros para se
certificarem que j tinham todos acabado.
   - Aquele ali, logo a seguir ao de Lagos. Sinto uma fora horrvel vinda
de dentro...
   - Tambm eu Yania, foi o nico com o qual me senti assim.  confirma
Kami.  E tu Ijyu?
   - Disseram tudo meninas. Vamos!
   Bastou caminharem alguns metros dentro, e pela primeira vez ouviram
sons estranhos vindos l do fundo. Pareciam morcegos, mas no tinham
a certeza.
   De repente os sons percorrem o tnel em direco a eles a uma enorme
velocidade.



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                                            As meninas que vieram das estrelas

    E comeam a ouvir pensamentos de outros, dentro das suas prprias
cabeas.
    - Espritos obsessores!  grita Ijyu  Protejam-se meninas!  e dizendo
isto irradia energia psquica luminosa em direco a Joo, tentando afastar
dele as ms influncias.
    Yania e Kami tapam os ouvidos mas apenas como um acto reflexo.
A defesa que ambas estavam a fazer era concentrarem-se na beleza do
Amor, assim elevando ainda mais as suas vibraes amorosas, as quais
repeliam por natureza os espritos no afins.
    Ambas j tinham tido treino na aldeia sobre defesa contra espritos
obsessores. So uma classe de espritos malvolos que actuam praticando
o mal atravs do uso da telepatia, tentando perturbar o pensamento da
vtima com a transmisso de ideias de grande maldade, ao mesmo tempo
que fazem tudo para ocultar que essas ideias esto a ser emanadas por
eles. Contudo, qualquer pessoa atenta, facilmente distingue de imediato
um pensamento verdadeiramente seu duma comunicao teleptica, pois
esta ltima claramente parece vir sempre do exterior e no do prprio
esprito receptor.
    Yania e Kami conseguiram finalmente libertar-se do ataque dos espritos
obsessores.
    Por sua vez, Ijyu baixou as mos, esperando que Joo estivesse bem,
embora sentissem que ainda existiam presenas malignas  volta.
    - Raa de vboras!  diz Ijyu algo irritado  At quando vamos ter que
aturar estes bandidos?
    - Calma Ijyu! No te irrites, porque isso  o que eles tambm querem!
 aconselha Yania.
    Kami faz uma festinha nas costas de Ijyu.
    Repararam no entanto que Joo transpirava bastante.
    - Ests bem Joo?  perguntou Ijyu.
    - Sim... obrigado...  respondeu limpando o suor do rosto.
    - Ento, continuemos!  sugere Kami.
    Deixaram Joo seguir  frente. Caso ele precisasse de ajuda, qualquer
um dos trs poderia ver.
    - Ele no est bem...  disse Yania ao ouvido de Kami.
    - Esperemos que ele seja forte!  respondeu Kami tambm baixinho.
    Mal respondeu isto, Joo d uns apressados passos em frente, vira-se
e puxa da pistola, apontando-a a Yania.



                                    125
Marcos Arago Correia

    - Parem!  gritou. O suor corria-lhe mais do que nunca por todo o corpo.
O seu olhar estava transtornado.  Vocs vo morrer agora!
    Ijyu preparava-se para levantar a mo de modo a imobiliz-lo atravs
dum intenso raio de energia, mas Yania repara no movimento e puxa a
mo de Ijyu para baixo.
    O dedo de Joo estava agora a fazer mais presso no gatilho da pistola,
mas parecia que era algo que ele verdadeiramente no queria fazer.
    Yania avana para mais perto dele.
    - Joo, tu no queres ser um monstro! Lembras-te do que nos disseste?
Eu senti que vinha do teu corao!
    Joo estende mais o brao da mo que segura a pistola, aproximando-a
ainda mais de Yania.
    - Olha-me nos meus olhos Joo!  pede Yania olhando bem para o fundo
dos olhos dele.  Eu senti o teu Amor quando me abraaste. Deixa-me te
abraar outra vez...
    Ele no diz nada. Mas as suas mos tremem mais do que nunca.
    - Amo-te Joo!  e dizendo isto Yania joga-se para ele, abraando-o
com fora.
    Joo recebe o carinhoso e vigoroso abrao de Yania, mantendo a pistola
na mesma exacta posio.
    Sente na alma toda a maravilha do que  ser amado por uma criana.
    Vence a obsesso. Guarda a arma. E abraa Yania tambm.
    - Mida... perdoa a minha fraqueza...  diz emocionado e magoado
consigo prprio.
    - Joo, eu sei que ainda ests a aprender... no tens que me pedir
perdo... gosto muito de ti!
    - Vamos a eles!  responde, limpando agora uma lgrima que se
destacava nitidamente por entre as gotas de suor.
    Continuam juntos, os quatro, o percurso pelo arrepiante tnel
tenebroso.
    Algum tempo depois, e aps vrias curvas, chegam ao que parecia ser
o fim do tnel. Rocha e apenas rocha. Nenhuma sada visvel.
    Ijyu passa as mos pelas paredes tentando descobrir alguma fresta.
    - Isto  muito estranho. Isto no  uma mina, porque haveriam de fazer
um tnel to longo sem nenhum propsito?  questiona-se Joo.
    Todos olham e tacteiam as paredes  volta.
    - Aqui!  grita Kami  Parece duas rochas unidas!
    Joo puxa uma caneta, tentando limpar a fresta.

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                                             As meninas que vieram das estrelas

    - Isto  uma porta!  constata alguns segundos depois.  O problema
: como vamos abrir uma porta que  uma rocha?
    - Isso no  um problema para ns!  responde Yania, puxando Joo
para trs.
    - Cuidado Yania! Eles j sabem que ns estamos aqui! No sabemos o
que nos espera atrs desta porta!  avisa Kami muito depressa.
    - Por isso mesmo Kami! No temos nada a perder! Todos para trs de
mim!  pede Yania, sem querer demorar mais tempo.
    Ijyu coloca-se  frente de Kami e Joo, mesmo por detrs de Yania,
tentando proteger os trs.
    Colocando as duas mos sobre a rocha, Yania concentra-se. Deseja
muito que a porta se abra. Toca apenas ligeiramente na enorme pedra
fria que constitua um obstculo  passagem dos quatro. Deseja, deseja,
deseja. Deseja em nome do Amor. Eu consigo, diz para si mesma. Temos
que ajudar a Madeleine.
    A rocha range abruptamente. E de sbito abre-se para dentro. Joo
puxa a pistola e entram os quatro.
    Era uma casa. Uma casa normal, das que se podem ver  superfcie. O
cho de madeira sustentava moblias antigas, muitas j consumidas pelo
tempo e carcomidas pela formiga branca.
    Rangendo a cada passo que os amorosos visitantes davam, o cho
mostrava pouco a pouco diversas peas de roupa rasgadas, algumas das
quais tambm sobre os velhos e desgastados mveis.
    Um grande relgio de ponteiros, muito antigo, oscilava tetricamente
o seu pndulo dum lado para o outro. Tic, tac, tic, tac, tic, tac. Parecia
indiferente aos recm-chegados.
    A casa tinha o aspecto de estar abandonada, no fosse o facto de
algumas luzes estarem ligadas, substituindo o Sol que no a alcanava. E
principalmente, no fosse a lembrana que ocorria aos quatro de que um
relgio de pndulo precisa de corda, seno pra.
    Tic, tac, tic, tac, tic, tac. Insistia o relgio, como que querendo marcar
o passo para um enterro.
    Ijyu, Kami, Yania, e Joo sempre com a arma em punho, avanavam
pelas diversas divises da casa, tentando descobrir alguma coisa.
    As roupas rasgadas eram muitas. Muitas mesmo. E todas pareciam de
criana.
    Eis que, enquanto Joo remexia nalgumas das roupas, depara-se com
um pijama cor-de-rosa de menina. Repara no desenho da camisola.

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Marcos Arago Correia

   - Ei! Vejam isto! Um pijama exactamente igual ao que Madeleine usava
na noite em que foi raptada!
   Ijyu tocou no pijama.
   - No  apenas exactamente igual...  o pijama dela!
   - Isto quer dizer que estamos no caminho certo!  afirma Kami.
   Yania olhou  sua volta.
   - Temos que investigar bem toda esta casa. No podemos deixar escapar
nada.
   E passaram todas as divises da casa a pente fino. No existiam mais
portas para a rua seno aquela por onde haviam entrado. Janelas nem
uma. E pessoas, s mesmo eles.
   Nisto, no silncio s quebrado pelo lgubre relgio, parecem ouvir, l
muito ao longe, um choro desesperado de uma criana.
   - Ouviram o mesmo que eu?
   - Xiiiiiuuu!  Yania coloca gentilmente o dedo sobre a boca de Kami.
   Os quatro tentam escutar com mais ateno. O choro fez-se ouvir
novamente.
   -  uma criana! E o som vem por aqui!  Joo avana apressadamente
em direco  cozinha da casa, seguido pelos trs amigos.
   Fizeram novamente silncio.
   Mas o silncio deles foi tambm acompanhado pelo silncio da
criana.
   - Seria mesmo daqui?  questiona Ijyu.
   - Vamos esperar mais um pouco.  sugeriu Joo.
   Pacientemente, aguardaram longos minutos em silncio.
   Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
   - Vem do cho!  todos disseram quase ao mesmo tempo.
   Puseram-se de joelhos, procurando minuciosamente qualquer entrada
no soalho da cozinha.
   Yania descobre uma figura de plstico em forma de barata, atrs dum
velho frigorfico que j no funcionava.
   Cuidadosamente, tocou-lhe com o dedo.
   Zsssssssssssssssssss. Abre-se de imediato um alapo debaixo duma
mesa.
   Umas escadas muito ngremes desciam por ali abaixo. Agora j no
ouviam um s, mas muitos choros e lamentos de vrias crianas.
   Joo vai  frente, seguido por Ijyu, Kami e Yania.



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                                          As meninas que vieram das estrelas

   Reparam que por todo o lado existem grandes teias de aranha. Chegam
ao fim das escadas, e percorrem o tenebroso corredor em frente. Na parede
grandes quadros retratando diversas cenas de violncia contra crianas.
Estas eram espancadas, torturadas, violadas, assassinadas, esquartejadas
e comidas pelos monstros pintados. Monstros horrendos com as mais
variadas formas.
   Tnues luzes vermelhas iluminavam o corredor, realando ainda mais o
vermelho vivo das paredes. O cheiro a sangue est por todo o lado. Ijyu
toca com um dedo numa parede e constata que as paredes, elas mesmas,
eram pintadas com sangue humano.
   Nisto, uma voz horripilante, parecendo de bruxa, ecoa por todo o
corredor de forma estridente.
   - Bem-vindos  minha casa!  e segue-se um terrvel riso
maquiavlico.
   Ao chegarem ao fim do corredor, a porta em frente abre-se.
   Os quatro esto alerta para qualquer ataque. Yania, Kami e Ijyu esto
concentrados para usarem a sua magia a qualquer momento. Joo, sempre
de pistola em punho, pronto para disparar.
   Entram na enorme sala. Reparam que a meio existe uma passadeira
rolante onde deslizam muitas crianas em p. As crianas esto
extremamente assustadas, e tm uma cara de pnico, mas a maioria no
consegue fugir dali, pois existem milhares de monstros ao longo de todo
o corredor. Monstros medonhos, com um corno enorme no lugar do nariz,
orelhas de lobo, penas no lugar dos cabelos e escamas por todo o corpo.
Pendurados em volta de toda a sala esto invlucros de teias de aranha.
Olham bem e reparam que so crianas que foram mortas e colocadas
assim. No final da passadeira rolante, um trono enorme, onde se sentava
uma bruxa horrenda com cara de aranha. Os seus risos diablicos ecoavam
por toda a sala. Cada criana que chegava ao fim da passadeira era picada
pela bruxa no corao, atravs de uma lngua cheia de espinhos e com
uma agulha na ponta, perfazendo mais de 10 metros de comprimento, que
penetrava o peito dos pequeninos, matando-os de imediato. Logo a seguir
a bruxa envolvia a criana numa densa teia de aranha, e esta era levada
pelos monstros e pendurada num lugar vazio das altssimas paredes da
sala. Ao lado da bruxa, muitos cadveres de outras crianas jaziam pelo
cho desfeitos. Tinham sido o alimento mais recente da monstruosa figura.
As poucas crianas que conseguiam fugir da passadeira eram apanhadas
rapidamente pelos monstros, e estes arrancavam-lhes os olhos com as

                                   129
Marcos Arago Correia

suas garras afiadas, colocando-as novamente na passadeira rolante. Sem
viso e a sangrarem abundantemente, no s no podiam voltar a tentar
fugir, como serviam de exemplo para as outras crianas. Os terrveis risos
da bruxa so ensurdecedores.
   Os quatro j tinham visto demais. Ijyu envia para as meninas e Joo,
por telepatia, uma estratgia de aco.
   Pondo-a de imediato em prtica, Yania e Kami disparam bolas de fogo
em direco aos monstros que estavam na passadeira, e abrindo uma
brecha, saltam para ela, empurrando as crianas para fora. Ijyu por sua vez
mata os monstros que tentam apanhar as crianas, enviando com ambas
as mos raios de luz aniquiladora. Joo tenta reunir as crianas que fogem
num s grupo, disparando tiros para todos os monstros que se aproximam.
No entanto os monstros tinham uma pele muito espessa, e as balas no
eram suficientes para os matar. Ijyu apercebe-se, e aproxima-se do grupo
de crianas para lhes dar cobertura.
   Grande confuso na sala. Os monstros andam por todos os lados
desorientados, rugindo como burros. A bruxa continua a se rir de forma
histrica.
   Yania e Kami esto a se aproximar do fim da passadeira. A bruxa est
j a poucos metros delas. J tinham tentado parar a passadeira diversas
vezes, mas no conseguiam. Tentam novamente, sempre desejando
intensamente, mas mal ela pra, anda de novo. Tentam outra vez, mas
volta a andar logo a seguir. Apercebem-se ento que existem espritos
malficos por cima delas, os quais accionam de novo a passadeira com
energia psquica.
   Chegam ao fim da passadeira, e disparam enormes bolas de fogo contra
a bruxa, mas os espritos maus que as cercam apagam todas as bolas antes
que elas atingiam o alvo.
   A lngua da bruxa desliza freneticamente no ar, procurando a sua
prxima refeio.
   A passadeira pra. Yania e Kami esto rodeadas por centenas de
monstros, e mesmo frente ao trono da bruxa, a qual continua a rir como
mil diabos.
   Ijyu e Joo esto ainda bem longe, numa outra parte da sala, a defender
do ataque de milhares de monstros o grupo de crianas que conseguiram
reunir.
   Com voz de vbora repugnante, a bruxa fala para as meninas.



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                                            As meninas que vieram das estrelas

   - As famosas heronas, que enfrentaram a Grande Besta em pessoa!
 ria-se cruelmente.  No  todos os dias que temos convidados desta
envergadura!
   Os monstros rugiam ferozes  volta das meninas.
   - Sabem que aprendemos muito com vocs!  continuou  A vossa
atrevida faanha no se repetir!
   Yania insurgiu-se.
   - Se julga que temos medo duma bruxa asquerosa como voc,
engana-se!
   - Sim, voc  s mais um monstro para ns!  apoiou Kami.
   - hhh!  novos estridentes risos demonacos  Ento dar-vos-ei um
lugar privilegiado na minha mesa. Sero comidas vivas ao meu jantar!
 e dizendo isto, aponta uma horrvel mo para cada uma das meninas
enviando teias de aranha para as aprisionar.
   Yania e Kami defendem-se derretendo as teias, mas os monstros
encarnados que as cercavam e milhes de espritos malvolos desencarnados
que pairavam sobre elas, precipitam-se sobre as duas, agarrando-as por
todos os lados ao mesmo tempo, enquanto um monstro com bata branca
lhes injecta uma anestesia fortssima. Elas ainda lutam para se libertar,
mas as suas foras esto cada vez mais depressa a ceder ao enorme
cansao e sonolncia, provocados pelas anestesias. Yania desvanece, logo
seguida por Kami.
   A bruxa volta a disparar teias de aranha em direco aos corpos inertes
das meninas, envolvendo-os abundantemente com a viscosa substncia.
   - Coloquem-nas aqui ao lado do meu trono.  ordenou qual cascavel. 
J as venho comer! Agora vamos tratar daqueles vermezinhos l ao fundo
da sala.
   Os milhes de espritos maus precipitam-se sobre Ijyu, enquanto a bruxa,
e os outros monstros que estavam junto dela, caminham apressadamente
em direco ao grupo.
   Ijyu estava a conseguir at ento repelir os ataques dos monstros que
os rodeavam, mas os milhes de espritos nefastos que agora o agarravam
por todos os lados, imobilizaram-no por completo. Quanto a Joo, que no
sabia nada de magia, foi detido por apenas quatro monstros encarnados.
O grupo de crianas foi tambm imediatamente rodeado por centenas de
monstros. A bruxa conseguira levar a melhor.
   Os diablicos risos estridentes voltam a ecoar novamente pela imensa
sala.

                                    131
Marcos Arago Correia

   A bruxa aproxima-se do grupo. Vem agora acompanhada por um seu
grande amigo, o Coordenador da Polcia Judiciria.
   - Parece que um dos seus subordinados o traiu...  comentou para o
coordenador da polcia.
   - Eu avisei esse gajo que era para no se meter connosco!  vai ao grupo
de crianas e retira uma menina de 4 anos, que estava muito assustada
e chorava imenso.
   A bruxa riu novamente.
   - Olha para aqui verme!  disse o coordenador para Joo enquanto
levantava a menina no ar pelo pescoo.  Querias proteger as criancinhas,
ento protege esta, que vai morrer mesmo agora  tua frente!  e puxa a
pistola, encostando-a  cabea da criana.
   Ijyu no podia fazer nada. Estava totalmente imobilizado por milhares
de monstros encarnados e milhes de monstros desencarnados, estando
estes ltimos constantemente a enviar torrentes de energia malfica para
enfraquecer Ijyu e impedi-lo assim de usar a sua prpria magia.
   Joo tenta libertar-se dos monstros que o agarravam, mas tambm no
consegue.
   - Mata-me a mim em vez, e deixa essa pobre criana em paz!  grita
revoltado.
   O coordenador riu-se.
   - Muito nobre! Mas sinceramente, acho que prefiro mat-la primeiro,
e depois ento a ti. Sabes... eu avisei-te que acontecem acidentes com
as armas... por vezes as pistolas disparam sozinhas!  voltou a se rir
maquiavlicamente.
   O coordenador fora a pistola pela boca da menina adentro.
   Pummm! Ouve-se um tiro.
   O coordenador olha aflito para Joo.
   Joo conseguira retirar a sua arma e dera um tiro certeiro no corao
do coordenador. Os monstros que seguravam Joo cortam-lhe a mo que
segurava a pistola.
   O monstro que liderara o departamento da Polcia Judiciria onde
trabalhou Joo, cai por terra morto, e a menina cai por sua vez em cima da
sua enorme barriga, e corre de imediato para junto das outras crianas.
   - Matem-no!  ordena a bruxa aos monstros que seguravam Joo, os
quais obedeceram prontamente, decepando Joo.
   A bruxa volta a se rir diabolicamente.



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                                            As meninas que vieram das estrelas

    - Hoje vou comer mais crianas ao jantar, para compensar todo este
exerccio que estou a fazer. Preciso de mais calorias!  ri-se de novo a
bruxa.  Quanto a ti, Ser asqueroso, filho desse Deus fraco e repugnante,
o qual at o nome me d vmitos, quanto a ti, devo-te dizer que no gosto
de carne adulta,  rija demais, por isso vou-te despachar aqui mesmo!  e
abre a mo, preparando-se para jogar um feitio mortfero contra Ijyu.
    - Posso pedir um ltimo desejo?  pergunta Ijyu com muito esforo.
    - No concedo desejos a ningum, a no ser de morte!!!  e fez ecoar
novamente os seus estridentes risos diablicos por toda a sala.
    - S te quero recordar todos os teus sucessos  faz uma pausa pelo
extremo cansao em que se encontra  Todas as crianas que j conseguiste
matar impunemente.
    A bruxa enche-se de orgulho.
    -  verdade que j lhes perdi a conta!
    - Trago uma lista de algumas delas... os nomes mais recentes das
crianas que morreram nas mos... nas mos das trevas.
    - As mos das trevas so principalmente as minhas mos! L-me l
esses nomes, que eu j te digo quais as que eu comi  e ordena aos
monstros encarnados que o revistem  procura de armas.
    Informada de que Ijyu no possua nenhuma arma, a bruxa d ordens
aos espritos malvolos para que, sem cessarem a emanao de energia
malfica contra Ijyu, permitissem que ele usasse apenas uma mo para
ler a lista.
    - Se julgas que vais usar a tua rica mozinha para me matares,
enganas-te, porque os meus servos espirituais continuam a te retirar toda
a tua fora mgica!
    - Eu no te vou matar... sei que no posso... como tu sabes que eu no
posso.
    Efectivamente de nada servia o uso somente de uma mo a Ijyu, pois
ele no tinha armas, e os milhes de espritos nefastos que o rodeavam
continuavam a irradiar em permanncia imensas ondas malficas contra
ele, impedindo desse modo o uso dos seus poderes mgicos.
    Ijyu retira a muito custo a lista do bolso da sua camisa.
    Com um esforo imenso e uma difcil respirao desesperante, comea
a ler pausadamente os nomes de vrias crianas mortas pelos monstros.
    - Erica, 5 anos, raptada, violada e assassinada; Sofia, 7 anos, raptada
e estrangulada; Ana, 3 anos, violada e assassinada pelo pai; Joo, 4
anos, raptado, violado e espancado at  morte; Andr, 4 anos, morto 

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Marcos Arago Correia

bofetada pela me; Joana, 8 anos, raptada, espancada e assassinada por
um tio; Madeleine, 3 anos, raptada, espancada, violada e assassinada;
Francesca, 9 anos, morta por um fungo que lhe invadiu os pulmes;
Fernando, 10 anos, raptado, violado e contaminado com uma bactria
que lhe provocou a morte; Ins, 9 anos, envenenada pela me; Pedro, 2
anos, violado e afogado pelo av na banheira; Maria, 5 anos, morta por um
vrus que lhe causou cancro no estmago; Antnio, 11 anos, assassinado
pelo mdico numa operao cirrgica; Sara, 6 anos, raptada, violada e
assassinada por um polcia; Eduardo, 4 anos, morto a pontap pelo irmo
mais velho; Andreia, 9 anos, morta por um cancro provocado pela extrema
infelicidade em que vivia; Joaquim, 3 anos, violado e estrangulado pelo
primo; Catarina, 7 anos, violada e assassinada por um funcionrio do
orfanato onde estava internada; Marta, 8 anos, violada e queimada at 
morte pela me; Ricardo, 5 anos, atropelado intencionalmente e fatalmente
pelo padrasto; Frederica, 4 anos, raptada, violada e assassinada; Teresa,
9 anos, espancada at  morte pelo professor; Luzia, 5 anos, raptada,
violada, espancada e assassinada.  suspirou.  No consegui escrever
mais nomes. So j centenas de milhares ao todo...
   A bruxa irritou-se.
   - S isso? Disseste que me irias ler os nomes de crianas que eu matei,
e contudo s uma pequena parte dos que leste vieram parar  minha
mesa!  exaltou-se ainda mais  Olha para todas estas paredes... repletas
dos meus trofus!  apontava para os cadveres das crianas envoltos em
teias de aranha  So j mais de cinquenta mil!
   - At quando?  perguntou quase a desmaiar de cansao.
   Ijyu estava com esperana que todos os nomes que citara tivessem
sido ouvidos no Alm. O seu plano ao l-los era exactamente esse, o de
funcionar como uma invocao.
   - A fora das trevas  imensa, porque o Mal no tem escrpulos!
Enquanto vocs so uns fracos, com todos os vossos moralismos, nem se
defenderem conseguem!  riu-se diabolicamente mais uma vez.
   De repente, no meio da sala, uma intensa luz branca comea a surgir,
e milhares e milhares de resplandecentes Espritos comeam a tomar
forma.
   Eram os Espritos de dezenas de milhares de crianas mortas pelos
monstros, acompanhados por vrias centenas de Anjos da Guarda!
   Ijyu sorriu!



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                                           As meninas que vieram das estrelas

   A luz de Amor era tanta e to forte, que os monstros encarnados faziam
tudo para taparem os olhos.
   Os Espritos do Amor recm-chegados caminham de mos dadas pela
sala em direco ao grupo onde se encontrava Ijyu, cantando em coro uma
cano de fantstica doura.
   Na linha da frente, Madeleine, Joana e Francesca, acompanhadas por
Lyndi.
   No precisam fazer nada mais.
   A maravilhosa luz que emanam faz explodir,  sua passagem, todos os
monstros encarnados.
   Os milhes de espritos malvolos guincham como loucos, pois sentem
toda aquela imensa concentrao de Amor emanando em todas as direces.
No suportam mais, e fogem em debandada.
   A bruxa corre para debaixo de uma mesa, tentando proteger-se.
   Todos os monstros fugiam ou eram destrudos. Ijyu  libertado, e cai
de joelhos devido ao cansao.
   Madeleine aproxima-se dele. Ijyu, feliz, olha para ela.
   Estende os seus pequenos braos luminosos e envolve Ijyu com um
fabuloso abrao espiritual, que o revigora de imediato.
   O Amor que emana para Ijyu  to grande, que ele j est curado a
cem por cento, e os seus poderes mgicos prontos a serem utilizados
novamente.
   Ijyu chora de felicidade.
   Madeleine d-lhe um beijo no rosto, e diz-lhe com muito carinho:
   - Obrigada Ijyu, por tudo o que fizeste por ns.
   Um pouco mais atrs, Joana faz um belo gesto com as mos e muitas
estrelinhas luminosas formam-se magicamente. Ela olha docemente para
Ijyu. Estende os seus braos para ele, tal como desenhando no ar o
caminho que as cintilantes estrelinhas deviam tomar. E sopra-as com
muito Amor. Ijyu v-se logo rodeado por todo o imenso carinho de Joana,
representado por milhares de lindas pequenas estrelas que esvoaavam
 sua volta e, tal como bolinhas de sabo, se desfaziam com ternura ao
tocar no seu corpo. Olha para ela, com os olhos que pareciam agora rios
revoltos transbordando de lgrimas.
   - Filha... desculpa ter demorado tanto tempo...
   Joana corre para ele e pinta-o de beijos com a mesma cor das guas
que agora tambm corriam pelos olhos dela, as quais, unindo-se s de Ijyu,
pareciam formar oceanos sem fim.

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Marcos Arago Correia

   - Pap... amo-te!
    deslumbrante beleza destes momentos, junta-se mais uma maravilhosa
estrela, Francesca, que acaba de preencher com amorosos beijinhos todas
as partes da face e do pescoo de Ijyu que ainda faltava. Ijyu abraa as
trs crianas com um inseparvel Amor.
   Entretanto, vrios Espritos crianas, e vrios Anjos da Guarda, trazem
Yania e Kami livres das teias de aranha e tambm j curadas.
   Elas juntam-se a Ijyu, Francesca, Joana e Madeleine, e os seis abraam-se
com fora.
   As trs meninas em Esprito do igualmente muitos beijinhos amorosos
a Yania e Kami, agradecendo-lhes tambm tudo o que elas fizeram pelas
crianas.
   Lyndi aproxima-se, e sorri para Ijyu.
   - Alguma vez achaste que ns amos vos abandonar?
   Ijyu levanta-se.
   As lgrimas de felicidade ainda lhe correm pelo rosto.
   - Nunca Lyndi! Nunca!  e os dois abraam-se tambm cheios de Amor
um pelo outro, dando um longo e maravilhoso beijo na boca.
   Yania sugere s outras meninas que todos aplaudam o Amor, representado
em especial naquele momento pelo beijo de Lyndi e Ijyu.
   As cinco comeam a aplaudir, e todos os Espritos fazem o mesmo,
assim como o grupo de crianas que foi libertado.
   Yania lembra-se agora de Joo. Onde est ele?  questiona-se.
   Caminha  volta olhando para todos os lados, e descobre o seu corpo
mutilado jazendo no cho.
   Ao seu lado est a menina que ele salvara, e que era tambm um
Esprito do Amor. Conta a Yania o que ele fez por ela. O que ele fez, em
troca da sua prpria vida.
   Yania ajoelha-se frente ao cadver. Fecha os olhos e concentra-se no
Esprito de Joo.
   - Obrigada por tudo Joo. Tenho a certeza que ests bem agora. Lutaste
pelo Amor e o Amor acolheu-te nos braos. S bem-vindo entre ns!  orou
Yania em pensamento, sentindo que Joo tinha sido j encaminhado por
Anjos da Guarda para um planeta de Amor.
   Kami, Ijyu, Lyndi, Francesca, Joana e Madeleine, juntam-se a Yania na
orao por Joo.
   Lyndi diz a todos que Joo concluiu a sua regenerao, e que era agora
um Esprito do Amor como eles.

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                                            As meninas que vieram das estrelas

    Yania levanta-se.
    -  altura de tratarmos daquela bruxa malvada!
    Kami, Ijyu e Yania seguem Lyndi, Madeleine, Joana e Francesca que
indicam onde est a bruxa, que j tinha sido aprisionada pelos outros Anjos
da Guarda.
    Toda amarrada por uma intensa corda de luz amorosa que lhe retirava
todos os seus poderes mgicos satnicos, a bruxa grunhia simultaneamente
de raiva e medo.
    Cinco lindos Anjos da Guarda, trs com forma feminina e dois masculina,
guardavam a bruxa, impedindo qualquer tentativa de fuga.
    -  toda vossa meninas!  diz Ijyu para as cinco crianas.
    As meninas do ento as mos. Madeleine estava a meio de Joana,
Francesca, Yania e Kami, e sorria sem rancor para a bruxa.
    - O que querem Espritos da Luz??? Vieram me atormentar???  perguntou
ansiosa a bruxa.
    - No, s viemos te provar que o Amor  a fora mais bela e poderosa
do Mundo inteiro!  responde Kami.
    - E que te podamos torturar, como tu fizeste a todas estas crianas,
mas no somos iguais a ti!  acrescenta Yania.
    - Ento libertem-me!  gritou.
    Yania sorri.
    - Mas tambm no somos parvos! Vamos nos certificar que nunca mais
poders levantar um dedo contra nenhuma criana!
    As cinco meninas confidenciaram baixinho entre si por alguns
segundos.
    - Decidimos que sejas jogada para a galxia do Inferno, e que nunca
mais de l possas sair. Se tentares sair, o teu esprito ser aniquilado e
morrers para sempre.  disse Yania.
    - A no ser que te regeneres. Se te regenerares sers resgatada do
Inferno. Mas sabendo ns o quanto m tu s, isso no ser com certeza
para os prximos milhes de anos.  explica Kami.
    - Mais provavelmente nunca acontecer!
    - Pois Yania,  o mais provvel, porque um monstro to mau como este
dificilmente se arrepende do mal que fez!  apoia Kami.
    - Tm toda a razo, suas criaturas nojentas! Antes morrer para sempre,
do que me tornar igual a vocs!  responde furiosa a bruxa.




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Marcos Arago Correia

    As cinco crianas fizeram um crculo entre si, sempre com as mos
dadas. Desejaram muito intensamente que o castigo contra a bruxa fosse
aplicado do modo que combinaram.
    Os Anjos da Guarda presentes ouviram os desejos das crianas, e
consideraram serem justos.
    As meninas afastam-se.
    Yania tem tempo ainda de dizer  bruxa:
    - E j agora, costumam dizer na sociedade, que o ltimo a rir  o que
ri melhor!
    Mas a bruxa nem pde responder.
    Os Anjos da Guarda desencarnaram o seu malvado esprito e levaram-no
de imediato, com uma velocidade espantosa, pelo espao sideral at s
portas do Inferno, para dentro do qual o jogaram. Os Espritos do Amor
que vigiavam, do exterior, essa tenebrosa galxia, foram avisados de que
aquele esprito monstruoso no podia mais sair de l.
    Entretanto, Yania e Kami recolheram os dados do grupo de crianas
libertadas, de modo a que cada criana pudesse regressar  sua famlia.
    Madeleine, Francesca, Joana e todas as outras crianas em Esprito,
despediram-se com muita ternura de Ijyu, de Yania e de Kami. A maior
parte dos Anjos da Guarda acompanhou-as de volta ao mundo espiritual.
Ficaram apenas os Anjos suficientes para proteger todos os encarnados
at  sua sada do subsolo. Embora,  certo, j no fosse necessrio, pois
os monstros h muito que haviam desaparecido dali. Era s uma medida
de precauo, no fosse o Diabo tecer mais alguma.
    Todos saem sos e salvos dos tneis. Era j noite l fora. Uma bela e
grande nave do Amor pairava sobre o mar. O grupo caminha mesmo at ao
limite das ondas do oceano. Como era bom sentir novamente o ar fresco
da praia! E como era bom poder ver outra vez as estrelas no cu!
    A nave aproxima-se silenciosamente do grupo, e todos entram por uma
pequena ponte com escadinhas, sada da porta do objecto voador.
    Ijyu abraa mais uma vez Lyndi, beijando-a apaixonadamente na boca.
E a seguir Lyndi beija tambm Yania e Kami.
    E a nave levanta voo, disparando ao se afastar um denso e certeiro
raio de poderosa energia, que provocou o desmoronamento de toda a
construo subterrnea da bruxa.
    As crianas salvas so colocadas, uma a uma, em cada uma das suas
casas. Geralmente a nave parava nas redondezas mais desertas, e depois
Ijyu, Yania e Kami acompanhavam a criana da at  porta.

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                                            As meninas que vieram das estrelas

    Trs horas depois, o trabalho estava concludo.
    A nave deixa Yania, Kami e Ijyu na aldeia.
    Ijyu agradece s meninas, do fundo do seu corao, tudo o que elas
fizeram pelas crianas. E regressa  sua casa.
    Kami e Yania ficam um pouco mais no descampado onde a nave as
deixara, iluminadas por uma bela lua cheia.
    Quiseram descansar um pouco ali mesmo, sob o olhar cintilante das
deslumbrantes e fantsticas estrelas do cu. Sentaram-se numa pedra
rodeada por muitas flores. Corria uma agradvel aragem morna.
    - Kami, amo tanto o Amor, e gostaria tanto que j no existisse maldade
na Terra, tal como aqui na nossa aldeia!  exclamou com os olhos brilhando
intensamente.
    - Se todas as crianas da Terra escolhessem o Amor como ns,
certamente o Mal j no mais existia neste planeta!  respondeu tambm
com um olhar repleto de luz.
    - Desejo tanto que elas no se deixem enganar...
    - Yania,  preciso que as crianas da Terra olhem para as estrelas do
cu, e falem com elas. Que lhes peam ajuda sempre que precisarem, e
que no se deixem maltratar, pois todas tm direito a escolher o Amor.
    - Eu sei, como eu tambm fiz...! Mas como podemos fazer com que elas
procurem mais no cu?
    - Pois, isso j no sei... mas os livros foram importantes para ti...
    - Sim,  verdade! Li num dos meus livros que a estrela mais brilhante
do cu era um Anjo da Guarda. Acreditei, procurei-a, pedi-lhe, e pronto...
estou hoje aqui ao teu lado porque era mesmo real!
    - Seria ento uma boa ideia que fosse escrito um livro mgico de Amor,
um dos mais mgicos  face da Terra, e que essa magia percorresse o
planeta todo, ensinando s crianas toda a verdade sobre o Amor!
    - ptima ideia Kami! Vamos desejar ento isso?
    - Sim, vamos!
    Levantaram-se com doura. Puseram-se de frente uma para a outra, e
deram as mos.
    - Desejamos que seja escrito um livro mgico cheio de Amor, e que esta
magia toque no corao de todas as crianas que querem o Amor, e as faa
procurar no cu a estrela mais linda e mais brilhante de todas!  sugeriu
Yania a frmula do desejo.
    - Sim, desejamos!!!
    E ambas desejaram muito intensamente.

                                    139
Marcos Arago Correia

    Olharam as duas para o cu, e entre as milhares de estrelas
maravilhosas, conseguiam ver uma bem especial. Uma esplndida estrela
muito cintilante, que bem l no alto, parecia acenar para ambas com o seu
brilho deslumbrante.
    -  ela!  exclamou Yania apontando para cima.
    - Sim,  sem dvida muito linda e muito brilhante!
    Yania olhou agora para bem dentro dos olhos da amiga, contemplando
a sua alma.
    - Kami, como pode ser possvel algum fazer mal a um Esprito to lindo
de Amor?
    Sentindo o Amor que Yania emanava por si, Kami fixou-se tambm nos
olhos dela, meditando sobre a sua beleza.
    - Olho para ti, e tambm vejo Deus...  comentou muito feliz.
    Abraaram-se muito afectuosamente, deram muitos beijos uma na
outra, e correram para a aldeia.
    Confiavam plenamente no Amor, do qual elas faziam parte, e nos seus
poderes mgicos deslumbrantes.
    E por isso sabiam que, dentro em breve, muitas meninas e muitos
meninos estariam olhando para o cu  noite, procurando a estrela mais
linda e mais brilhante de todas.




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                        Ficha tcnica




Ttulo: As meninas que vieram das estrelas.
Autor: Marcos Teixeira Da Fonte Arago Correia.
Data de concluso do livro: Maro de 2010.
Copyright () de: Marcos Teixeira Da Fonte Arago Correia.
Registado no MC-IGAC (Portugal) com o n: 1662/2010.
Todos os direitos reservados ao Autor.




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         "As meninas que vieram das estrelas"
Copyright de  Marcos Teixeira Da Fonte Arago Correia.




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